"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.
Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas.
Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.
Carnaval era meu, meu."

(Clarice Lispector )







segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

O BLOCO CARNAVALESCO LÍRICO APÔIS FUM - por João Montarroyos



BLOCO APÔIS FUM: O LIRISMO E A OUSADIA DE MOMO*

João Montarroyos**
Professor, escritor e pesquisador



Até a década de 1920, os carnavais do Recife aconteciam ao sabor das evoluções dos clubes pedestres, os quais geralmente representavam algumas profissões durante o período de momo. Entre os principais, pode-se citar o Vassourinhas, o Empalhadores, o Toureiros e o Batutas de São José, o Caiadores, o Clube das Pás, que até hoje povoam os nossos corações de paixão e saudosismo.

A partir daquela década, contudo, o carnaval recifense irá se abrilhantar de emoção e cores que somente os blocos carnavalescos, aos quais chamamos “blocos líricos”, puderam proporcionar ao folião. Surgidas a partir dos cordões de isolamento onde podiam desfilar as senhoras e senhoritas da época, tais agremiações vingaram graças ao sentimentalismo já impresso pelos presépios, onde as mulheres cantavam e os homens tocavam somente seus instrumentos de pau-e-corda, como sejam os bandolins, violões, pandeiros, etc., admitindo, quando muito, além disso, uma gaita de sopro. Os Irmãos Valença (João e Raul) tiveram fundamental importância em tal processo, pois era muito famoso o presépio que mantinham no Casarão da Madalena, no sítio dos Valença, uma tradição herdada de seus avós.

Assim, como não aprazia às senhorinhas frequentarem o carnaval dos clubes pedestres, tais grupos cantantes acabaram fundando os blocos de rua, uma extensão de seus elegantes saraus.

Os versos da marcha Último Regresso, de Getúlio Cavalcanti, nos dão bem uma dimensão desta verdade (grifo do autor):

É lindo ver
O dia amanhecer
Com violões e pastorinhas mil,
Dizendo bem
Que o Recife tem
O carnaval melhor do meu Brasil!

Vários foram os blocos daquela década áurea do carnaval pernambucano: o Bloco das Flores (o primeiro a se formar), Flor da Lira, Andaluzas, Pirilampos, Crisântemos, destacando-se especialmente, entre eles, o bloco Apôis Fum, uma vez que sua estréia realmente viria a mudar os rumos dos carnavais de então. Aquele primeiro já se chamara, dois anos antes, Bloco das Flores Brancas. Com sede na Praça Sérgio Loreto, à Rua Imperial, na residência do capitão Pedro Salgado, tinha por maestro o Príncipe Raul Morais, compositor e regente de sua marcha regresso.

Contrariando o que normalmente cita a maioria dos pesquisadores do gênero, o bloco Apôis Fum, originário da Torre, foi efetivamente fundado em 1923, e não em 1925 (chegando-se ainda a afirmar, absurdamente, o ano de 1929), conforme se pode depreender da edição do Jornal Pequeno, de 2 de fevereiro de 1923: “APÔIS FUM – No próximo domingo, a Torre estará pelo avesso, segundo profetizou o Raymundo da Elite. É o dia do ensaio batuta do batuta mestre Felinto com os seus meninos da orquestra Apôis Fum, que vai constituir a nota carnavalesca [...]”. Em número do Jornal do Commercio, de 4 de março de 1924, o Apôis Fum é citado, para não restar mais nenhuma dúvida quanto ao ano de sua fundação, como associação que se exibia naquele carnaval “com igual denominação desde o ano passado”, referindo-se ao carnaval do ano anterior, portanto o de 1923.

Os torreanos, aliás, sempre souberam dignificar a folia, dali saindo grandes agremiações, como foi o Um Dia Só, fundado pelo Prof. José Severino Calazans, regente dos coros das Igrejas Batistas da Torre e de Iputinga. Também fundou uma escola de primeiras letras na Rua Belarmino Carneiro. É de sua autoria a marcha de saudação aos grandes blocos da época, entre eles o Apôis Fum:

Em saudação sincera, o Bloco Um Dia Só,
A estes blocos tão apreciados,
Saúda todos com ouro em pó.
A todos desejamos, prazer e simpatia,
Vitória inconteste, que o povo ateste com alegria.


Um dia Só ainda chegou a ser Campeão da Cidade, mas, depois de dois anos de existência, desfez-se, por dissensões, surgindo daí um novo bloco, o Bobos em Folia, que logo teve por rival o sapeca Sabido Não Grita.

Infelizmente, é na Torre que ainda lembramos d’ A Dor de Uma Saudade, marcha composta por Edgar Morais em homenagem ao seu mano Raul, que viria a falecer em 8 de setembro de 1937, na Rua do Cailigeiro, hoje denominada R.Dom Manuel da Costa, no mesmo bairro.

Mas Edgar Morais também compôs marchinhas bem alegres, embora sem nunca abandonar o espírito saudosista, como se percebe em sua marchinhaValores do Passado:

Blocos das Flores, Andaluzas, Cartomantes,
Camponesa, Apôis Fum e o Bloco Um Dia Só.
Os Corações Futuristas, Bobos em Folia,
Pirilampos de Tejipió.
A Flor da Magnólia,
Lira do Charmion, Sem Rival,
Jacarandá, Madeira da Sé,
Crisântemos, Se Tem Bote e Um Dia
De Carnaval [...].

O Apôis Fum formava um bloco de notáveis, tendo em suas fileiras títulos de honraria militar que conferiam distinção social, adquiridos à Guarda Nacional, como ocorria com o capitão Fenelon Albuquerque e o coronel Francisco de Sá Leitão, seu presidente de honra. À frente das finanças, o então respeitado comerciante da praça, Raymundo Silva, proprietário do Salão Elite, o que lhe valeu o apelido de Raymundo da Elite. O seu principal representante, contudo, viria a ser o carnavalesco Felinto de Morais (um dos maiores violonistas da época), todos homenageados na composição do saudoso maestro Nelson Ferreira, Evocação nº.1 (1957):

“Felinto/ Pedro Salgado/ Guilherme/ Fenelon/ cadê seus blocos famosos: Bloco das Flores/ Andaluzas/ Pirilampos/ Apôis Fum/ dos carnavais saudosos! [...]”. (grifos do autor)

Embora nascidos em bairros distintos, era comum a muitos clubes possuírem sua sede em locais centrais, mais privilegiados em relação à freqüência popular. Foi assim, também, com o Apôis Fum: no ano de sua fundação, em fevereiro de 1923, o bloco instalara-se, “desde o sábado gordo até a 4ª feira, no confortável prédio, nº.39, à Rua da Imperatriz, tendo este firmado contrato com a Mme. Baldi, que ali mantém um salão de danças.” Também já se instalou na Rua Nova, sobre a famosa Confeitaria Crystal, ponto de grandes eventos da cidade e onde seis anos depois seria assassinado o então governador do estado da Paraíba, João Pessoa de Albuquerque, deflagrando-se a partir daí a famosa Revolução de 1930.

Seus ensaios, contudo, eram sempre realizados na Rua José Bonifácio (antiga Rua do Rio), no bairro da Torre, na residência do ilustre Sá Leitão – em local hoje correspondente ao prédio confronte ao SESI do mesmo bairro – de onde a famosa agremiação saía em préstito para saudar os seus concorrentes e o público em geral, notadamente a imprensa. Antes de qualquer apresentação, porém, o bloco subia a rua até as margens do imponente Capibaribe – em cujo leito iam rebolando suas águas, ao som da alegre fanfarra –, dali retornando para ganhar as ruas principais do bairro. Muitas vezes reencontravam-se, o bloco e o rio, em confraternização no centro do Recife, de onde as águas retomavam o rebolado da farra, para depois quedarem-se, exaustas, nos braços do mar.

Tais seções eram sempre muito apreciadas pelo público do bairro, que para ali acorriam em êxtase, como vemos por ocasião de seu primeiro ensaio, no dia 4 de fevereiro de 1923, um domingo de prévias carnavalescas: “Foi um sucesso o ensaio, ontem, da pesada orquestra Apôis Fum, bloco composto por famílias, senhoritas e rapazes da Torre. A casa do Sá Leitão foi invadida por uma onda polvorosa, onde todos faziam o passo do cavalo-do-cão não é aeroplano.” A prévia durou dez horas, iniciando-se o ensaio ao meio dia daquele festivo domingo, encerrando-se somente às 22 horas do mesmo dia. Ali já se marcara novo ensaio para a quarta-feira seguinte, acertando-se a quinta-feira para uma apresentação à imprensa, na Praça da Independência, às oito da noite, em frente ao Salão Elite, do tesoureiro Raymundo.

A apresentação à imprensa foi fantástica, como fantástico já se mostrava aquela danação do Apôis Fum, um bloco que viera para marcar, definitivamente, os carnavais recifenses. Às oito e meia, o povo já se exasperava no frevo, logo servido de farta mesa de bolinhos e “sandwichs, regalados à cerveja Antarctica e Teotonia”. Depois de muitos discursos, saudações e “mil vira-voltas”, o bloco voltou ao Elite, e lá permaneceu até a hora do regresso, que se deu às onze da noite.

No domingo de carnaval daquele ano, o Apôis Fum conquistava, de uma vez por todas, as ruas do carnaval recifense; trazia como destaque um carro alegórico que representava um bloco de neve, onde se postava sua porta-estandarte, uma bela jovem. Sua saída se deu às 15h, deixando a sede da Imperatriz para percorrer os principais pontos da cidade, visitando a ponte da Boa Vista, Rua da Concórdia, Campina do Bode (atual Cinco Pontas, no bairro de São José), Av. Lima Castro (atual R. Imperial), Praça da Independência, oPalácio do Governo, para depois retornar a sua sede, à Rua da Imperatriz. A sua inolvidável orquestra era composta de 24 violões, 6 cavaquinhos, 3 trombones de vara, 2 flautas, e reco-recos, 2 ganzás, 2 bombardinos, 2 bombardões, 1 saxofone, 2 surdos, 1 flautim, 3 pandeiros, 2 clarins, à frente o boêmio Felinto de Morais. Comandando os instrumentos de cordas, tanto quanto os de sopro, o Prof. José Lourenço da Silva, o Zuzinha, regente da Banda de Música da PMPE.

O carnaval seguinte, no ano de 1924, representou a verdadeira apoteose do bloco Apôis Fum. Nesse ano, a imprensa, pelo Jornal do Commercio, promovia um concurso para premiar os destaques do carnaval. O Jornal do Commercio inaugurava sua Seção Carnavalesca, atraindo várias casas comerciais para a doação de prêmios a serem conferidos aos melhores daquele período momesco. Os agentes da Ford, aqui no Recife, por exemplo, premiariam os dois automóveis que melhor se apresentassem no corso, desde que tivessem a marca Ford e pneus Goodyear.

Aquele fora um dos mais concorridos carnavais da cidade, impregnado de alegres clubes, tais como Dragões de Momo (S. José), Jacarandá (idem, fundado por Raul Morais), SeTem...Bote (Torre), Pyrilampos (Tejipió), Lobos de Afogados (Afogados), Philocríticos de Campo Grande (Campo Grande), Os Inocentes (Paulista), Andarilhos do Feitosa (Feitosa, atual Hipódromo), Apronta a Coisa que Eu já Chego (idem), Chora para Mamar (Av.Lima Castro, atual R. Imperial), Brinca Quem Pode (Casa Amarela – Av.Norte), e muitos outros alegres bandos recém-fundados. Num lapso de discriminação, os negros também se misturavam a tais empreendimentos, apresentando igualmente suas luxuosas fantasias, de ricos bordados e farto simbolismo.

A elite procurava os salões do Clube Internacional (à época ainda localizado na R. da Aurora) – cujos estatutos foram aprovadas em Assembléia Geral de 6 de outubro de 1895 – ou o Club Allemão, que teve nesse ano a sua sede improvisada em um navio – o DEKAPE – ancorado junto à ponte da Torre, ali realizando, a 10 de fevereiro, o seu “brilhante festival”.

Nada estancava a farra. Fartamente anunciada pelos jornais, a previsão de muita chuva, ao contrário do temor de repetição das recentes enchentes – como o Capibaribe a saltar de seu leito para misturar-se aos brincantes – provocou até um concurso de glosas, de onde podemos extrair a seguinte:

[...]
Momo de capa, galocha
E guarda-chuva? Não vai!
Como acender suas tochas,
Se a chuva abundante cai?
Como o frevo à rua sai?
[...]

Festa depreciada pela Igreja, nem os padres escaparam da língua ferina dos foliões:

Até os frades do convento
Na cela se sentem mal...
Eu digo, juro e sustento:
Eles, só por fingimento,
Não gostam do carnaval.

O grande poeta pernambucano Austro Costa também não deixava escapar uma alfinetada e disparava, mexendo nos dois institutos que mais apaixonam o povo pernambucano:

Não sei se devo ou não devo
Dizer, mas, digo, afinal:
Se até Roma fosse o frevo
Teria bênção papal.

Considerado um dos mais finos da cidade, o bloco Apôis Fum tinha a sua coreografia e decoração a cargo do mestre Eustórgio Wanderley, professor de Artes da Escola Normal do Estado. Seu quadro de maestros, compositores e coro destacava-se pelas figuras relevantes do velho Raul Morais, grande compositor de marchas para blocos, hoje um imortal da música carnavalesca;Augusto Calheiros – o Patativa do Norte - ; José Lourenço da Silva, o Zuzinha, regente da Banda de Música da Polícia Militar de Pernambuco, além dos irmãos Luperce e Romualdo Miranda, que depois viriam a compor o conjunto Turunas da Mauricéia, juntamente com Augusto Calheiros (voz), João Frazão (diretor e violão), o cego Manuel de Lima (violão), e o irmão João Miranda (violão), fazendo grande sucesso suas apresentações no Rio de Janeiro.

Outro famoso maestro daquela década, Miguel Barkokebas, também compôs parte do repertório do bloco, como a marchinha Esse Bloco é Meu, embora assinasse com o pseudônimo João Sem Nome, talvez devido às estreitas relações com a Paróquia de Nª.Srª.do Rosário, da Torre, para quem compunha os hinos religiosos apresentados todos os domingos na missa das 9h. Viria a falecer em 14 de agosto de 1978, mas deixaria o registro de seu encanto pelo Apôis Fum:

[...]
Olhem bem o nosso bloco,
Que é o rei do frevo e o rei do passo.
Nem Pierrô, nem Colombina,
Nem Arlequim e nem Palhaço.
Preto e branco se irmanam
Esquecem tudo, dão-se o braço,
Nesse entrudo do Recife
O rico e o pobre estão no no passo.


Finalmente, em 26 de fevereiro, o Jornal Pequeno registrava a saída do bloco, “da Torre para o Recife, em bondes especiais, para apanhar o seu estandarte de honra (flabelo) em casa de um sócio de destaque, na Av. Conde da Boa Vista, sendo homenageado depois por moradores da Rua dos Pires, dali seguindo para a Praça da Independência”, onde participou de animada festa com queima de morteiros de fabrico alemão. Bastante apreciado, o bloco logo conquistara as graças do povo pela simpatia de seus adereços e a vibração de seus componentes. Ganhou o primeiro lugar entre os Clubes de Críticas, recebendo a TAÇA JORNAL DO COMMERCIO, oferecida pela empresa J. L. Krause & Cia.

O Bloco das Flores, grande campeão em 1923 e principal concorrente do Apôis Fum, mereceu apenas menção honrosa, cabendo-lhe uma minoria de votos entre os membros da comissão julgadora. Pedro Salgado, seu presidente,esperneou, mas não levou, indignado por manter o novo campeão “particularidades formuladas como incompatíveis ao característico do bloco.” Referia-se, principalmente, à sua orquestra de metais, justamente o que mais impressionara a multidão de momo. Esbravejou: “Eu tenho um bloco e não um clube de carnaval...”, e retirou-se do carnaval.

Daí por diante, o Recife viveu carnavais como nunca antes se apresentara, diante do espírito de concorrência que se criara entre as agremiações.
O Apôis Fum imortalizara-se sempre se destacando como principal agremiação e levando aos foliões alegria que só nos seus acordes encontrava o melhor dos blocos líricos, tradição que hoje se renova pelas velhas ruas dos carnavais saudosos.


Recife, 6 de fevereiro de 2009.


FONTES CONSULTADAS:
AMORIM, Leny. Música e Músicos de Pernambuco. Recife: Ed. do Autor, 2006.
Diario de Pernambuco, Recife, 14 abr. 1993. [Fundaj/Fonoteca]
Diario de Pernambuco, Recife, n. 66, 1916. [APEJE, R.do Imperador]
ESTATUTOS do Clube Internacional do Recife, 1895. [BEP]
Jornal do Commercio, Recife, 4 mar. 1924. [Fundaj/Microfilmagem]
Jornal do Commercio, Recife, 5 fev. 1924. [Fundaj/Microfilmagem].
Jornal do Commercio, Recife, fev. 1925. [Fundaj/Microfilmagem]
Jornal Pequeno, Recife, 2 fev. 1923. [Fundaj/Microfilmagem]
Jornal Pequeno, Recife, edições fev./mar. 1924. [Fundaj/Microfilmagem]
LIMA, Cláudia. Evoé. História do Carnaval: das tradições mitológicas ao trio elétrico. Recife: Ed. Raízes Brasileiras, 2001.
MAIOR, Mário Souto; SILVA, Leonardo Dantas (Org.). Recife: Fundaj, Ed.Massangana, Recife, 1991.
MÁRIO FILHO. O teu cabelo não nega. A história carnavalesca dos grandes poetas João e Raul Valença. Recife: Rádio Capibaribe do Recife, 1992. [Fundaj/Fonoteca]
OLIVEIRA, Waldemar de. Frevo, capoeira e passo. Recife: CEPE, [19--?]. p. 15.
REAL, Katarina. O Folclore no Carnaval do Recife. Rio de Janeiro: Min. Educ. e Cult., 1967.
SILVA, Leonardo Dantas (Org.). Raul Moraes. Repértório variado. Recife: Ed.Massangana, 2003.
SILVA, Leonardo Dantas (Org.). Um sonho de folião. Recife: Ed.Bagaço, 1996.



FONTES ORAIS:
MAESTRO Edgar Morais. Entrevista à TV Universitária do Recife, 8 ago. 1973. [Fundaj/Fonoteca].
DEPOIMENTOS de Toinho Valença, filho de João Valença; Baltazar Valença, filho de Raul Valença. Sítio dos Valença, Madalena, mar. 2006.




COMO CITAR ESTE TEXTO:
Fonte: Montarroyos, João. Bloco Apôis Fum: o lirismo e a ousadia de momo. Pesquisa Escolar On-Line, Fundação Joaquim Nabuco, Recife. Disponível em: . Acesso em: dia mês ano. Ex: 6 ago. 2009.


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* Texto inédito em publicações sobre o bloco Apôis Fum e faz parte do livro Uma Década de Ouro no Carnaval do Recife, do mesmo autor, a ser lançado em AGO/2009. Direitos autorais reservados.
** Professor de História, escritor e pesquisador de História Social de Pernambuco. Premiações: Bloch Editores / CEF - Monografia Érico Veríssimo (1978); Menção Honrosa FJN (1980); ALEPE – Monografia Pereira da Costa (2001). Desenvolve ao longo dos últimos cinco anos projeto particular de Educação Patrimonial, levando o discente a descobrir e conhecer o conjunto histórico material e cultural do Estado.


Fonte desta postagem:
http://basilio.fundaj.gov.br/pesquisaescolar/index.php?option=com_content&view=article&id=472&Itemid=181

Fonte da imagem:
http://www.lainsignia.org/2008/febrero/cul_002.htm

P.S.:
Miguel Barkokebas, ao ler seu nome nesse artigo bateu saudade. Era o meu velho professor de canto orfeônico, naquele centro de excelência em ensino público, que era o meu querido Ginásio Pernambucano, nos idos de 1968.
Saudades, Mestre.
Devo-lhe parte de minha formação musical e artística.
Obrigado.

(Eurico - 01/03/2011)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

O Frevo de Bloco - por Júlio Vila Nova


Bloco Carnavalesco Lírico Cordas e Retalhos



















O Frevo-de-Bloco


O Frevo-de-Bloco é a música das agremiações tradicionalmente denominadas “Blocos Carnavalescos Mistos”, cujo aparecimento no cenário do carnaval pernambucano registra um interessante dado sociológico: o início da efetiva participação da mulher (sobretudo da classe média) na folia de rua do Recife.

A tendência atual, porém, é a de se adotar a denominação “Blocos Carnavalescos Líricos”, que foi inscrita pela primeira vez num flabelo (o abre-alas do bloco) pelo Cordas e Retalhos, conforme assinalamos em Bloco Lírico, artigo publicado na imprensa em 24/02/2001. Sobre os blocos, já afirmou Leonardo Dantas que é onde está “a melhor parte da poesia do carnaval pernambucano” (1998:32).

Resultado de influências como as manifestações natalinas do Pastoril e dos Ranchos de Reis, além da música dos saraus e serenatas promovidos pelas famílias dos bairros de São José, Santo Antônio e Boa Vista, em princípios do século XX, o Frevo-de-Bloco configurou-se como música de caráter sentimental, profundamente lírico. Daí a pertinência do nome assumido pelos blocos, bem a propósito de uma necessária releitura desse gênero que é freqüentemente tomado como monocórdio, baseado apenas no tema da saudade, como via de regra é abordado na imprensa.

Uma discussão interessante sobre a importância da saudade e a recorrência do tema saudosismo no Frevo-de-Bloco é apresentada por Amílcar Bezerra e Lucas Victor, no excelente Evoluções! Histórias de bloco e de Saudade (2006). Eles analisam os significados que a saudade assume ao longo da evolução do Frevo-de-Bloco, chegando à conclusão de que “saudade, carnaval e identidade são inseparáveis” (2006:102). Isso nos parece muito importante para a compreensão de que os blocos líricos e o Frevo-de-Bloco são valiosos porque constituem traços marcantes de nossa identidade. O bloco não é apenas uma “manifestação propositadamente passadista” (Teles 2000:51), mas é um espaço de convivência humana marcado pela arte e pela defesa de uma tradição que se renova e se reconstrói a cada carnaval. Essa tradição, reinaugurada a partir dos anos 70 do século XX pelo Bloco da Saudade, ganha novas cores e novos nomes a cada ano.

De fato, uma olhada mais atenta às letras do Frevo-de-Bloco revela não apenas a saudade antecipada, pelo carnaval que vai acabar (sobretudo nas marchas-regresso, cantadas pelos blocos em sua despedida da folia); ou a saudade de uma época passada, como nos versos de Evocação nº 1 (Nelson Ferreira) ou Relembrando o Passado (João Santiago), ambas gravadas na segunda metade dos anos 50, quando grande parte dos blocos da primeira geração já havia desaparecido. Observa-se também a elaboração de um discurso pautado pela necessidade de enaltecer e exaltar valores. Verificamos então que o Frevo-de-Bloco cada vez mais tem se construído discursivamente como uma grande propaganda, tendo como objetos a cidade (Recife, Olinda e outras), o carnaval ou as próprias agremiações. Com base no discurso persuasivo, busca-se a adesão do ouvinte/leitor, através do emprego de substantivos, adjetivos e verbos que ressaltam qualidades. Os exemplos são muitos, e podem ser encontrados no repertório de quase todos os blocos:

“O Cordas e Retalhos é assim /(...)/
reúne foliões, espalha alegria/
evoluindo com graça e harmonia”
(de Airton, Leila e Eliane Chaves)


“Vitória-Régia (...)/
És o poema, o tema e a lira /
E a flor que inspira nosso carnaval”
(Romero Amorim e Getúlio Cavalcanti)


“Em plena folia querida /
Rebeldes é o bloco que não tem rival”
(Edgard Moraes)


“Vem conhecer o que é harmonia nesta canção /
O Inocentes apresenta um lindo panorama de folião”
(Luiz de França)


“Recife, cidade do Frevo,
De blocos afamados e maracatus,
Cidade que a todos encanta
Tu és a Veneza do meu Brasil”
(José Moraes)


O tempo empregado é o presente, e muitos exemplos caracterizam a função conativa (ou apelativa) da linguagem, quando a ação verbal é orientada ao destinatário na forma de uma exortação, chamamento ou evocação:



“Vem, vem, vem folião
vem que o Recife te espera”
(José Moraes)


“Não deixem Batutas morrer”
(Álvaro Alvim)


“Acorda que chegou a hora /
vamos cair na folia”
(João Santiago).

Trata-se aqui de suscitar uma nova leitura sobre esse gênero musical às vezes estigmatizado como algo exclusivo de foliões mais velhos, uma visão distorcida e até preconceituosa, que reproduz o etarismo (preconceito contra pessoas de idade avançada). A respeito do lirismo que identifica os blocos e sua música, já se afirmou, inclusive, por absurdo que pareça, que ele seria o “culpado” por uma suposta estagnação do Frevo, tal como se publicou a propósito da crítica a um dos CDs da série Recife Frevoé, lançado pela Prefeitura do Recife em 1999:


“Ouvindo a parte dos compositores novos (depois de um concurso promovido pela PCR), dá pra arriscar mais um motivo que explica a falta de inovação do frevo. Os novos frevistas herdaram o lirismo dos antigos.” (Diário de Pernambuco, 20/01/1999) [grifo nosso]


Esse discurso adotado pela imprensa revela o desconhecimento sobre a dinâmica que tem caracterizado a evolução do Frevo-de-Bloco, sobretudo a partir dos anos 90 do século XX, quando o Recife e outras cidades vêem surgir um grande número de agremiações, várias delas registrando sua produção musical (em muitos casos bastante inovadora) em CD e protagonizando momentos de celebração em diversos eventos durante o carnaval e ao longo do ano inteiro.


JULIO VILA NOVA
Autor de Panorama de folião: o carnaval de Pernambuco na voz dos blocos líricos (Fundação de Cultura Cidade do Recife, 2007)
Professor, Mestre em Lingüística pela UFPE
Presidente do Bloco Carnavalesco Lírico Cordas e Retalhos
juliovilanova@ig.com.br
cordaseretalhos@uol.com.br


Fonte do texto:
Site da Fundaj

Fonte da imagem:
http://cordaseretalhos.zip.net/

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Olinda Arte em Toda Parte - Ano 10



Entre 2 e 12 de dezembro, as ladeiras intra-históricas de Olinda, sob a batuta de Raul Córdula, abrirão alas para a arte. Serão 76 ateliés e 231 artistas e artesãos desdobrando-se em oficinas, palestras,cortejos culturais, e muito frevo, em um roteiro imperdível.

Mais informações www.olindaarteemtodaparte.com.br.

domingo, 31 de outubro de 2010

IV FLIPORTO

Na sua sexta edição a FLIPORTO deixa a linda praia de Porto de Galinhas e passa ser realizada na bela cidade de Olinda e passa a ser Festa Literária Internacional de Pernambuco!
Como aconteceu em todas as suas edições anteriores a VI FLIPORTO terá debates literários, lançamentos e homenageará um grande nome de nossa literatura - Clarice Lispector.

“ Sob o tema Literatura e Presença Judaica no Mundo Ibero-americano, a sexta edição recebe entre os nobres ‘marinheiros’ os autores brasileiros Arnaldo Niskier e Moacyr Scliar. Entre os especialistas em Clarice Lispector estão os biógrafos Nádia Gotlib e o americano Benjamin Moser, esse último responsável por “Clarice,”, lançado em 2009. Além deles há os nomes de François Jullien, Marck Dery, Camille Paglia, Ricardo Piglia, Alberto Manguel, Richard Zimler, Ronaldo Vainfas, Contardo Calligaris, Ronaldo Wrobel, Adriana Armony e Guilherme Fiúza. Os pernambucanos José Luiz Mota Menezes e Luzilá Gonçalves também participam da festa.

Cinema, artes plásticas, música e tecnologia também encontram amplo debate na Fliporto 2010. Hoje, a Fliporto se impõe enquanto um evento dinâmico, que envolve toda a comunidade literária de Pernambuco e dos estados vizinhos, oferecendo uma intensa programação alinhada ao melhor de nossas letras.”



Em 2009 foi a vez de se debruçar sobre a influência Ibérica na identidade brasileira. Já nesta nova década, a Fliporto 2010 vai mais longe. A festa literária - que esse ano deixa o balneário Porto de Galinhas para se intitular Festa Literária Internacional de Pernambuco - vai até o oriente médio, mais precisamente na ideologia judaica, buscar o espaço ideal para debater as novas configurações identitárias, a própria formação do brasileiro e os grandes dilemas e conflitos contemporâneos. O tema central da festa, “Literatura e presença judaica no mundo ibero americano”, é o principal arcabouço que norteará as mesas temáticas e o evento em si.



Programação:

12 de novembro
18h
Abertura 
Eva Schloss conta sua história e a de sua irmã Anne Frank a Geneton Moraes Neto e Moacyr Scliar

13 de novembro
10h
Clarice Lispector: como se constrói uma biografia
Benjamin Moser e Nadia Battella Gotlib

11h30
O tema judaico em voz brasileira: o caso de Clarice Lispector
Nelson Vieira e Arnaldo Niskier

14h
Camille Paglia, à mesa com Marcia Tiburi e Gunter Axt

15h45
Conferência de Ricardo Piglia: “O escritor como crítico”

17h
Assim não é se lhe parece: literatura e vida real
Edney Silvestre, Raimundo Carrero, Guilherme Fiúza e Maria Paula 

18h15
As nossas ficções de cada dia
Contardo Calligaris e Ronaldo Wrobel 

19h30
Clarice na cabeceira (Crônicas)
Teresa Montero, com Bianca Ramoneda e Joaquim Ferreira dos Santos

20h
Clarice e A descoberta do mundo (o filme)
Teresa Montero, com Taciana Oliveira (dir.) e elenco: Germano Haiut, Stella Maris e Cassia Kiss

14 de novembro
10h
Conferência de Alberto Manguel: “Ler o livro do mundo” 

11h30
Cabalas e anagramas em Lisboa, Varsóvia e mais além
Richard Zimler

14h
Franz Kafka e Fernando Pessoa: a tradição judaica e a tradução
Ioram Melcer e Marcio Seligmann, em conversa com Manuel da Costa Pinto
 
15h15
Faces da poesia, literatura e identidade árabes na atualidade
Ali Ahmad Esber (Adonis), em conversa com Milton Hatoum e Michel Sleiman 

17h
Árabes e judeus no país do futuro
Adriana Armony, Tatiana Salem Levy e Ron Leshem 

18h15
Concerto para Antônio José da Silva, o judeu – música, teatro e tradição popular (concerto-palestra)
Anna Maria Kieffer, com Mauro Wrona, Gisela Nogueira e Élson Leônidas 

20h
A poesia no coração da música e vice-versa
Alceu Valença e Marcus Accioly

15 de novembro
10h 
Xô, maus pensamentos!: a escrita como forma de insurgência
Mark Dery, em conversa com Guilherme Kujawski

11h30
As novas Jerusaléns e Sefarad
Ronaldo Vainfas, José Luiz Mota Menezes e Angel Espina Barrio

14h
O boom e o embalo da literatura em quadrinhos
Daniel Galera
, Rafael Coutinho e João Lin


15h15
O escritor e a criação literária
Luzilá Gonçalves Ferreira e João Tordo

16h30
Do universal, do comum e do diálogo entre culturas
François Jullien, com Kathrin Rosenfield 

17h45
O diálogo dos visionários: Ambrósio Brandão e Stefan Zweig
Alberto Dines

20h
Simplesmente eu, Clarice Lispector
Beth Goulart

Classificação: Livre.

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Estudante e idosos acima de 60 anos.

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Vale a pena conferir!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ortega y Gasset: ou, Diante de um Mar


"Para Moisés, o Herói, toda pedra é um manancial."
.................................................José Ortega y Gasset



O que é "Reabsorver a circunstância"?
Assim, duas palavrinhas e uma vogal fazendo a ponte..., fisga-me o amigo
Éverton, com "os curvos ganchos da interrogação."
Essa carinhosa e maiêutica forma de questionar, do amigo , me fez tomar coragem de prosear um pouco sobre Ortega y Gasset.
Do meu jeito, né. Sem introduções, nem conclusões, posto que minha humilde postagem não pode se arvorar em tese... talvez seja uma espécie de"ensaio", no sentido teatral da palavra rsrsrs
Falarei apenas do que é, em minha vida, a "circunstância Ortega".





Nas preliminares de suas Meditações, José Ortega y Gasset afirma que a obra-prima de Cervantes não se entrega à invasão intelectual dos açodados, dos que a querem tomar à força. Para invadi-la é necessária uma paciente aproximação, em um verdadeiro culto meditativo: (p. 59)

"Obra da categoria do Quixote tem que ser tomada como Jericó. Em amplos rodeios, nossos pensamentos e nossas emoções devem estreitá-la lentamente, sonorizando o ar com trombetas ideais."

Seguindo este clássico conselho, iniciarei os meus volteios em torno do pensamento orteguiano, volvendo o olhar ao entorno de mim mesmo, da minha vida e do meu derredor:


Ortega é um grande mar, eu diria mesmo um oceano. Estou sentado, pois, na areia da praia, observando o mar, ondas rebentando nas pedras, espumas, e uma massa imensa de água que vai indo em direção do horizonte, até tocar o céu. Como alcançar esse abismo azul-esverdeado, (ou seria verde-azulado), que me impõe sua presença túpida, aquática, vital?

Estou diante do oceano e não tenho fôlego dos peixes, para um mergulhar profundo. Lanço-me pois às águas rasas. E me permito braçadas pela orla. Cortarei as águas, a superfície das vagas, transversalmente. Essa é a solução que surge à minha mente, diante da força da rebentação e do perigo a que ela me leva.

Estar em Ortega é, em mim, estar no mar e cuidar de "saber a que me ater". Dentro da água, a única coisa plausível é saber o que fazer com a água. Pensar, aqui, é uma espécie de movimento natatório. Salvo dos primeiros perigos, braços cansados, deixo-me flutuar.
Boiar, eis outra maneira de estar no mar... O mar, sim, o mar. Aí está uma imensa circunstância. Sei disso, porque habito uma cidade litorânea. E a minha saída para o mundo, vez por outra, implica em mar.

Eis que nesses primeiros esforços natatórios, já estamos nos movendo em plena filosofia orteguiana: (eu avisei que iria ser de meu jeito... rsrsrs)
Meu corpo, a água, o mar imenso, a superfície e a profundidade, o latente e o patente, o horizonte: Ortega y Gasset, eis a minha circunstância. Estou nela e ela em mim. Não posso compreender plenamente o mar sem me atirar às águas. Parafraseando um provérbio oriental eu diria que posso até falar do estio a um esquimó, que vive o ano todo sob a neve. Porém, nada melhor do que caminharmos juntos numa caatinga esturricada, para que ele aprenda do estio com a própria pele. Do mesmo modo, com mil palavras eu descreveria a Antártida, a um mineiro que passa os dias do ano numa escura grota, sob o chão. Mas bastar-lhe-ão alguns minutos sob uma nevasca, para que ele a entenda em sua totalidade. Por isso, tento esses mergulhos rasos, em Ortega, como em um translúcido mar. Mergulhar fundo, no entanto, seria a melhor forma de alcançar-lhe a plenitude.

Não nego, com as imagens acima, a força da palavra. Isso seria negar a metáfora, e por conseguinte toda a linguagem, todo o pensamento, toda a cultura. Diga-se apenas que a palavra não está só no mundo dos signos. Nem só de boca, olhos e ouvidos, se faz a compreensão do mundo. Como dizia o poeta: "penso com todo o meu corpo'". Ortega diz mais. Diz: penso com minha própria vida. Assim, entender algo é saber como isso funciona na minha vida. E a vida é o próprio órgão da compreensão. Não a vida em geral, qualquer vida. Mas a tua vida e a minha, a vida dos esquimós e a dos mineiros, a vida de cada um, com sua perspectiva e sua pessoalidade. Bem entendido, a vida biográfica e não apenas biológica. Entender algo, pois, é fazer essa coisa passar por dentro da vida de um homem. Não há nada que se faça cultura, ciência ou poesia que não tenha se estreitado pelo âmbito estremecido de uma vida humana. Portanto, ao se falar em circunstância, há de se alertar que um eu, singular e original está a tomar a palavra. Eu falo de dentro da "circunstância Luiz Eurico de Melo Neto". Impossível falar fora de mim.



Sob essa premissa, a filosofia orteguiana é circunstancial. Aliás, não há filosofia, que, de certo modo, não seja circunstancial. A circunstância de Ortega y Gasset era a Espanha. Seu afã era saber a que se ater, naquela nação espanhola, do começo do século XX. Impressionei-me ao ver a força de sua indagação, em um brado que vem de dentro de sua obra:

-- Meu Deus, que é a Espanha?

José Ortega y Gasset, portanto, eis a minha circunstância, ao começar a me mover nesse tema. Aliás, o Ortega das Meditações do Quixote, traduzido ao português por G. M. Kujawski. Esta é, "concretamente", a minha circunstância, ao escrever essa postagem. Mas "circunstância", o que é isso, em Ortega?

Ajuda-me a cristalina voz orteguiana, nessas suas Meditações (p. 47):

"A circunstância! Circum-stantia! As coisas mudas em nosso próximo derredor! Muito perto, muito perto de nós, levantam as suas tácitas fisionomias com um gesto de humildade e de anelo, como necessitadas de que aceitemos a sua oferenda (...) E andamos cegos entre elas, os olhos fixos em remotas empresas, projetados para a conquista de longínquas cidades esquemáticas."

E põe-se a meditar nesse tema com amoroso deleite (p. 48):

"Creio muito a sério que uma das mudanças mais profundas do século atual em relação ao século XIX consistirá na transformação de nossa sensibilidade para as circunstâncias. Não sei que inquietude e precipitação reinava na passada centúria (...) que impelia os ânimos a omitirem todo o imediato e momentâneo da vida."

E nos exorta, com seu consabido altruísmo:

"Todas as nossas potências de seriedade gastamo-las na administração do Estado, na cultura social, nas lutas sociais, na ciência enquanto técnica, que enriquece a vida coletiva. Parecer-nos-ia frívolo dedicar uma parte de nossas melhores energias - e não somente resíduos - a organizar ao nosso redor a amizade, a construir um perfeito amor, a ver no gozo das coisas uma dimensão da vida que merece ser cultivada com procedimentos superiores. E como esta, múltiplas necessidades privadas ocultam envergonhadas o rosto nos rincões de nosso ânimo, porque não se quer outorgar-lhes cidadania, quero dizer, sentido cultural."

De certa forma, a citação acima faz com que volvamos à praia, e ao nosso entorno. A, circunstância, amigo Éverton, leitores, se inicia pelo nosso corpo, seja feio, bonito, doente ou saudável. E com ele escolheremos nadar ou boiar, para ver se nos salvamos do naufrágio das incertezas inumeráveis da vida cotidiana. Estou tão íntimamente ligado ao corpo da minha circunstância, que não me realizo sem ela. E corpo aqui implica em cérebro, mente, pensamento, linguagem, idioma, pátria, Ser. Estou encharcado de mim porque estou encharcado em minhas circunstâncias.

Daí o famoso enunciado orteguiano diz que: "Eu não sou apenas eu. Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não me salvo a mim."(p. 52)

Isso quer dizer que, se não assumo, ou salvo, minha circunstância, não me realizo plenamente. Por isso, no mesmo trecho Ortega arremata (e com isso creio desprender-me do certeiro gancho da interrogação do amigo Éverton):

"Em suma: a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem'.

Não se trata de ser capturado por um destino, mas de apropriar-se do fado, da sina, da realidade tal como a encontro, reabsorvendo-a em meu ser. Reabsorver a circunstância consiste em incorporá-la ao meu projeto vital, humanizá-la. O homem se faz a si mesmo com as coisas que a ele se oferecem. A circunstância pois é como um mote dado aos repentistas. Cá na minha região lança-se um motivo, uma frase, com a qual os cantadores erigem a sua embolada. Dizem que glosam um mote forçado. Bem, reabsorver a circunstância seria "glosar" a realidade em derredor, modulando-a ou modelando-a de acordo com minha liberdade criadora. Talvez seja por essa razão que Ortega diz que o ser é um drama e que homem é o novelista de si mesmo. Escolhemos roteiros e scripts. No entanto, não custa lembrar da responsabilidade por essas escolhas, e que o âmbito dessa postagem não me permite tratar da questão da Moral, na obra orteguiana, que muitos, equivocadamente, consideram como relativista. Basta, por hora, dizer, sobre a questão moral, que, mesmo o juízo bíblico não é coletivo. Presta contas a Deus um homem singular e solitário. Mas todo o individual quer se erguer em um social. E a liberdade dessa reabsorção tem o limite dessa circunstância, a social, da qual não me posso alienar. Liberdade para reabsorver a circunstância não implica em relativismo moral. Disso falaremos em outra postagem.

Creio que essa prosa já encaminha o pensamento para a resposta à indagação feita pelo perspicaz e jovem amigo Éverton Vidal. Todavia, sabendo-o estudioso, e até professor de estudos bíblicos, explico-lhe que a imagem de Moisés ferindo a pedra, que ilustra esta postagem, busca apenas dar ênfase à maneira pela qual cada um reabsorve a própria circunstância. Uns, diante da pedra, morrem de sede. Moisés, o profeta, via em cada pedra um manancial. A epifania acontece, também, no circunstancial. Deus mesmo é o "lugar" onde "acontece" a vida do homem. "Nele nos movemos, vivemos e existimos." Sem absorver Deus, na circunstância, uns só enxergavam na pedra, a pedra. Moisés, o herói do circunstancial, enxerga na pedra uma fonte latente, que jorrou e ainda pode jorrar.

Sigo, tentando ferir as pedras enormes que se me apresentam na estrada. Aprouve Deus, no âmbito frágil da minha existência, que dessas pedras jorrem águas limpas e potáveis, e que eu possa compartilhá-las com os mais próximos.

Abraço fraterno

e desculpem os senões e as incoerências. Cá não filosofo, apenas releio, medito e trancrevo.

Paz e Bem!

***

Citações de Meditações do Quixote, José Ortega y Gasset, São Paulo, Duas Cidades, 1967. (comentadas por Julián Marías e traduzidas por G. M. Kujawski)



Fonte da imagem:
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domingo, 15 de agosto de 2010

3 Fases em Ortega y Gasset


Nada tão actual como Ortega y Gasset, porque à parte de ter sido considerado polémico por seus contemporâneos, sua filosofia nos parece tão jovem quanto o século XXI.


Os estudiosos da obra de Ortega y Gasset, dvidem-na em três fases:

- 1ª fase, a do objectivismo - 1902 a 1914, corresponde a publicação do seu primeiro livro, Meditações do Quixote;

- 2ª fase, a o perspectivismo – 1914 a 1923, publica o Tema de Nosso Tempo;

- 3ª fase, a do raciovitalismo - 1924 a 1955 (ano do seu falecimento).


Estudá-lo, é compreender os conceitos de “situação” e “temporalidade”, o que remete e convoca para a reflexão e conhecimento do nosso eu e da nossa realidade concreta, do que somos, quem somos, como somos e do quanto, como e o quê podemos fazer por nós e nosso mundo – o do eu, do particular, e o nosso coletivo -, diante da realidade concreta que se-nos apresenta: a nossa circunstancia.

Um apontamento fundamental para a reflexão do quanto o mundo todo está interligado, estamos todos conectados com todos e com tudo, ainda que não consideremos essa realidade. Um mundo e uma realidade que a priori pode ser recortada a um indivíduo, a um determinado espaço, todavia, esse está ligado a outro (s), que por sua vez a outros, e todos entre si, em rede, em cadeia, como uma teia aparentemente frágil, mas que esses fios entrelaçados, se fortalecem. Ignorar esse fato é dimiuir a possibilidade de construir outra realidade, e beneficar-se da circunstancia.

Penso residir a atualidade da obra orteguiana, num reconhecimento da filosofia das ruas, a filosofia do nosso tempo, o homem-mulher protagonista, que falam, rejeitam aceitam, que tentam incansavelmente romper com as dificuldades diárias, desse ser, fazer e viver a história tudo ao mesmo tempo.


*

Aceitando com muito bom grado o chamamento do amigo e vizinho - de território e de idéias - , Luiz Eurico, do blogue Eu-Lírico (http://euliricoeu.blogspot.com/), para dar meu pequeno contributo ao Sítio D’ Olinda, proposta irrecusável, e como quase nunca me furto de aceitar um grande desafio, vamos a ele. Cá estou, acanhadamente trazendo um minúsculo escrito acerca da obra orteguiana.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

REABSORVER A CIRCUNSTÂNCIA


(POSTAGEM EM CONSTRUÇÃO)



O que é "Reabsorver a circunstância"?
Assim, duas palavrinhas e uma vogal fazendo a ponte..., fisga-me o amigo Éverton, com "os curvos ganchos da interrogação."

Fonte da imagem:
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