"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.
Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas.
Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.
Carnaval era meu, meu."

(Clarice Lispector )







sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Olinda Arte em Toda Parte - Ano 10



Entre 2 e 12 de dezembro, as ladeiras intra-históricas de Olinda, sob a batuta de Raul Córdula, abrirão alas para a arte. Serão 76 ateliés e 231 artistas e artesãos desdobrando-se em oficinas, palestras,cortejos culturais, e muito frevo, em um roteiro imperdível.

Mais informações www.olindaarteemtodaparte.com.br.

domingo, 31 de outubro de 2010

IV FLIPORTO

Na sua sexta edição a FLIPORTO deixa a linda praia de Porto de Galinhas e passa ser realizada na bela cidade de Olinda e passa a ser Festa Literária Internacional de Pernambuco!
Como aconteceu em todas as suas edições anteriores a VI FLIPORTO terá debates literários, lançamentos e homenageará um grande nome de nossa literatura - Clarice Lispector.

“ Sob o tema Literatura e Presença Judaica no Mundo Ibero-americano, a sexta edição recebe entre os nobres ‘marinheiros’ os autores brasileiros Arnaldo Niskier e Moacyr Scliar. Entre os especialistas em Clarice Lispector estão os biógrafos Nádia Gotlib e o americano Benjamin Moser, esse último responsável por “Clarice,”, lançado em 2009. Além deles há os nomes de François Jullien, Marck Dery, Camille Paglia, Ricardo Piglia, Alberto Manguel, Richard Zimler, Ronaldo Vainfas, Contardo Calligaris, Ronaldo Wrobel, Adriana Armony e Guilherme Fiúza. Os pernambucanos José Luiz Mota Menezes e Luzilá Gonçalves também participam da festa.

Cinema, artes plásticas, música e tecnologia também encontram amplo debate na Fliporto 2010. Hoje, a Fliporto se impõe enquanto um evento dinâmico, que envolve toda a comunidade literária de Pernambuco e dos estados vizinhos, oferecendo uma intensa programação alinhada ao melhor de nossas letras.”



Em 2009 foi a vez de se debruçar sobre a influência Ibérica na identidade brasileira. Já nesta nova década, a Fliporto 2010 vai mais longe. A festa literária - que esse ano deixa o balneário Porto de Galinhas para se intitular Festa Literária Internacional de Pernambuco - vai até o oriente médio, mais precisamente na ideologia judaica, buscar o espaço ideal para debater as novas configurações identitárias, a própria formação do brasileiro e os grandes dilemas e conflitos contemporâneos. O tema central da festa, “Literatura e presença judaica no mundo ibero americano”, é o principal arcabouço que norteará as mesas temáticas e o evento em si.



Programação:

12 de novembro
18h
Abertura 
Eva Schloss conta sua história e a de sua irmã Anne Frank a Geneton Moraes Neto e Moacyr Scliar

13 de novembro
10h
Clarice Lispector: como se constrói uma biografia
Benjamin Moser e Nadia Battella Gotlib

11h30
O tema judaico em voz brasileira: o caso de Clarice Lispector
Nelson Vieira e Arnaldo Niskier

14h
Camille Paglia, à mesa com Marcia Tiburi e Gunter Axt

15h45
Conferência de Ricardo Piglia: “O escritor como crítico”

17h
Assim não é se lhe parece: literatura e vida real
Edney Silvestre, Raimundo Carrero, Guilherme Fiúza e Maria Paula 

18h15
As nossas ficções de cada dia
Contardo Calligaris e Ronaldo Wrobel 

19h30
Clarice na cabeceira (Crônicas)
Teresa Montero, com Bianca Ramoneda e Joaquim Ferreira dos Santos

20h
Clarice e A descoberta do mundo (o filme)
Teresa Montero, com Taciana Oliveira (dir.) e elenco: Germano Haiut, Stella Maris e Cassia Kiss

14 de novembro
10h
Conferência de Alberto Manguel: “Ler o livro do mundo” 

11h30
Cabalas e anagramas em Lisboa, Varsóvia e mais além
Richard Zimler

14h
Franz Kafka e Fernando Pessoa: a tradição judaica e a tradução
Ioram Melcer e Marcio Seligmann, em conversa com Manuel da Costa Pinto
 
15h15
Faces da poesia, literatura e identidade árabes na atualidade
Ali Ahmad Esber (Adonis), em conversa com Milton Hatoum e Michel Sleiman 

17h
Árabes e judeus no país do futuro
Adriana Armony, Tatiana Salem Levy e Ron Leshem 

18h15
Concerto para Antônio José da Silva, o judeu – música, teatro e tradição popular (concerto-palestra)
Anna Maria Kieffer, com Mauro Wrona, Gisela Nogueira e Élson Leônidas 

20h
A poesia no coração da música e vice-versa
Alceu Valença e Marcus Accioly

15 de novembro
10h 
Xô, maus pensamentos!: a escrita como forma de insurgência
Mark Dery, em conversa com Guilherme Kujawski

11h30
As novas Jerusaléns e Sefarad
Ronaldo Vainfas, José Luiz Mota Menezes e Angel Espina Barrio

14h
O boom e o embalo da literatura em quadrinhos
Daniel Galera
, Rafael Coutinho e João Lin


15h15
O escritor e a criação literária
Luzilá Gonçalves Ferreira e João Tordo

16h30
Do universal, do comum e do diálogo entre culturas
François Jullien, com Kathrin Rosenfield 

17h45
O diálogo dos visionários: Ambrósio Brandão e Stefan Zweig
Alberto Dines

20h
Simplesmente eu, Clarice Lispector
Beth Goulart

Classificação: Livre.

Meia Entrada
Estudante e idosos acima de 60 anos.

Ponto de Venda sem taxa:
LUCE OPTICA - Shopping Center Recife

Maiores informações sobre o evento aqui.

Vale a pena conferir!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ortega y Gasset: ou, Diante de um Mar


"Para Moisés, o Herói, toda pedra é um manancial."
.................................................José Ortega y Gasset



O que é "Reabsorver a circunstância"?
Assim, duas palavrinhas e uma vogal fazendo a ponte..., fisga-me o amigo
Éverton, com "os curvos ganchos da interrogação."
Essa carinhosa e maiêutica forma de questionar, do amigo , me fez tomar coragem de prosear um pouco sobre Ortega y Gasset.
Do meu jeito, né. Sem introduções, nem conclusões, posto que minha humilde postagem não pode se arvorar em tese... talvez seja uma espécie de"ensaio", no sentido teatral da palavra rsrsrs
Falarei apenas do que é, em minha vida, a "circunstância Ortega".





Nas preliminares de suas Meditações, José Ortega y Gasset afirma que a obra-prima de Cervantes não se entrega à invasão intelectual dos açodados, dos que a querem tomar à força. Para invadi-la é necessária uma paciente aproximação, em um verdadeiro culto meditativo: (p. 59)

"Obra da categoria do Quixote tem que ser tomada como Jericó. Em amplos rodeios, nossos pensamentos e nossas emoções devem estreitá-la lentamente, sonorizando o ar com trombetas ideais."

Seguindo este clássico conselho, iniciarei os meus volteios em torno do pensamento orteguiano, volvendo o olhar ao entorno de mim mesmo, da minha vida e do meu derredor:


Ortega é um grande mar, eu diria mesmo um oceano. Estou sentado, pois, na areia da praia, observando o mar, ondas rebentando nas pedras, espumas, e uma massa imensa de água que vai indo em direção do horizonte, até tocar o céu. Como alcançar esse abismo azul-esverdeado, (ou seria verde-azulado), que me impõe sua presença túpida, aquática, vital?

Estou diante do oceano e não tenho fôlego dos peixes, para um mergulhar profundo. Lanço-me pois às águas rasas. E me permito braçadas pela orla. Cortarei as águas, a superfície das vagas, transversalmente. Essa é a solução que surge à minha mente, diante da força da rebentação e do perigo a que ela me leva.

Estar em Ortega é, em mim, estar no mar e cuidar de "saber a que me ater". Dentro da água, a única coisa plausível é saber o que fazer com a água. Pensar, aqui, é uma espécie de movimento natatório. Salvo dos primeiros perigos, braços cansados, deixo-me flutuar.
Boiar, eis outra maneira de estar no mar... O mar, sim, o mar. Aí está uma imensa circunstância. Sei disso, porque habito uma cidade litorânea. E a minha saída para o mundo, vez por outra, implica em mar.

Eis que nesses primeiros esforços natatórios, já estamos nos movendo em plena filosofia orteguiana: (eu avisei que iria ser de meu jeito... rsrsrs)
Meu corpo, a água, o mar imenso, a superfície e a profundidade, o latente e o patente, o horizonte: Ortega y Gasset, eis a minha circunstância. Estou nela e ela em mim. Não posso compreender plenamente o mar sem me atirar às águas. Parafraseando um provérbio oriental eu diria que posso até falar do estio a um esquimó, que vive o ano todo sob a neve. Porém, nada melhor do que caminharmos juntos numa caatinga esturricada, para que ele aprenda do estio com a própria pele. Do mesmo modo, com mil palavras eu descreveria a Antártida, a um mineiro que passa os dias do ano numa escura grota, sob o chão. Mas bastar-lhe-ão alguns minutos sob uma nevasca, para que ele a entenda em sua totalidade. Por isso, tento esses mergulhos rasos, em Ortega, como em um translúcido mar. Mergulhar fundo, no entanto, seria a melhor forma de alcançar-lhe a plenitude.

Não nego, com as imagens acima, a força da palavra. Isso seria negar a metáfora, e por conseguinte toda a linguagem, todo o pensamento, toda a cultura. Diga-se apenas que a palavra não está só no mundo dos signos. Nem só de boca, olhos e ouvidos, se faz a compreensão do mundo. Como dizia o poeta: "penso com todo o meu corpo'". Ortega diz mais. Diz: penso com minha própria vida. Assim, entender algo é saber como isso funciona na minha vida. E a vida é o próprio órgão da compreensão. Não a vida em geral, qualquer vida. Mas a tua vida e a minha, a vida dos esquimós e a dos mineiros, a vida de cada um, com sua perspectiva e sua pessoalidade. Bem entendido, a vida biográfica e não apenas biológica. Entender algo, pois, é fazer essa coisa passar por dentro da vida de um homem. Não há nada que se faça cultura, ciência ou poesia que não tenha se estreitado pelo âmbito estremecido de uma vida humana. Portanto, ao se falar em circunstância, há de se alertar que um eu, singular e original está a tomar a palavra. Eu falo de dentro da "circunstância Luiz Eurico de Melo Neto". Impossível falar fora de mim.



Sob essa premissa, a filosofia orteguiana é circunstancial. Aliás, não há filosofia, que, de certo modo, não seja circunstancial. A circunstância de Ortega y Gasset era a Espanha. Seu afã era saber a que se ater, naquela nação espanhola, do começo do século XX. Impressionei-me ao ver a força de sua indagação, em um brado que vem de dentro de sua obra:

-- Meu Deus, que é a Espanha?

José Ortega y Gasset, portanto, eis a minha circunstância, ao começar a me mover nesse tema. Aliás, o Ortega das Meditações do Quixote, traduzido ao português por G. M. Kujawski. Esta é, "concretamente", a minha circunstância, ao escrever essa postagem. Mas "circunstância", o que é isso, em Ortega?

Ajuda-me a cristalina voz orteguiana, nessas suas Meditações (p. 47):

"A circunstância! Circum-stantia! As coisas mudas em nosso próximo derredor! Muito perto, muito perto de nós, levantam as suas tácitas fisionomias com um gesto de humildade e de anelo, como necessitadas de que aceitemos a sua oferenda (...) E andamos cegos entre elas, os olhos fixos em remotas empresas, projetados para a conquista de longínquas cidades esquemáticas."

E põe-se a meditar nesse tema com amoroso deleite (p. 48):

"Creio muito a sério que uma das mudanças mais profundas do século atual em relação ao século XIX consistirá na transformação de nossa sensibilidade para as circunstâncias. Não sei que inquietude e precipitação reinava na passada centúria (...) que impelia os ânimos a omitirem todo o imediato e momentâneo da vida."

E nos exorta, com seu consabido altruísmo:

"Todas as nossas potências de seriedade gastamo-las na administração do Estado, na cultura social, nas lutas sociais, na ciência enquanto técnica, que enriquece a vida coletiva. Parecer-nos-ia frívolo dedicar uma parte de nossas melhores energias - e não somente resíduos - a organizar ao nosso redor a amizade, a construir um perfeito amor, a ver no gozo das coisas uma dimensão da vida que merece ser cultivada com procedimentos superiores. E como esta, múltiplas necessidades privadas ocultam envergonhadas o rosto nos rincões de nosso ânimo, porque não se quer outorgar-lhes cidadania, quero dizer, sentido cultural."

De certa forma, a citação acima faz com que volvamos à praia, e ao nosso entorno. A, circunstância, amigo Éverton, leitores, se inicia pelo nosso corpo, seja feio, bonito, doente ou saudável. E com ele escolheremos nadar ou boiar, para ver se nos salvamos do naufrágio das incertezas inumeráveis da vida cotidiana. Estou tão íntimamente ligado ao corpo da minha circunstância, que não me realizo sem ela. E corpo aqui implica em cérebro, mente, pensamento, linguagem, idioma, pátria, Ser. Estou encharcado de mim porque estou encharcado em minhas circunstâncias.

Daí o famoso enunciado orteguiano diz que: "Eu não sou apenas eu. Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não me salvo a mim."(p. 52)

Isso quer dizer que, se não assumo, ou salvo, minha circunstância, não me realizo plenamente. Por isso, no mesmo trecho Ortega arremata (e com isso creio desprender-me do certeiro gancho da interrogação do amigo Éverton):

"Em suma: a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem'.

Não se trata de ser capturado por um destino, mas de apropriar-se do fado, da sina, da realidade tal como a encontro, reabsorvendo-a em meu ser. Reabsorver a circunstância consiste em incorporá-la ao meu projeto vital, humanizá-la. O homem se faz a si mesmo com as coisas que a ele se oferecem. A circunstância pois é como um mote dado aos repentistas. Cá na minha região lança-se um motivo, uma frase, com a qual os cantadores erigem a sua embolada. Dizem que glosam um mote forçado. Bem, reabsorver a circunstância seria "glosar" a realidade em derredor, modulando-a ou modelando-a de acordo com minha liberdade criadora. Talvez seja por essa razão que Ortega diz que o ser é um drama e que homem é o novelista de si mesmo. Escolhemos roteiros e scripts. No entanto, não custa lembrar da responsabilidade por essas escolhas, e que o âmbito dessa postagem não me permite tratar da questão da Moral, na obra orteguiana, que muitos, equivocadamente, consideram como relativista. Basta, por hora, dizer, sobre a questão moral, que, mesmo o juízo bíblico não é coletivo. Presta contas a Deus um homem singular e solitário. Mas todo o individual quer se erguer em um social. E a liberdade dessa reabsorção tem o limite dessa circunstância, a social, da qual não me posso alienar. Liberdade para reabsorver a circunstância não implica em relativismo moral. Disso falaremos em outra postagem.

Creio que essa prosa já encaminha o pensamento para a resposta à indagação feita pelo perspicaz e jovem amigo Éverton Vidal. Todavia, sabendo-o estudioso, e até professor de estudos bíblicos, explico-lhe que a imagem de Moisés ferindo a pedra, que ilustra esta postagem, busca apenas dar ênfase à maneira pela qual cada um reabsorve a própria circunstância. Uns, diante da pedra, morrem de sede. Moisés, o profeta, via em cada pedra um manancial. A epifania acontece, também, no circunstancial. Deus mesmo é o "lugar" onde "acontece" a vida do homem. "Nele nos movemos, vivemos e existimos." Sem absorver Deus, na circunstância, uns só enxergavam na pedra, a pedra. Moisés, o herói do circunstancial, enxerga na pedra uma fonte latente, que jorrou e ainda pode jorrar.

Sigo, tentando ferir as pedras enormes que se me apresentam na estrada. Aprouve Deus, no âmbito frágil da minha existência, que dessas pedras jorrem águas limpas e potáveis, e que eu possa compartilhá-las com os mais próximos.

Abraço fraterno

e desculpem os senões e as incoerências. Cá não filosofo, apenas releio, medito e trancrevo.

Paz e Bem!

***

Citações de Meditações do Quixote, José Ortega y Gasset, São Paulo, Duas Cidades, 1967. (comentadas por Julián Marías e traduzidas por G. M. Kujawski)



Fonte da imagem:
http://4.bp.blogspot.com/_BpIYSIVVWXQ/SwDKGv6rycI/AAAAAAAAARU/i1VI2re2B9o/s1600/moses_water_rock_strike.jpg

domingo, 15 de agosto de 2010

3 Fases em Ortega y Gasset


Nada tão actual como Ortega y Gasset, porque à parte de ter sido considerado polémico por seus contemporâneos, sua filosofia nos parece tão jovem quanto o século XXI.


Os estudiosos da obra de Ortega y Gasset, dvidem-na em três fases:

- 1ª fase, a do objectivismo - 1902 a 1914, corresponde a publicação do seu primeiro livro, Meditações do Quixote;

- 2ª fase, a o perspectivismo – 1914 a 1923, publica o Tema de Nosso Tempo;

- 3ª fase, a do raciovitalismo - 1924 a 1955 (ano do seu falecimento).


Estudá-lo, é compreender os conceitos de “situação” e “temporalidade”, o que remete e convoca para a reflexão e conhecimento do nosso eu e da nossa realidade concreta, do que somos, quem somos, como somos e do quanto, como e o quê podemos fazer por nós e nosso mundo – o do eu, do particular, e o nosso coletivo -, diante da realidade concreta que se-nos apresenta: a nossa circunstancia.

Um apontamento fundamental para a reflexão do quanto o mundo todo está interligado, estamos todos conectados com todos e com tudo, ainda que não consideremos essa realidade. Um mundo e uma realidade que a priori pode ser recortada a um indivíduo, a um determinado espaço, todavia, esse está ligado a outro (s), que por sua vez a outros, e todos entre si, em rede, em cadeia, como uma teia aparentemente frágil, mas que esses fios entrelaçados, se fortalecem. Ignorar esse fato é dimiuir a possibilidade de construir outra realidade, e beneficar-se da circunstancia.

Penso residir a atualidade da obra orteguiana, num reconhecimento da filosofia das ruas, a filosofia do nosso tempo, o homem-mulher protagonista, que falam, rejeitam aceitam, que tentam incansavelmente romper com as dificuldades diárias, desse ser, fazer e viver a história tudo ao mesmo tempo.


*

Aceitando com muito bom grado o chamamento do amigo e vizinho - de território e de idéias - , Luiz Eurico, do blogue Eu-Lírico (http://euliricoeu.blogspot.com/), para dar meu pequeno contributo ao Sítio D’ Olinda, proposta irrecusável, e como quase nunca me furto de aceitar um grande desafio, vamos a ele. Cá estou, acanhadamente trazendo um minúsculo escrito acerca da obra orteguiana.


sexta-feira, 13 de agosto de 2010

REABSORVER A CIRCUNSTÂNCIA


(POSTAGEM EM CONSTRUÇÃO)



O que é "Reabsorver a circunstância"?
Assim, duas palavrinhas e uma vogal fazendo a ponte..., fisga-me o amigo Éverton, com "os curvos ganchos da interrogação."

Fonte da imagem:
http://4.bp.blogspot.com/_BpIYSIVVWXQ/SwDKGv6rycI/AAAAAAAAARU/i1VI2re2B9o/s1600/moses_water_rock_strike.jpg

sexta-feira, 30 de julho de 2010

“Eu Sou Eu e Minhas Circunstâncias”





"De manhãzinha, passo pela minúscula oficina do chaveiro. A porta da oficina mal passa de um metro de largura... rosto sério, lá está ele, o dono da oficina - magro, bigode grosso, camisa para fora da calça jeans bastante surrada. Antes que apareça o primeiro cliente, ele varre o trecho de calçada subentendido pela estreita porta da oficina. E varre meticulosamente, escarafuncha com a vassoura piaçaba as gretas da calçada, e até olha em volta para ver se restou algum cisco.
Varre com o respeito que teria pela sala da sua casa... afinal, é dali, dessa absurda mesmice, que ele tira o pão de cada dia. Não é muito o ganho que entra por aquela porta estreita, mas, é uma vitória conquistada a cada dia... e sem suar o rosto: ele se amolda ao que faz!

Depois, guarda a vassoura num cantinho, e recolhe-se atrás da bancada, a fazer chaves, o dia inteiro... À tarde, vejo-o baixar a porta de ferro da oficina, com todo o cuidado. Dia seguinte, novamente varre a caçada... No circo da vida, ele trilha um círculo do mesmo diâmetro, sempre e sempre... Quem tem como ofício abrir portas, talvez tenha se habituado a não abrir certas portas em si mesmo; dúvidas não ajudam a quem vive da mão para a boca! Ele é a própria reafirmação de que o sujeito é o sujeito inteiro - ele é ele e as suas circunstancias. Eu, ele e as demais pessoas do verbo também - a vida é essa planura aborrecida..."


[Penas do Desterro, 07 de novembro de 2009]
Postado por Carlos Rodolfo Stopa às 12:30 PM

Fonte do texto:
http://mundareus.blogspot.com/2009/11/eu-sou-eu-e-minhas-circunstancias.html

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NOTA DO BLOGUEIRO:
(em atenção ao amigo Éverton Vidal, do blog Re-novidades)

Por duas vezes o amigo Éverton me disse da sua intenção de ler Ortega y Gasset. Esse é o motivo da transcrição da postagem acima: Prosear acerca de Ortega, aqui neste agradável Sítio, em que, vez ou outra, colaboro com meu compadre Carlinhos.
Do que diz o Carlos Stopa, não concordo apenas com a frase final. Embora o texto seja primoroso. O autor afirma que a vida é "uma planura aborrecida" (sic). A vida pode ser plana ou montanhosa, mas a vida é sempre que-fazer, ou seja, a vida, a tua, a nossa vida (a biográfica e não a biológica) não nos é dada pronta, mas é o mote, no qual faremos a glosa de nossa existência. O sentido aborrecido ou não desta 'planura', cabe a nós realizar. (E isso já é pensamento orteguiano...)
Mas antes que me estenda, explico ao Éverton o que trouxe até aqui o texto do Stopa. É que o título dessa postagem é a condensação da filosofia orteguiana. A frase, no entanto, está incompleta. Ortega afirma que " eu sou eu e minhas circunstâncias, e se não salvo a elas não me salvo a mim". O chaveiro da crônica do Stopa está imerso em sua vida, executando-a, e só a ele cabe adjetivá-la, dar-lhe um sentido. Para isso, precisa "saber a que se ater". Isso é o que faz a filosofia de Ortega. Aliás, isso é o que faz toda filosofia digna do nome. O cronista, embora talentoso na forma, apontou apenas parte da visão orteguiana do binômio "eu & minhas circunstâncias", mas só parte. É isso o que quero salientar nessa nota de blogueiro.
Pois bem: inicio, a partir desta, uma série de postagens sobre a filosofia de Ortega y Gasset, que ando relendo, e que, em verdade, dá suporte a muita coisa do que escrevo em prosa ou poesia. Orteguianamente, busco saber a que me ater. Ou seja, vivo. Viver já é filosofar.

Grato pelo espaço, compadre.

Luiz Eurico de Melo Neto

Fonte da imagem:
quiosque do chaveiro

quarta-feira, 12 de maio de 2010

O lirismo das Flores da Várzea do Capibaribe




























Falo em nome de um Bloco Lírico que se entende como um bloco “do presente, sem esquecer dos valores do passado”. Não é por acaso que o nosso bloco não se denomina “bloco carnavalesco misto”, posto que essa palavra, ‘misto’, aponta para um tempo em que as mulheres mal saíam às ruas e nem podiam trabalhar fora, estudar ou votar. Carnaval de rua, nem pensar! Esse tempo passou. Nosso bloco é criado por mulheres modernas, cultas, trabalhadoras, mulheres do século 21. O tempo de um bloco se chamar de misto, pelo fato de ter mulheres e homens em seu cortejo, está obsoleto, como tantas outras excrescências do carnaval (machista) do passado.

Porém, o que não está ultrapassado é o lirismo dos blocos.

Não falo do lirismo dos gregos, que cantavam a poesia ao som da lira. (Embora os blocos, por serem musicais, tragam algo desse jeito grego de fazer arte). Nem tampouco me refiro ao lirismo do canto ou da poesia lírica, enquanto gênero musical ou literário. Falo do lirismo atemporal. Do lirismo enquanto expressão artística de qualquer humano. Do lirismo de quem assobia, distraidamente, enquanto caminha, ou de qualquer um que, amorosamente, canta para embalar o filhinho insone. O lirismo que não é apenas do poeta, mas o lirismo do homem e da mulher, da criança e do adulto. O lirismo entranhado na vida cotidiana do povo.
Importa então definir lirismo enquanto uma forma de apreensão da natureza e das coisas em derredor. Eu diria ainda que a primeira impressão que temos do mundo é lírica. Quando a criança diz aos pais: vejam que lindo cachorrinho! Ou quando um de nós passa de ônibus à beira mar e espicha os olhos e a alma até a linha do horizonte... é lírico, esse eu que se enternece, que vê o belo, que apreende as nuanças da vida em torno: um rosto, uma praça, um sorriso de criança, os cabelos grisalhos de um saudoso avô. Por isso, é que o lirismo está na categoria do atemporal. Enquanto houver um ser humano que se enterneça, que se ocupe subjetivamente da emoção com o belo das coisas em derredor, aí estará o lirismo. E quando falo das coisas em derredor, não trato apenas das visíveis, mas das que não se podem ver, com os olhos da face. O que me dizem da emoção com a bondade, com a fraternidade, com o bem? Não é lírica a emoção de ver a união entre as pessoas, a solidária convivência entre os que se amam com desinteressado amor?. Dentre as coisas em derredor, o lirismo também alcança as invisíveis, as essenciais, as que ficam para sempre. É esse lirismo que ostenta o nosso lindo flabelo:

“Bloco Lírico Flores do Capibaribe”

Um bloco lírico: essa foi a melhor denominação que poderia ter sido dada a esse grupo das Flores do bairro da Várzea do Capibaribe. Pois o lirismo é coisa eternamente jovem. O lirismo é um valor do presente. E a preservação do lirismo é também a preservação da emoção humana voltada para o belo, para o bom e para o bem.
Guardem isso na alma, queridas Flores. E, nesse momento em que a juventude começa a se achegar ao grupo, não deixemos de refletir que somos líricos, sentimentais, mas não somos um bloco de passadistas. Flores existem, desde o começo das eras. Todavia, elas não representam o passado, e, sim, simbolizam a renovação, a primavera, o recomeço dos ciclos sazonais. Que sejam bem-vindos os jovens com suas idéias e com sua energia. E longa vida ao Bloco Lírico Flores do Capibaribe.
“Por isso, as Flores do Capibaribe vieram às ruas cantar com emoção, louvando a resistência da nova geração que gosta do lirismo que há nas canções desses blocos antigos.”

Beijos e eternas flores!
Lula Eurico