Sábado, 19 de Julho de 2008

Satya: verdade
Graha: amor, apego

O apego à verdade deve ser mais importante do que a própria vida.

Um dos princípios sustentados até a morte
por esse grande advogado indiano,
modelo para as os juristas, daqui ou de alhures.
Não tratarei dos fatos recentemente ocorridos
na justiça brasileira.
Esse blogue só cuida de assuntos sérios.
Mas olhem bem a foto, senhores magistrados!
Deixem que essa imagem
mergulhe em vossa alma,
e inunde a vossa consciência!
Assim poderão julgar retamente!



Sexta-feira, 18 de Julho de 2008

Dr. Plausível visita o Sítio d'Olinda


Não resisti à prosa saborosa e profunda desse sábio, do qual sou fã de carteirinha, e resolvi copiar e colar aqui uma postagem de seu blogue. Cheio de erudição e bom humor, este blogue é um clássico do gênero. Concordando ou não com suas idéias, o fato é que o sábio as trata com rara maestria. Confiram:



A síndrome de Willian


Nosso encomiável doutor quase não lê jornal. Comprar, então, só in extremis. Sair de manhã pra seu morning constitutional e dar uma paradinha na banca pra ver as manchetes penduradas é um hábito q ele não renega desde seus tempos de estudante no Instituto de Plausibilática de Tallinn. O raciocínio de nosso humanista é impecável: se all news is old news e se os jornais controlam as notícias diariamente, então uma bizoiada a cada 24 horas na primeira página basta. Não quer se meter a ler jornal não. Há entre o doutor e o jornaleiro um acordo tácito. O doutor pode às vezes tirar fotos das manchetes em troco da preferência de comprar ali seus gibis, qdo lhe dá na telha. Há pro outro o bônus adicional de começar bem o dia com o contágio dum gargalho plausônico.Esta manhã foi uma glória pro jornaleiro. Ao ver a primeira página da Folha, a gargalhada múltipla de nosso humanista o infectou em tal grau q a rua toda invejou os dois por estarem começando uma quinta-feira pós-feriado num astral hilariante.
O q o doutor viu foi a foto acima!

Desde a ascensão da imprensa como meio político, há entre deputados de todas as laias um tipo de velhacaria muito comum q consiste em simbolizar tudo errado com o intuito de confundir as coisas q já estão confusas na mente de quem se vale desse recurso.Pois pergunta-se: ¿o q tem a ver, de um lado, um político evangélico numa confortável sala do congresso carregando nos braços duas bonecas levinhas durante alguns minutos pruma photo-op... com, do outro lado, uma mulher realista neste mundo decididamente desconfortável carregando na barriga durante 9 meses um pesado feto indesejado com a suposição de q se responsabilizará por ele durante os 18 anos seguintes?Todo assunto sério abordado com cretinice dá nesses absurdos q em si são risíveis. Mas o q destrambelhou o doutor a rir foi ver o NOME do deputado. Qqer pessoa sensata e culta q se preze vê logo de cara q alguém q veio ao mundo com o nome Willian (note: williaN) não deve ter crescido num ambiente com muito apego à realidade q o cerca. "William com ene" é uma coisa estapafurdiamente diferente de "Brasil com zê". Brazil é o sarcasmo ao estar consciente do significado q uma letra pode assumir; Willian é a sedução do iletrado inconsciente do q as letras dizem. Está claro q ter um nome tipo 'Willian' não desmerece ninguém a priori. Chamar-se Jean-Claude ou Djéfersão ou Orprúndio não é opróbrio nenhum prum brasileiro (muito menos aos olhos do doutor – cujo primeiro nome, diga-se, é Amônio). Mas imagine a infância desse menino, nascido desortograficamente numa nação genuflexa perante nações melhor estruturadas, crescendo sem orgulho pátrio de sua própria língua e cultura, com uma desatenção cor-de-rosa pelos detalhes da cultura importada, seguindo um culto evangélico q se pauta por Bíblias (mal) traduzidas do inglês e por discursos (mal) adaptados de problemáticas euaenses, galgando-se social e politicamente por utilizar técnicas de marketing religioso originadas "lá" e trazidas "de lá" por missionários deslumbrados, e então aplica sua ideologia pra-inglês-ver no congresso brasileiro, onde a questão é totalmente outra, e – pra arrematar – insulta as leis brasileiras e a mínima inteligência do público brasileiro ao tomar emprestado TAMBÉM os confusos e pérfidos processos mentais da religiopatia euaense e chama de "abortos" os trágicos assassinatos daquela menina paulista pela janela e daquele menino carioca no carro. Imagine. É um mundo paralelo tomando conta da realidade.Numa nação genuflexa e ignorante, é um problema constante q se transforme a genuflexão disléxica numa profissão de fé, diversificando-a em genuflexão cultural e ideológica, genuflexão metodológica e econômica, genuflexão religiopática e política.Talvez pareça q o doutor enxerga uma causa lingüística até mesmo na questão do aborto, quase beirando a botar nos gramáticos normativos e reformadores ortográficos a culpa pela sandice q rotineiramente leva genuflectores à câmara federal. Mas o nome do rapaz é apenas um detalhe engraçado. Por outro lado, a prova da genuflexão disléxica taí pra quem quiser ver. Um deputado federal chamado Willian segura duas bonecas e acha isso um símbolo pertinente numa guerra eterna entre ideologias traduzidas.O Dr Plausível viu tudo isso ali, ao ler a primeira página do jornal pendurado na banca da esquina. Só podia mesmo gargalhar.O acordo tácito entre ele o jornaleiro se parece com aquele entre a hipocrisia política e a franqueza da realidade. O doutor não vai comprar um trambolho de jornal só pra ler algumas notícias; se ele não puder ler as manchetes ali, vai ler em outra banca. O jornaleiro sabe disso; o q ele perde no jornal, ganha no gibi. Quem quer fazer um aborto faz, sem pensar se é criminalizado ou não; se não puder fazer de graça num hospital público, vai fazer em outro lugar. Os willians sabem disso. O acordo tácito é entre quem condena e quem faz: "Ninguém vai te pôr na cadeia, mas me reservo o direito de berrar contra." O q eles perdem em realismo, ganham em angelismo. Mas o q eles não querem mesmo é pagar pelo aborto; ou seja, não querem gastar dinheiro, mesmo q se prove q seria pra se ter um país melhor. De melhor, basta q existam os ideais platônicos da Europa e dos Euá – aquele país onde o aborto é legalizado e produz o maná de onde os willians dislexicamente derivam suas idéias.Morning constitutional, indeed!

________________


Adendo:
Apesar dos Willians, este país descende culturalmente de Portugal. Só em fevereiro de 2007 é q os portugueses foram aprovar em referendo o q eles chamaram de "despenalização da interrupção voluntária da gravidez ... nas primeiras dez semanas". É ligeiramente intrigante aventar q esse país da periferia européia não teria tido a iniciativa e o impulso de se modernizar nesse sentido não fosse o exemplo prévio da maior parte do restante da Europa. Talvez o q falte à sua ex-colônia tupiniquim não seja bom-senso, mas *vizinhos* com bom-senso.

Fonte do texto e da imagem:
http://drplausivel.blogspot.com/
Nota do autor do Sítio d'Olinda:
O moradores deste sítio intra-histórico podem até não concordar com tudo o que afirma o plausibilático doutor,
mas lutarão e berrarão até à exaustão, se preciso for, pelo livre-pensar dos sábios, como ele, e por julgarem plausíveis as suas gargalhadas matinais.





















Segunda-feira, 16 de Junho de 2008

Tia Dora e seus mitologemas


Entrevista concedida pela escritora Dora Ferreira da Silva (1918-2006) ao site da WEBLIVROS:

Mais conhecida por seu trabalho como tradutora - enfrentando autores tão diversos como Angelus Silesius e San Juan de la Cruz, Rilke e Hölderlin, Valéry e Saint-John Perse, Jung e Tauler -, Dora vem prestando serviços à poesia desde há muito. Seja como animadora cultural nas décadas de 50 e 60, recebendo junto ao marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, intelectuais, poetas e artistas plásticos para tertúlias na famosa casa da rua José Clemente; como diretora de revistas literárias (Diálogo, Cavalo Azul) em que colaboraram autores do porte de um Guimarães Rosa; ou como representante daquela linhagem de poetas cuja obra se constrói na soleira do sagrado; o fato é que a "conversa de raízes e corolas transparentes" sustentada por Dora irradiou-se por um vasto espaço.


WEBLIVROS!: A editora Topbooks, do Rio, editou sua obra poética reunida. Em face dessa retrospectiva, como você avalia seu percurso lírico desde Andanças (1970) até agora? Você percebe mudanças de dicção? Obsessões que ficaram mais nítidas?

Dora: Acho que houve um amadurecimento do ponto de vista literário; embora não considere poesia literatura. É uma outra coisa. A literatura é alguma coisa que a pessoa pode estar fazendo com um pé atrás. Já o poema acontece com você dentro dele. É um strip-tease muito maior que um romance, por exemplo, em que há personagens entre os quais o autor pode ou não estar. Podem estar ele e seus heterônimos, com vários outros personagens. Mas a poesia tem qualquer coisa... Não que ela tenha que ser (e ela não é) autobiográfica, mas há flashes de problemas, buscas... O problema religioso está aí, o do amor..., mas sem o pé atrás da reflexão estrita. Há um elemento arracional - não digo irracional - intuitivo, sentimento e pensamento, tudo. E percepção. De vez em quando, você sente o tato das coisas. Todas as funções trabalham na poesia. Certos poetas, estou falando em geral, são mais perceptivos; outros são mais intuitivos; outros, mais reflexivos; ou, mais sentimento. Não conhecia a tipologia junguiana quando fiz meus poemas, mas agora eu conheço. Lendo, comecei um trabalho crítico, de reflexão sobre o feito. Todo poeta tem um crítico lateral. Ele não pode ser muito forte, porque senão é como a luz que entra na câmara fotográfica: vela a imagem. Um poeta que seja muito crítico fará a poesia sofrer. Mas também não pode ser totalmente acrítico, não pode acolher tudo o que lhe vem. Poesia não é tudo o que vem, não é escrita automática. Se bem que, para alguns, pode ser..., há pessoas que fazem escrita automática. Eu trabalho com Dionísio e Apolo: o primeiro momento é o que vem; depois eu edito. Quando escrevo à mão, ainda não consigo editar. Tenho que bater à máquina para tomar distância, objetivar. Há uma objetividade do poema. Quando o poema se destaca, se você começar a mexer demais, estraga tudo. Há um momento em que ele diz: nasci, não mexa mais. Ele não fala, mas você escuta. Gostei disso que a Inezita me deu (mostra um pêndulo com um poliedro de cristal na ponta), porque me dá muito a sensação de um trabalho invisível. A luz passa... a melhor definição de poesia, para mim, é isso aqui. É um trabalho que a luz, o lógos, atravessa... O mythos foi antes, depois tem que vir o lógos. Em certos poetas prepondera o mythos, noutros, o lógos.

WEBLIVROS!: Jung, num texto que você traduziu, "Psicologia e Poesia", diz que as obras de arte têm um papel compensador que restaura o equilíbrio anímico do mundo. Os arquétipos que se podem encontrar nas obras de uma determinada época dialogam com as carências anímicas daquela época. Você também vive insistindo que os problemas que estamos atravessando nesse final de século, como a violência, o desemprego, pobreza, epidemias..., devem ser entendidos como disfunções da anima mundi. Que arquétipos você encontra na poesia contemporânea respondendo a esse estado de coisas?

Dora: É difícil responder genericamente. Não é propriamente o arquétipo que está no poema. Cada poeta tem os seus mitologemas. Esses mitologemas dependem dos ancestrais, das primeiras vivências..., dependem às vezes de uma fotografia que pode provocar falsas lembranças. (Levanta-se e vai pegar uma fotografia do pai com ela, bebê, nos braços.) Essa foi a minha primeira viagem. Pouco depois meu pai morreu, assim jovem, tinha trinta e dois anos. E eu tinha oito meses, eu, a futura tradutora de São João da Cruz. Todas as fotografias dessa época ficaram escuras. Não parece a noche oscura? Era um quintal de tarde. Tenho a impressão que ele fazia isso (faz o gesto de erguer os braços oferecendo o bebê aos céus.) O Donizete (Galvão) me mostrou um texto da Maria Zambrano em que ela fala isso: "Minha primeira viagem foi nos braços do meu pai." Fiquei tão tocada! Donizete vê semelhanças entre nós: ela gosta de São João da Cruz, eu também... Mas isso não quer dizer nada; muita gente gosta. Não tenho uma afinidade muito grande com Maria Zambrano pelo que conheço dela; se bem que conheço pouco. Mas dessa viagem ela fala, um movimento que se alterna: para o alto, e de volta ao peito; para o alto, para o peito. Estranho, não? Isso é um mitologema? Um homem com os pés na terra e que me levanta na direção do céu. É um mitologema, pegando não o conceito, mas o conteúdo. Já vi pais, mães, fazerem isso. A criança até perde um pouco do fôlego... Então, para falar do mitologema, tem que se apoiar em fatos, aparentes fatos da vida da pessoa. Outro exemplo: o crepúsculo. Quando eu era criança, não sabia que o crepúsculo era o crepúsculo. Eu morava em Pinheiros, onde ainda tinha muito mato, muito carrapicho... Minha babá me punha no colo para eu não pegar carrapicho nas perninhas. Um dia, eu me lembro, eu estava no colo dela e vi uma cena terrível: meu pai gritando, sangue, estava morto. Tinha sido atropelado pela carroça. Não eram pensamentos, eram percepções, fulgurações tenebrosas. As primeiras imagens são muito duras. Então o crepúsculo era..., eu entrava chorando em casa, "mamãe, mamãe, o sol caiu do barranco e o céu está cheio de sangue!" E ia chorar no quarto. Vivia o drama do céu, o drama cósmico, como a perda do pai. Mais tarde eu soube que o pôr-do-sol está ligado à morte de Cristo.

WEBLIVROS!: Queria falar agora de um outro autor que faz parte do "paideuma dórico", da Dora: Rilke. Dele você traduziu as "Elegias de Duíno", um trabalho maravilhoso que até hoje circula. Aqui no Brasil - também lá fora, mas vamos nos limitar ao Brasil - a recepção do Rilke se dividiu. É como se houvesse dois Rilkes. Um Rilke de inflexão mais metafísica, que é o Rilke dos Sonetos a Orfeu e das Elegias de Duíno, e outro Rilke, mais objetivista, que é o Rilke dos Novos Poemas. Atualmente preferência da crítica tam se inclinado mais em direção a esse segundo Rilke. O João Cabral diz preferir "a pantera ao anjo"...

Dora: ... eu traduzi "A pantera"! E minha tradução ficou linda. O Flusser falava que eu só traduzia as Elegias, mas é mentira. Tenho uma pasta assim de outras traduções do Rilke. Mas ainda não pus na forma definitiva. É que uma vida é pouca quando a gente quer trabalhar mesmo. Das Dinggedichte, a poesia das coisas, foi resultado de um desafio lançado pelo Rodin. Rodin disse ao Rilke, que foi seu secretário: "Você tem vivências oníricas, os anjos e tal, mas não é capaz de ver as coisas!" Aí o Rilke foi para o Jardin des Plantes e fez aquelas maravilhas que são "O cisne", "A pantera"... Fez poesia sobre os bichos, plantas, fez "A bailarina espanhola" e uma série de outras coisas. Mas eu acho, sinceramente, que o Rilke grande é o das Elegias e dos Sonetos a Orfeu. Para mim. Não se trata de um dogma. Vou te dizer uma coisa: quando eu traduzi as Elegias, era muito jovem, tinha vinte e oito anos, ou menos, não sabia alemão suficientemente. Foi um verdadeiro milagre. Meu professor de alemão falava: "Esse poeta escreve coisas que não querem dizer nada. Nirgends ohne Nichts. Nenhum alemão vai saber o que é isso." Nenhum alemão vai saber, mas ele escreveu, cunhou uma palavra. Daí, entendendo o contexto, e com ajuda de uma tradução do Angelloz, que foi acompanhada pelo próprio Rilke, fui traduzindo. Tenho a impressão de que fiquei tão siderada, não sei se pelo tom visionário... Talvez eu tenha um poço que me ligue diretamente ao Inconsciente Coletivo; o que me permite entrar, de vez em quando, em diálogos completamente assimétricos. O Rilke me ajudou na tradução. Porque, realmente, quando eu leio as Elegias, penso: "Como é possível?" Eu tinha vinte e sete, vinte e oito anos na ocasião, fiz o que homens de setenta anos estão fazendo agora. Fui tomada por alguma força... E não começou com as Elegias. Li Os cadernos de Malte Laurids Brigge em espanhol. Que coisa maravilhosa. Decidi, então, aprender alemão com o Vicente para ler o Rilke no original. Agora, acho que as Elegias e os Sonetos é que são grandes.

WEBLIVROS!: Você diz que, enquanto traduzia "A morte de Empédocles" do Hölderlin, sentia as paredes tremerem. Há um poema seu em que você diz "Não me destruas, Poema / enquanto ergo / a estrutura do teu corpo / e as lápides do mundo morto." Você já sentiu poemas desabarem sobre você? Já foi soterrada?

Dora: Senti medo, muito medo. Quando estive em Delphos, não vi nenhum turista, de tão forte que é a Grécia para mim. Só vi os turistas depois, nas fotografias. Lá em Delphos tive a impressão de que, se ficasse um, dois meses, nunca mais voltaria. Acontecem coisas estranhíssimas. Bebi da Fonte Castália junto com o Edmar (José de Almeida) e a Inezita. Os dois ficaram com dor de barriga, eu não. (risos) (Silêncio)

WEBLIVROS!: Ainda pensando nos seus poemas, você diz que não contratou os serviços de Dédalo; o labirinto veio de graça. Como gerir essa dádiva?

Dora: (Silêncio) A vida não é um labirinto? E não é de graça? Eu não sei se alguém imagina que a vida não seja um labirinto, mas, por mais simples que a pessoa seja, a vida é um labirinto. Nada está predeterminado. Quando o Vicente morreu, fiquei à beira da loucura com a idéia da Moira. Tudo parecia predeterminado. Eu não queria fazer a viagem, estava morrendo de dor de cabeça. Disse: "Vicente, vamos adiar, eu não quero ir, estou morrendo de dor de cabeça!". "Tome um Melhoral", ele me respondeu. Há experiências em que tudo parece predeterminado. Na estrada, quase dois caminhões vieram por cima da gente... A única coisa que me fez superar isso, depois que eu entrei em análise, foi uma explosão, de dentro, religiosa. É o Cristo. E olha que eu saí da Igreja, porque não tenho uma tendência para me conformar a algo externo, institucional. Mas sei que o meu Deus é o Cristo. Não nego tudo o que ficou para trás. Cada cultura, cada povo tem uma Imago Dei. Quando os estudiosos falam em "contexto cultural" parece uma coisa fria; não é. A religião grega está ligada aos atos de cada dia. Para recolher a água, existia a Casa da Fonte, onde as mulheres levavam as bilhas..., tudo é ritual. Aquilo que o meu amigo português falou, que nós somos politeístas, é verdade. No inconsciente, somos politeístas. Uns falam Apolo, outros, Dionísio. Não é flatus vocis. Quando você toma uma bebedeira, não é Dionísio quem bate à tua porta? E, de repente, você fica esquisito, tomado pelo deus. Gosto daquele texto do Lawrence que diz: "A nossa alma é uma floresta sombria. Nela, deuses vão e vêm. Devemos ter a coragem de deixá-los ir e vir." Nossa alma é uma floresta sombria. Mas às vezes há uma explosão tão forte, como a que eu tive ao descobrir o Cristo, cuja luz absorve as outras luzes. Os deuses morrem, não é? Dionísio também é um deus sacrificado... Quando vem o insight não há teoria nenhuma. Ou você volta, e se ordena, ou você enlouquece. Porque entra num vórtice maior que a própria alma. A alma vira um joguete. Todas as experiências fundamentais da vida nos põem em perigo. Guimarães Rosa já disse que "viver é muito perigoso". Mas as pessoas quase não vivem. E talvez façam bem. Se querem ter uma vidinha pacata, o labirinto deve ser simplificado. Mas quem recebe o labirinto de graça e toma o gosto de viver perigosamente - sem citar o Mussolini (risos) -, não desperdiça a dádiva.

Por Fabio Weintraub

:: Obra de Dora Ferreira da Silva

POESIA

Andanças - SP: edição da autora, 1970. (Prêmio Jabuti / Câmara Brasileira do Livro)

Uma via de ver as coisas - SP: Duas Cidades, 1973.

Meninaseumundo - SP: Massao Ohno, 1976.

Jardins (esconderijos) - SP: Supolo, 1979.

Talhamar - SP: Massao Ohno / Roswitha Kempf, 1982. (Menção Honrosa no Prêmio PEN Clube de São Paulo)

Retratos da Origem - SP: Roswitha Kempf, 1988.

Poemas da Estrangeira - SP: T. A. Queiroz, 1995. (Prêmio Jabuti / Câmara Brasileira do Livro)

Poemas em fuga - SP: Massao Ohno, 1997.

Obra poética reunida - RJ: Topbooks, 1998.


TRADUÇÃO

DE LA CRUZ, San Juan - A poesia mística de San Juan de la Cruz - SP: Cultrix, 1984.
JUNG, Carl Gustav - Memórias, sonhos e reflexões - RJ: Nova Fronteira, 1975. --Mysterium Conjunctionis - Petrópolis: Vozes, 1998-- O Aion - Petrópolis: Vozes, (data ?)--O Eu e o Inconsciente - Petrópolis: Vozes, (data ?)--Psicologia e Alquimia - Petrópolis: Vozes, (data ?)--Resposta a Jó - Petrópolis: Vozes, (data ?)
RILKE, Rainer Maria - Elegias de Duíno - Porto Alegre: Globo, 1972.--Vida de Maria -Petrópolis: Vozes, 1994.
SILESIUS, Angelus - Viajante Querubínico (fragmentos) in Angelus Silesius - SP: T. A. Queiroz, 1986.
TAULER, Jean - Sermões - Petrópolis: Vozes, 1998.

ENSAIO
Angelus Silesius (em colaboração com Hubert Lepagneur) - SP: T. A. Queiroz, 1986.
Tauler e Jung (em colaboração com Hubert Lepagneur) - SP: Paulus, 1998.

fonte do texto:
http://www.weblivros.com.br/entrevista/dora-ferreira.html
fonte da imagem:
http://www.revista.agulha.nom.br/ag55silva1.jpg

Leia dois belos poemas da Dora no blog Eu-lírico.

Quinta-feira, 12 de Junho de 2008

Leão do Norte



Sou o coração do folclore nordestino

Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá

Sou o boneco do Mestre Vitalino

Dançando uma ciranda em Itamaracá

Eu sou um verso de Carlos Pena Filho

Num frevo de Capiba

Ao som da Orquestra Armorial

Sou Capibaribe

Num livro de João Cabral



Sou mamulengo de São Bento do Una

Vindo no baque solto de um Maracatu

Eu sou um auto de Ariano Suassuna

No meio da feira de Caruaru

Sou Frei Caneca do Pastoril do Faceta

Levando a Flor da Lira

Pra nova Jerusalém

Sou Luis Gonzaga

E eu sou mangue também


Sou Macambira de Joaquim Cardoso

Banda de Pife no meio do Canavial

Na noite dos tambores silenciosos

Sou a calunga revelando o Carnaval

Sou a folia que desce lá de Olinda

O Homem da Meia-noite puxando esse cordão

Sou jangadeiro na festa de Jaboatão


Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco,
Eu sou o Leão do Norte

Lenine

(Ainda em desagravo aos nordestinos, ofendidos pela mídia sudestina,
e em comemoração da memorável façanha do Sport Club do Recife,
contra tudo e contra todos, campeão da Copa do Brasil.
Assim se faz um mito!!!)

Sábado, 7 de Junho de 2008

Força mítica da paisagem pernambucana

Coqueirais de Maracaípe - PE

Hino do Estado de Pernambuco
Letra: Oscar Brandão
Música: Nicolino Milano
.

Coração do Brasil! em teu seio
Corre sangue de heróis - rubro veio
Que há de sempre o valor traduzir
És a fonte da vida e da história
Desse povo coberto de glória,
O primeiro, talvez, no porvir.

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

Esses montes e vales e rios,
Proclamando o valor de teus brios,
Reproduzem batalhas cruéis.
No presente és a guarda avançada,
Sentinela indormida e sagrada
Que defende da Pátria os lauréis.

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

Do futuro és a crença, a esperança,
Desse povo que altivo descansa
Como o atleta depois de lutar...
No passado o teu nome era um mito,
Era o sol a brilhar no infinito
Era a glória na terra a brilhar!

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

A República é filha de Olinda,
Alva estrela que fulge e não finda
De esplender com seus raios de luz.
Liberdade! Um teu filho proclama!
Dos escravos o peito se inflama
Ante o Sol dessa terra da Cruz!

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

* A letra foi obtida na página oficial do
Governo do Estado de Pernambuco,
pelo site abaixo:

http://www.suacara.com/hino_pernambuco.htm

Fonte da img.:
http://www.flickr.com/photos/ignaciovicent/289379826/

Além da beleza da imagem, questões de ordem
imperiosa me forçaram a publicar esse post.
Os que destratam, nos últimos dias, a gente pernambucana,
pela imprensa sudestina, são o alvo dessa postagem.
Peço a compreensão dos amigos blogueiros, sempre fraternos
e sem preconceito algum com o nordeste.
Mas temos de resistir.
E esse blog é nicho da mítica resistência pernambucana!!!

Domingo, 25 de Maio de 2008

Brennand visita o Sítio d'Olinda


Confira a visita virtual desse escultor mitopoético
ao Sítio intra-histórico d'Olinda, no post anterior:

PAISAGEM E MITO













Ainda sob o influxo do insight que recebi do pequeno Matheus Kunz, abaixo transcrevo fragmentos dos “Diálogos do Paraíso Perdido”, apaixonado depoimento do escultor Francisco Brennand, em meados de 1990:


DIÁLOGOS DO PARAÍSO PERDIDO

F. Brennand


Cap. 2 - VISÃO MÍTICA DA TERRA

O mito das Terras Sagradas foi cultivado em toda a civilização ocidental através de seus melhores espíritos. (...) Certamente que este mito é tão antigo quanto o homem e se encontra enraizado em todos os tipos de cultura, quer ocidentais quer orientais.
Já no século XVI, em pleno Renascimento, quando o humanismo deslocara Deus do centro da história, para nesse centro colocar o homem, o mito permanece. Não foi por acaso que os “descobridores” portugueses deram ao nosso país o nome de Terra de Santa Cruz. (...)
Mas, o que não deixa de ser curioso, e até perturbador é que no século XIX grandes artistas europeus  em pleno florescimento da civilização industrial  voltassem suas vistas e os seus secretos pensamentos para as grandes florestas do mundo. Pintores como Paul Gauguin, que se instalou em Fatu-Iva, ilha das Marquesas, quase ainda antropofágica, à procura do que ele declarava ser indispensável para a plena realização de sua arte. (...) Com as antenas da imaginação Henry Rousseau, esse mágico ilustrador de florestas tropicais e bichos imaginários, reencontrou toda a verdadeira visão de um país distante e sagrado, ainda em estado selvagem. (...) mesmo escritores aparentemente afastados deste mundo mítico por preocupações psicológicas de outra espécie, como D. H. Lawrence e Thomas Mann (...) escreveram páginas de impressiva perplexidade sobre a alegria da vida livre, animal e humana; como se imaginassem escapar do fictício e entrar no coração da própria natureza selvagem. Eu mesmo não escapei ao sortilégio da busca de imagens míticas milenarmente repousadas no coração de nossa própria terra. Isso levou-me, quase inconscientemente, a Euclydes da Cunha. E quando consultava À Margem da História, lá estavam as sugestões míticas inconscientemente procuradas, à página sete, em que o autor de Os Sertões sugere, contemplando a paisagem amazônica, “um recuo às mais remotas idades, como se rompêssemos os recessos de uma daquelas mudas florestas carboníferas...” Na continuação dessa história  e é esse exatamente o meu propósito,  de sublinhar o insólito desse acontecimento  alguma coisa interrompeu-me a atenção e fez desdobrar meus pensamentos em direções ocultas, como se, de repente, outras narrações se sobrepusessem à de Euclydes e se entremeassem às suas próprias linhas: a mesma paisagem sufocante de mil olhos que espreitam os mesmos pântanos tropicais, as mesmas árvores deformadas como em sonhos. Foi-me difícil admitir, mas o texto evocado era de Thomas Mann, do seu livro A Morte em Veneza, uma das mais completas descrições de uma floresta tropical que conheço, só comparável às pinturas florestais de Henry Rousseau (...) Essa página de um escritor alemão, em cujas veias corria o sangue brasileiro, não pode deixar de ser lida, pois tem toda uma conotação simbólica com o nosso mundo. (...) O personagem Aschembach é tocado pela vertigem daquilo que o poeta Baudelaire chamava “as inquietações malditas” e pela primeira vez sente fugir dos seus pés o sólido pavimento europeu. (...) sentiu a surpreendente consciência duma quebra de barreiras interiores (...) duma sede ardente e juvenil por cenas distantes. (...) Na verdade o que ele sentiu foi mais do que um desejo veemente de viajar (...) vindo com tal arrebatamento e paixão que se assemelhava a um seqüestro, quase a uma alucinação. Desejo visualmente projetado: (...) a sua fantasia (...) imaginou as maravilhas e terrores da terra multiforme. Ele viu. Contemplou uma paisagem, um pântano tropical sob um céu enegrecido, vaporoso, monstruoso,  uma espécie de mundo selvagem e primaveril  fileiras de ilhas, canais, pântanos e aluviais. Troncos de palmeiras ramalhudas erguiam-se, aqui e além, perto de escuros amontoados de fetos, tufos de espessa vegetação fértil, bojuda, grossa, com incrível florescência. Havia árvores deformadas como em sonhos que estendiam as suas raízes nuas, eretas, através do ar, para a terra ou para a água estagnada, sombria e esverdeada, onde gigantescas flores cor de leite flutuavam e onde estranhas aves, com curiosos bicos, olhavam prudentemente imóveis e silenciosas. Entre as nodosas hastes dum bosque de bambus, brilhavam os olhos de um tigre agachado  e ele sentiu o coração pulsar aterrorizado, ainda sob o inexplicável e veemente desejo. Então a visão desvaneceu-se.

********************************************
Essa visão mítica da terra, perseguida por diversos artistas europeus, encontrou no nosso Francisco Brennand, um esplêndido território imaginativo, um acolhedor regaço de urvater, com suas avoengas barbas de algodão, tão universalmente nordestino e brasileiro. Vem desse patriarca da Várzea do Capibaribe, a intuição mítica e ancestral de
que:
“(...) somos ao mesmo tempo árvores e frutos, mares e montanhas, animais e homens, alcançando esta (...) unidade original (...) que prefigura a nossa civilização tropical.”

Para fechar essa postagem, que já se alonga demais, trago a prosa-quase-poética de Paul Gauguin, num manuscrito do Tahiti, chamado Noa-noa, que bem poderia ser chamado de Paisagem e Mito, título que dá nome às minhas últimas reflexões, surgidas a partir da intuição do pequeno Matheus Kunz, desde lá da distante Copenhague:

Noa-noa


E a velha floresta cuja férvida seiva
se enriquece expandindo-se em
descuidadas ondas
esbeltas palmeiras cujos frutos se agitam
nos céus,
tamarindos, papoulas, fetos
gigantescos...
o pau-rosa e a manga que enchem o ar
com um fausto de sombra e de perfume,
árvore de ferro
e as que são pródigas de doces frutos 
carnes e pão  e as que se oferecem
por si,
muros e telhados de casas, altivas naves
e tálamos
tornam a vida um sonho belo, abolidos
o trabalho e a fome, a miséria e a inveja.
A Floresta, inteira ao cabo da vida
imensa,
morte perpétua, renascença sem fim.

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Não é à toa que o Brennand intitulou o livro de onde extraí o quase-poema acima, como Diálogos do Paraíso Perdido. Estamos “perdendo” o planeta Terra, como vaticina o milenar relato bíblico.
Ainda há tempo de mudar a nossa civilização?
Perguntemos ao Bush Jr.
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Dedico também esta postagem ao poeta Eurico, que anda às voltas com a busca das matrizes mitopoéticas da brasilidade (vide
Tupã M'tói), mais ou menos ao modo como faz o Brennand, com as suas esculturas, e como fez o poeta-mor Fernando Pessoa, com o misticismo mítico de seu Mensagem(1934).

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Fonte da imagem:
www.brennand.com.br
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Fonte do texto:
Brennand, Francisco, Diálogos do Paraíso Perdido,
Recife: Editora da Prefeitura da Cidade do Recife, 1990, pp. 88-108