sexta-feira, 31 de julho de 2009

Resenha Poética nº 3 (Por que Niezsche chorou abraçado a um cavalo?)







A postagem original é do blogue do Cláudio Alex FAgundes, mas caiu como uma fruta madura (por que seria caiu como uma luva?) para comentar o Atropelamento, poema lá do Eu-lírico. Leiam e saibam porquê:

Coloco esse pequeno trecho aqui, porque estou pleno de empatia com Nietzche hoje. A cena é uma descrição perfeita de Kundera extraída de "A Insustentável Leveza do Ser".

"Uma vitela-novilha aproxima-se de Tereza, estaca ao pé dela e fica a observá-la demoradamente com os seus grandes olhos castanhos. Tereza conhece-a bem. Chama-lhe Margarida. Gostava de ter batizado todas as vitelas, mas não conseguiu. Não havia nomes que chegassem. Há trinta anos, pelo menos, com certeza que ainda era assim, com certeza que todas as vacas da aldeia tinham nome. (E se o nome é sinal da alma, pode bem dizer-se, custe o que custar a Descartes, que as vacas tinham alma.) Mas, depois, a aldeia tornou-se uma fábrica cooperativa e as vacas nunca mais saíram, durante toda a vida, dos seus dois metros quadrados de estábulo. Deixaram de ter alma e passaram a não ser mais do que — machinae animatae —. O mundo deu razão a Descartes. Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada num tronco, a afagar a cabeça de Karenine e a meditar no fracasso da humanidade.
Ao mesmo tempo, aparece-me outra imagem: a de Nietzsche a sair de um hotel de Turim. Vê um cocheiro a vergastar um cavalo. Chega-se ao pé do cavalo e, sob o olhar do cocheiro, abraça-se à sua cabeça e desata a chorar. A cena passava-se em 1889 e Nietzsche, também ele, já se encontrava muito longe dos homens. Ou, por outras palavras, foi precisamente nesse momento que a sua doença mental se declarou. Mas, na minha opinião, é justamente isso que reveste o seu gesto de um profundo significado. Nietzsche foi pedir perdão por Descartes ao cavalo. A sua loucura (e portanto o seu divórcio da humanidade) começa no instante em que se põe a chorar abraçado ao cavalo.
E é desse Nietzsche que eu gosto, tal como gosto da Tereza que tem ao colo a cabeça de um cão mortalmente doente e que a afaga. Ponho-os um ao lado do outro: tanto um como o outro se afastam da estrada em que a humanidade, — dona e senhora da natureza —, prossegue a sua marcha sempre em frente."




Fonte do texto:
Autor: Cláudio Fagundes
http://claudioalex.multiply.com/journal/item/778

Cláudio Fagundes


Fonte da imagem:
Cavalo chicoteado

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Resenha Poética nº 2



















imagem google




O poeta Eurico publicou no Eu-lírico de hoje (23/07/09) um clamor em forma de poema. Alguém lhe disse que poema é pra ser declamado, lido em voz alta. Ele, que é adepto do poema para ser lido em silêncio e com os olhos sobre a página, conferindo a estrutura gráfica, a pontuação, o tamanho dos caracteres, sua cor, sua textura (rs), de repente me surpreende com um texto para ser lido aos berros. Cadê o poeta do mitologema, dos símbolos, do poema pra ser lido e relido, repensado e reelaborado por cada leitor. É... o que uma crise não faz!
Então decidi não resenhar o poema, mas transcrever a notícia de jornal que, além de outras picuinhas próprias do mundo dos poetas, o fez escrever assim, como dizia Caetano, com a boca no megafone:

"berro pelo Aterro
bebo o desterro
"


A notícia está logo aqui, ipsis litteris:



Até 2012, mais de 33 mil menores serão mortos
Da Folha de Pernambuco - 22.07.2009
www.folhape.com.br
Estudo: Recife e Maceió têm os mais altos índices de homicídios




BRASÍLIA (Folhapress) - Mais de 33 mil adolescentes serão assassinados entre 2006 e 2012, prevê o Indicador de Homicídios na Adolescência (IHA), divulgado ontem pelo governo federal, Unicef e Observatório de Favelas. As cidades do Recife (PE) e Maceió (AL) estão no topo da lista dos piores números entre as capitais, com 6 mortes para cada mil adolescentes. O Rio de Janeiro vem em seguida, com 4,9 mortes. A cidade de São Paulo ocupa o 24º lugar entre as capitais com 1,4 morte a cada mil jovens.
De acordo com o estudo, de cada mil adolescentes que completam 12 anos no Brasil, 2,03 são mortos por homicídio antes de completar 19 anos. Foram analisados dados de 2006 de 267 municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes. No panorama geral do País, a cidade de Foz do Iguaçu (PR) lidera o ranking de mortes violentas entre adolescentes, com 9,7 mortes para cada grupo de mil adolescentes. Em seguida vem Governador Valadares (MG), com 8,5 mortes e Cariacica (ES), com 7,3 mortes.
Em números absolutos, porém, a capital paulista tem o segundo maior número de mortes de adolescentes entre as capitais, com 1.992 mortes, atrás apenas da cidade do Rio de Janeiro, que tem 3.423 mortes.
Nancy Cardia, coordenadora-adjunta do Núcleo de Estudos da Violência da USP, aponta que, com exceção de Rio e São Paulo, as regiões metropolitanas sofreram um processo de expansão mais recente e, em consequência, têm uma estrutura urbana mais precária.
Ainda segundo ela, estudos mostram que uma série de problemas das cidades está relacionada à violência com crianças e adolescentes: o fato de as crianças mais pobres permanecerem menos tempo na escola e ficarem a maior parte do tempo sem a supervisão de adultos, por exemplo, faz com que elas fiquem mais tempo expostas.

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Nota: e saibam todos que diminuímos a mortalidade infantil por desnutrição, doenças, etc. Os menores estão sendo mortos é à bala, mesmo.

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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Resenha Poética Nº 1 (prolegômenos)






















Prolegômenos, até dispensáveis...

A nossa parceria é antiga. Vem desde a meninice. Eu sou quase um amigo invisível do Lula. Quem é o Lula? Ah, o Lula é o poeta Eurico, que tem o nome do avô: Luiz Eurico de Melo Neto. A coisa é tão de amigo, que ele inventa essa história de resenha, e não me avisa com antecedencia. Mas, como tenho na gaveta, coisas do tempo do Eu-lírico em papel, tempos românticos em que xerocávamos os nossos zines e enviávamos pelo correio pra o Brasil quase todo. Eita trabalheira! Bem, como tenho algo que serve pra ocasião, vou transcrever aqui, logo abaixo, o comentário da edição nº 10 - jun/jul-1996, do zine Eu-lírico, cuja capa, chamada O Ninho, escaneei, e serve como ilustração dessa Resenha nº 1.

Obs.: a capa é uma collage de autoria do compadre Lula.

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OPUS ALCHYMICUM
.............por Carlinhos do Amparo

Vejam que instigante afirmativa da Dra. Nise da Silveira (in Jung-vida e Obra, p. 160):

"o mundo do poeta é um mundo de imagens arquetípicas".

E continua, a saudosa Mestra:

"essas imagens prescindem da lógica e da sintaxe comum, posto que emersas das funduras imensas do inconsciente, de onde trazem as intuições primordiais"...(e, atalho eu, por que não dizer, mitopoéticas? rsrs)


Concluo, a partir da do que disse a Dra. Nise da Silveira, (e no âmbito brevíssimo e restrito deste comentário), que os símbolos alquímicos originam-se, bem como as imagens poéticas, no ventre do inconsciente coletivo, e serão reencontradas nos sonhos e na imaginação dos povos de todas as épocas.
Evidenciam-se, junguianamente, confluências entre essa linguagem poética, hermética e obscura e a linguagem dos bizarros textos da alquimia. É que o artista, como o alquimista, segundo o próprio Jung, exprime a fala inconsciente e ativa da humanidade, tornando acessíveis a todos as fontes da vida.

Então, pergunto:
surgirá a Poesia, sob o fulgor dessa revelação interior, quase filosofal, alquímica, e numinosa?

E ainda:
há, na alma do poeta, uma protopoesia, fruta inextinguível das experiências lírico-pensantes dos homens, que ora se apresenta de maneira irrealista, onírica e abstrata?

(Olinda, meados de julho de 1996)

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Mais um dedinho de prosa (em 22/07/09, hoje, portanto)

Sobre o tal esoterismo euriquiano, eu devo discordar. Não de quem pensa isso, mas dele, do meu compadre. Como é que ele me faz uma postagem ilustrada pela Escada de Jacó, símbolo esotérico dos pedreiros-livres, e ainda cita o Octavio Paz, dizendo ser a escada símbolo da "humilhação da pedra", ali na barra lateral, põe um título meio maçon, com um subtítulo totalmente maçon,e não quer que o rotulem de esotérico. Ora, meu compadre, isso é puro esoterismo. Não me venha enganar com o tag junguiano da individuação, pois isso é só pra despistar o leitor, que eu bem te conheço! A Escada de Jacó remete à evolução espiritual e isso o compadre não vai querer esconder, né? Tá bom, há um metapoema escondido aí, mas... sei não. Estás meio esotérico, compadre velho! rsrsrs
(Desculpa, compadre, mas, o senhor me pediu pra comentar, eu comentei! Eu num sei mentir!) rsrsrs

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sábado, 18 de julho de 2009

Decálogo de um Urso Polar: Drummond





Prezado compadre Carlinhos, peço licença para postar em teu Sítio, posto que o Eu-lírico está, doravante, terminantemente vedado à prosa. O que me traz aqui é uma angústia, uma aflição repentina, de que fui acometido por esses dias. Lendo os mais premiados escritores de nosso tempo, cá no Brasil, percebi que o que escrevo não está em sintonia com nada, nem com ninguém: meus contos são longos e cheios de ilações filosóficas, meus poemas tem temáticas estranhas e alienadas, e o meu romance, interminaaaável, não passa de uma colcha de retalhos, ou de elementos de uma gestalt jamais fechada. Antes de entrar em crise, fui ver o que pensavam meus gurus. Com eles é que aprendo sempre. Pois, como se sabe, não há faculdade de escritores, né mesmo? Disso já falamos aqui. Pois bem, fui pesquisar o que dizia do ofício poético, da escrita mesmo, o, tão tímido mas tão vigoroso com as idéias, Carlos Drummond de Andrade. E o Google me revelou essa santa entrevista por telefone, colhida pelo Geneton Moraes Neto, que aqui transcrevo (ou seja, copio e colo, com grifos meus, rsrsrs). Com isso apaziguou-se, ou quase isso, em minha alma, essa sensação de escrever meio "naïf", meio sem teoria, sem conhecimento da norma culta da língua. A sensação de escrever por catarse, para curar meus medos, tendo como embasamento teórico, só, e tão sómente só, o lirismo que trago desde adolescente. Mas, leiamos o Mestre:



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: "O JORNALISMO É UMA FORMA DE LITERATURA"


Atenção, pesquisadores de curiosidades zoológico-poéticas: o apartamento 701 do prédio número 60 da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana, era palco diário de uma cena esquisita. Lá, um urso polar adorava falar ao telefone.
O auto-intitulado “urso polar” chamava-se Carlos Drummond de Andrade. Desde que virou uma quase unanimidade nacional, Drummond ergueu em torno de si uma couraça para se proteger das investidas do mundo exterior. Era o exemplo acabado do mineiro arredio. Usava uma suposta timidez – desmentida por amigos íntimos – para manter longe de si, na medida do possível, as inconveniências da celebridade, descritas nos versos amargos do poema “Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz”:


“Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar (...)

Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera(...)


Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando :

Cacem o urso polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência (...).



Durante décadas, Drummond fugiu dos pedidos de entrevista. Preferia repetir a resposta-padrão: tudo o que tinha a dizer estava em seus poemas e crônicas. Mas mantinha um flanco aberto: o telefone. Amigos chegaram a definir Drummond como um “ser telefônico”. Ziraldo escreveu que Drummond era “ao telefone, um derramado, com uma voz entre rouca e afunilada, meio tênue e fina, com a respiração difícil como quem tem desvio de septo”.
O “urso polar” cultivava esta pequena esquisitice: sempre que podia, fugia do contato pessoal, mas se mostrava surpreendentemente acessível às investidas telefônicas de intrusos como, por exemplo, este locutor-que-vos fala.
Um dos editores do Jornal da Globo, cultivei, pelos idos de 1986, o hábito de incomodar o poeta pelo telefone, em busca de declarações que eram transformadas, no ar, em frases que exibiam a assinatura de Drummond. O poeta jamais se esquivou de fazer rápidos comentários. A uma pergunta sobre o que pensava de uma reunião de professores de países de língua portuguesa em Lisboa para discutir uma proposta de unificação ortográfica,Drummond – tido como um dos maiores poetas já produzidos pela língua portuguesa – deu uma resposta tipicamente drummondiana :

- “Considero-me um usuário, não o proprietário da língua. Não sou filólogo, não sou professor, não sou gramático. Sou um leigo em língua portuguesa”.

Tive a chance de entrevistar outro gigante da poesia brasileira,o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto,sobre a idiossincrasia telefônica de Drummond :

- “Era uma coisa engraçada: pessoalmente, ele falava menos” – constatava Cabral. “Mas tinha uma conversa longuíssima ao telefone. Quer dizer: quanto mais longe a pessoa, mais afetuoso ele era. Tenho a impressão de que ele não gostava era do contato físico”.



O telefone terminou se transformando no caminho das pedras para a obtenção daquela que seria uma das maiores entrevistas já concedidas por Drummond. Em julho de 1987, Drummond respondeu a setenta e seis perguntas que lhe fiz por telefone, em duas sessões. Transcrita,a gravação da entrevista rendeu cerca de duas mil linhas datilografadas. As palavras do urso polar ficam. Recolho um possível decálogo de nossa entrevista:



1. ”Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos – e eu já estarei no cemitério São João Batista – ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.

2. ”A solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está solitária, nunca está sozinha. Terá sempre uma companhia: a imensa companhia de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.

3. ”Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Por outro lado, não tendo tido nenhuma ambição literária, fui poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético”.

4. ”A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta pode também passar despercebido”.

5. ”Tive apenas o desejo de exprimir minhas emoções. Eu sentia necessidade de que eles se soltassem; era um problema mais de ordem psicológica do que de outra natureza”.

6. ”O jornalismo é uma forma de literatura. Eu, pelo menos, convivi – e mil escritores conviveram- com uma forma de jornalismo que me parece muito afeiçoada à criação literária: a crônica”.

7.”O que lamento é que as novas gerações já não tenham os estímulos intelectuais que havia até trinta ou quarenta anos passados.As pessoas que sabiam escrever a língua se destacavam na literatura e nas artes em geral.Hoje em dia,há escritores premiados que não conhecem a língua natal”.

8. ”Sou uma pessoa terrivelmente corajosa, porque não espero nada de coisa nenhuma”.

9. ”Considero-me agnóstico. Sou uma pessoa que não tem capacidade intelectual e competência para resolver o problema infinito que é se existe ou não existe uma divindade”.

10. ”Minha motivação foi esta : tentar resolver,através de versos,problemas existenciais internos.São problemas de angústia,incompreensão e inadaptação ao mundo”.



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Permitam-me um pós escrito, em postagem tão longa:

É nesses grifos acima, e apenas neles, que me vejo um escritor
como o Drummond. Jamais na forma de escrever as
angústias, longe mim. Nisso Drummond é inimitável.
Mas isso que Drummond afirma como "poética de divã"
é o que chamo de lirismo. Nesses moldes, sou um poeta
profundamente lírico, apesar de me perpassarem os ecos
de tantas leituras feitas, nos livros e na vida.

Abraço fraterno.


(*) Geneton Moraes Neto é autor de “Dossiê Drummond” (Editora Globo), livro que traz a íntegra da entrevista de Carlos Drummond de Andrade, além de depoimentos de 45 personalidades brasileiras sobre o poeta.

Fonte do texto:
http://www.geneton.com.br/archives/000063.html
Posted by Geneton at abril 15, 2004 12:56 AM


Fonte da imagem:
Carlos na sua biblioteca

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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Cultura e Linguagem, ruminando com Adolpho Crippa














Fiquei meditabundo, depois da seqüência de cartas do compadre Eurico. Embora as suas missivas tenham agradado muito ao pessoal aqui do Sítio, pois traziam uma simpática e deliciosa fauna: uma galinha e seu respectivo ovo, uma bacorinha; coisas bem nutritivas e conhecidas da gente intra-histórica, cá deste Sítio d’Olinda. Inclusive, o compadre esqueceu sob a mangueira, os tais curvos ganchos da interrogação do “seu” José(*).

Fiquei especialmente intrigado com uma imagem do nascimento da fala, da comunicação entre os homens que grifei no trecho abaixo:

“A cultura precede o homem e lhe oferece as possibilidades de agir e de fazer. O homem não poderia inventar a cultura, por mais que realizasse obras singulares nos diversos campos em que seu espírito possa se manifestar. O homem não cria a cultura. Ao contrário, ele é constituído pela cultura, nele mesmo, no seu mundo, na sua linguagem, nos seus valores. A cultura seria assim uma anterioridade absoluta frente à liberdade, uma anterioridade absoluta frente à imaginação, uma anterioridade absoluta frente à linguagem.
Os homens não criam a linguagem. Para isso teríamos que imaginar um povo não falando nada e, de repente, reunido, acertando sons, imagens, conceitos, ou seja, descobrindo ou escolhendo uma certa maneira de falar. Ou então um conglomerado de entes, que humanos não seriam ainda, escolhendo os símbolos, as formas de suas manifestações no campo da religião, da arte e da ciência. Isso é algo impossível. A cultura seria assim um precedente absoluto frente à consciência e frente à liberdade. Nenhum homem nasce por acaso e do nada. Nenhum homem surge absolutamente perdido no espaço. Há uma anterioridade determinante
."


Fico imaginando, enquanto penduleio na rede, cá nesse cantinho aprazível de minha eterna Olinda, fico ruminando e rindo só, tentando montar a cena da passagem acima: centenas de pitecantropos, reunidos numa caverna, ou numa clareira pré-histórica, a combinar os fonemas de uma língua a ser criada. Deviam pelo menos grunhir, emitir algum som para, deles, escolherem a matriz fonética da nova língua. Além de estranha, a cena é hilária.

Parece brincadeira, mas a argumentação do Dr. Crippa é fulminante. Eu, pelo menos, considero essa cena impossível de ter ocorrido. A tarefa ainda seria mais difícil, ao pensarmos que não se tratava apenas da escolha de sons, fonemas, mas também de símbolos, imagens, conceitos. É claro que isso deveria ser uma tarefa de séculos, talvez de milênios. Mas, com certeza tenho de concordar com o que afirma indiretamente o Dr. Crippa, à página 183, de seu Mito e Cultura, quando questiona:

“Como poderia o homem criar palavras e símbolos antes de possuir o sentido da comunicação? Como edificaria uma casa antes de sentir a necessidade de habitar? Como ergueria um templo antes de uma experiência religiosa do sagrado?”

É ele mesmo quem responde a seguir:

“Há uma linguagem primordial, da mesma maneira que há um residir antes do habitar, um sentir e um imaginar que antecipam as expressões artísticas, uma manifestação primordial do sagrado antes de uma verdadeira experiência religiosa.”

E arremata, dizendo:

“para agir e expressar-se em formas e atividades significativas, o homem deve estar dotado de formas radicais que tornem possíveis tais expressões.”

Há uma questão que se impõe a essa altura do tema. Quem leu todas as cartas anteriores já sabe que o que torna possível o agir e expressar-se, ou seja, o que possibilita a ação humana no mundo, e o lugar, a instancia em que ele se instala, segundo Dr. Crippa, é a cultura. A cultura é o alvéolo da civilização humana na Terra. Mas eis que ela é precedida do Mito. Eis a anterioridade absoluta! Eis o prius! Eis a fonte inesgotável dessas protoformas radicais que norteiam o homem em sua rota imaginativa e criadora!
Ops, ia esquecendo da questão que se impõe nesse ponto da peroração. Aqui está ela:

Já havia pensamento nesse agrupamento humanóide? Ou seja, a razão já iluminava as cavernas de onde sairia a horda dos Homo Sapiens?


Eu não ousaria responder isso aqui, nesse exíguo espaço. Mas vou tergiversar com uma coisa que descobri esses dias, lendo História Oral e Memória, de outro sábio, o Prof. Dr. Antonio Torres Montenegro. Especialmente no capítulo 2 – A Língua no Asfalto, p. 35 a 51, da minha edição, que é de 1992.
Bem, cotejarei esse capítulo, com pinceladas do que entendo ser a Razão Vital, do espanhol Ortega y Gasset, pois pretendo indicar uma possível resposta à pergunta feita acima.

O Dr. Montenegro cuida nesse A Língua no Asfalto, da aquisição do conhecimento por certa moradora do bairro de Casa Amarela, no Recife, chamada Dona Tôta, mulher semi-analfabeta, inserida na luta social, em meados de 1964, sob a égide da ditadura, portanto.
Dona Tôta, que tinha poucas luzes, se percebia ignorante. “Eu já fui burra”, dizia anos depois. Não obstante teve uma atuante participação nas reuniões secretas, que fundariam uma associação de moradores e de operários, preocupados com a situação social. Nesse percurso ela se apodera da fala de outra classe social, do discurso político, de tal forma que todos pensam que ela tem um bom nível de escolaridade.

Mas o que vou tratar ainda não é isso.
O Dr. Montenegro nos conduz por esse percurso da aquisição do conhecimento, pela Dona Tôta, demonstrando que a fala é decisiva para quem vive a radicalidade cotidiana do “não ter”.
Por isso articular o ato de pensar a fala, construir uma retórica, desenvolver argumentos em torno de um saber, exigiu dessa dona de casa iletrada, um longo processo de observação e aprendizagem.
Exigiu dela a utilização da razão. Isso mesmo. Da razão como instrumento para sobreviver num mundo hostil. Ou seja, o uso efetivo da razão vital.
Aqui recorro à imagem do pensador Ortega y Gasset, que compara a razão vital àquela varinha que usamos para experimentar a profundidade do trecho de um rio que queremos atravessar. A razão enquanto um sentido semelhante ao ver ou ao apalpar. A razão diferente, daquela razão pura, abstrata, físico-matemática. Não há negar a existência daquela. Mas a razão usada no cotidiano do operário, do lavrador, da doméstica, do humilde catador de lixo, dos iletrados, dos sem história (ou intra-históricos), dos sem escrita. Essa é que entendo como a razão vital.
Ufa! Creio que já posso remeter essa situação àquele contexto do grupo de homens das cavernas.
Ali também não havia história, nem escrita, mas devia haver a razão, como a concebeu o filósofo espanhol. Aquela que ajuda o homem a 'saber a que se ater', no oceano das coisas em derredor e no emaranhado da inóspita realidade. A razão vital, pois, é indispensável instrumento para refletir a luz do mito, dentro das cavernas. Uma das protoformas radicais do Dr. Crippa, deve ser, sem dúvida, a razão. Mas a Razão Vital orteguiana, enquanto apetrecho primordial do homem, dentro da Cultura.

Portanto, finalizo essa meditação, com um abraço fraterno aos intra-históricos do Sítio d’Olinda e do mundo, que, apesar de iletrados, conseguem compor, através de ritos e signos peculiares e cotidianos, um discurso vital e detentor de um conhecimento, que lhes empodera e os faz derrubar os óbices da segregação e vencer as barreiras invisíveis, interpostas pelos letrados e eruditos às camadas populares da sociedade.

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Basta, pessoal!
Espero que tenha me feito entender.
Meu discurso é paupérrimo.
Sei apenas ruminar, como o boi no pasto. rsrsrs

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(*) José Ortega y Gasset,
filósofo raciovitalista,
autor de Meditações do Quixote.


Fonte da img.:
http://www.eb-outeiro.rcts.pt/homem_cavernas.jpg

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terça-feira, 2 de junho de 2009

A Cartada Final: Mito e Cultura - Adolpho Crippa

















Giselle Bundchen, entronizada sobre os ameríndios .
(um mito moderno, explorado em peça publicitária)


Prezado Compadre Carlinhos,

Vim, afinal, concluir essas tais cartas, com uma “cartada final”.
Para isso, revisemos a carta da postagem anterior:

Para o nosso resenhado, o Dr. Adolpho Crippa
“há uma linguagem primordial, da mesma maneira que há um residir antes do habitar, um sentir e um imaginar que antecipam as expressões artísticas, uma manifestação primordial do sagrado antes de uma verdadeira experiência religiosa.”

Baseado nessas premissas, o sábio culturalista brasileiro chega à conclusão de que:

“para agir e expressar-se em formas e atividades significativas, o homem deve estar dotado de formas radicais que tornem possíveis tais expressões.”

Foi a essa altura da prosa que lancei a minha interrogação, feito quem joga um curvo anzol na ponta de uma linha invisível. Questionava eu, ao final da carta anterior:

Se o espírito humano necessita dessas formas radicais que preexistiam numa anterioridade absoluta, num prius, de que instância recolhe o homem essas protoformas que orientam sua força imaginativa e criadora?


Agora é que a porca torce o rabo!

E essa ancestral imagem do rabo da porca, quase arquetípica, que simboliza um nó, ou o esforço do suíno para resolver algo, lá no seu chiqueiro, essa imagem nos ajudará a investir contra os moinhos de vento das nossas interrogações .
E por falar em moinhos de vento, aí está outra analogia quase mítica, que nos vem sendo ditada, desde Cervantes, há uns 400 anos atrás.

Quase que eu digo, no parágrafo anterior, o nome dessa instância em que vivem as tais protoformas do Dr. Crippa, que até lembram aquilo que Platão chamava de idéias, mutatis mutandis. Portanto, essas singelas imagens dos moinhos de vento, ou mesmo do rabinho torcido da bacorinha, são o que chamamos de deslocamento metonímico, ou metafórico, Um jeito que a mente humana encontrou de concentrar o que se quer enunciar, numa só imagem. Mal comparando, também, lembram os anagramas chineses. Pois é, compadre, essas analogias, quando condensam formas primordiais, de cunho profundo, guardadas no inconsciente coletivo, são os chamados mitologemas.

Mitologemas?

Mitologema ou mitema significa a imagem mítica essencial, que compõe, associada a outras, uma estrutura mitológica dramática, em si mesma completa. (Roberto Gambini)

Exemplo simples de mitologema, ou mitema:

Quem já ergueu um bebê e o jogou pro alto, num movimento de sobe e desce, não percebe que esse gesto lembra algo antiquíssimo, como o erguer de uma oferenda, ou da hóstia dos cristãos. Algo que se remete para o alto, à divindade. Esse é um exemplo próximo e simples do que pode ser um mitologema.
Outro mitologema, mais denso e remoto, gerador de mitos, é a sensação do queda de sol no crepúsculo. O sol poente. O sol ocidente. O Ocidente. A terra do crepúsculo.

Pois bem, os mitemas, ou mitologemas apontam para essa instância de compreensão de um prius, de uma anterioridade das formas, da região em que habitam as formas radicais, as protoformas, indicadas pelo Dr. Crippa.

Essa instância primordial é o Mito.

Não pretendo resumir um tratado, como é o livro do Adolpho Crippa, mas passo a compreender a cultura, enquanto anterioridade, enquanto alvéolo, a partir do aprofundamento da idéia do Mito, enquanto lugar inaugural das civilizações, genetriz do mundo factível, do provável e do possível. De fato não há possibilidade de comunicar, de habitar, sentir ou imaginar, sem as protoformas míticas dessas coisas num espaço do possível, ou seja, há uma ursprache, uma linguagem primordial, antes de existir as línguas, a comunicação humana. Da mesma maneira que há “uma manifestação primordial do sagrado antes de uma verdadeira experiência religiosa”.
A cultura, portanto, é o berço das coisas, das ações e das realizações humanas, do que é feito e do que é possível ainda fazer. A cultura é filha única do mito e mãe das civilizações.


Com isso, abro a possibilidade de finalizar esta missiva, apontando para leitura da obra clássica do culturalismo brasileiro, Mito e Cultura, do Dr. Adolpho Crippa.

Concluo, meu compadre Carlinhos, que essa carta já se alonga por demais, renovando os mais cordiais sentimentos de estima e admiração.

Abraço fraterno.

Eurico
Recife, 02/06/2009

quarta-feira, 8 de abril de 2009

O ovo ou a galinha - o homem ou a cultura?

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Prezado Compadre,


Eis que essas cartas estão tomando um rumo que me fazem lembrar de uma perguntinha, aparentemente inocente e jocosa, mas que se encaixa bem no nosso tema:
Quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
Ou seja, quem surgiu primeiro, o homem ou a cultura?

Perguntinhas da carinha de bobas, né? Mas , como diria Ortega y Gasset, não é em vão que elas trazem os curvos ganchos da interrogação.

Pois é nessa mesma linha de reflexão que o Dr. Crippa, mutatis mutandis, levanta algumas interessantes questões. À página 183, de seu Mito e Cultura, ele pergunta:

“Como poderia o homem criar palavras e símbolos antes de possuir o sentido da comunicação? Como edificaria uma casa antes de sentir a necessidade de habitar? Como ergueria um templo antes de uma experiência religiosa do sagrado?”

Três perguntinhas interessantes, e que vão, definitivamente, adiando o desfecho que julgávamos haver na carta anterior, num é mesmo, compadre?

Se não, vejamos: para o Dr. Crippa “há uma linguagem primordial, da mesma maneira que há um residir antes do habitar, um sentir e um imaginar que antecipam as expressões artísticas, uma manifestação primordial do sagrado antes de uma verdadeira experiência religiosa.”

Decorre dessas afirmações que: “para agir e expressar-se em formas e atividades significativas, o homem deve estar dotado de formas radicais que tornem possíveis tais expressões.”

Eis que surge uma nova questão que também adiará o desfecho desta carta, e que deixo para a meditação de meu compadre:

Se o espírito humano necessita dessas formas radicais que preexistiam numa anterioridade absoluta, num prius, de que instância recolhe o homem essas protoformas que orientam sua força imaginativa e criadora?


Até a próxima e
receba o abraço fraterno
de seu compadre e amigo,

Eurico


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