
A primeira postagem deste sítio tinha de ser mesmo com um conto que extraí do livro Sete Saltos Mortais, de autoria do compadre e amigo Luiz Eurico de Melo Neto:
Natureza-Morta
“sois, apenas, como neblina que
aparece por instante e logo se dissipa...”
(São Tiago 4:14)
Pernoitaram sobre a mesa, aquelas bolotas vermelhas, deixadas em uma vasilha de ágata. Algum sortilégio noturno, algum miasma, perpassou-lhes as polpas carnudas, e eis que amanheceram assim, bolorentas e maceradas. Aquele viço apetecível, aquela aparência rubra e suculenta se esvaiu. Um sopro letal deve haver na noite, no sereno. Algo imperceptível, que necessita das horas silenciosas da madrugada para atingir o cerne vital das frutas, das flores...de tudo...
Contemplá-las, ao desjejum, nessa manhã introspectiva, traz à alma um estranho pesar. Há pouco, no lavabo, o espelho deixava entrever os inúmeros fios brancos que em mim despontam, que desapontam. Sinto-me frágil infrutescência, pênsil e pingente, feito fruto maduro. Atravessei, sem perceber, as noites frias desses últimos cinqüenta anos. Alguma substância elemental me vai atingindo o âmago da vida. Uma informação incrustada em minhas moléculas diz, em código: és finito.
“sois, apenas, como neblina que
aparece por instante e logo se dissipa...”
(São Tiago 4:14)
Pernoitaram sobre a mesa, aquelas bolotas vermelhas, deixadas em uma vasilha de ágata. Algum sortilégio noturno, algum miasma, perpassou-lhes as polpas carnudas, e eis que amanheceram assim, bolorentas e maceradas. Aquele viço apetecível, aquela aparência rubra e suculenta se esvaiu. Um sopro letal deve haver na noite, no sereno. Algo imperceptível, que necessita das horas silenciosas da madrugada para atingir o cerne vital das frutas, das flores...de tudo...
Contemplá-las, ao desjejum, nessa manhã introspectiva, traz à alma um estranho pesar. Há pouco, no lavabo, o espelho deixava entrever os inúmeros fios brancos que em mim despontam, que desapontam. Sinto-me frágil infrutescência, pênsil e pingente, feito fruto maduro. Atravessei, sem perceber, as noites frias desses últimos cinqüenta anos. Alguma substância elemental me vai atingindo o âmago da vida. Uma informação incrustada em minhas moléculas diz, em código: és finito.
Agora os sonhos ainda estão por sonhar, e as gavetas estão prenhes de projetos. O vento, vindo da Sé, balança as frondosas mangueiras do Horto Del Rey; levanta a poeira na estrada que vai dar no Sítio das Quintas. Os dolbermans do casarão ao lado apoiam-se na muralha e espiam os garotos que jogam bola. Aqui, parece que o tempo não passou e as crianças ainda brincam na rua: bola de pé, bola de meia, bola de gude.
Os galos já descansam de suas saudações ao dia. Há mangas maduras caídas no chão. E as pessoas vão passando, apressadas em cumprir os seus desígnios...
Olinda acorda aqueles que dormiram e encontra os notívagos da Irmandade do Amparo, abraçando a alvorada. Devotas de Maria em busca da primeira missa, misturam-se ao cortejo profano dos boêmios em regresso.
Os galos já descansam de suas saudações ao dia. Há mangas maduras caídas no chão. E as pessoas vão passando, apressadas em cumprir os seus desígnios...
Olinda acorda aqueles que dormiram e encontra os notívagos da Irmandade do Amparo, abraçando a alvorada. Devotas de Maria em busca da primeira missa, misturam-se ao cortejo profano dos boêmios em regresso.
Os ateliês da Cidade Alta abrem as janelas e deixam que a brisa lhes sopre a tinta fresca das telas. À mesa, o artista solitário fita as acerolas murchas no vaso. Seus pensamentos vacilam como as asas de uma mariposa, fatigada, depois de lutar a noite toda, tentando desprender-se das teias de uma aranha. Mais do que as idéias, vacilante está o seu corpo franzino. Suas juntas rangem como velhas cancelas. Pronuncia algumas palavras ao acaso. Saem de sua boca pássaros flácidos, que esvoaçam a custo, rente ao chão.
Encanecido. Um ser cansado e encanecido exala o cheiro fúngico dos velhos alfarrábios...
Sedentário. Só e sedentário. Desistiu das coisas mais comezinhas – desistiu da ação.
Hoje quedou-se a meditar diante da terrina de ágata. As acerolas, ontem vermelhas e macias,...antes suculentas e saudáveis...
Encanecido. Um ser cansado e encanecido exala o cheiro fúngico dos velhos alfarrábios...
Sedentário. Só e sedentário. Desistiu das coisas mais comezinhas – desistiu da ação.
Hoje quedou-se a meditar diante da terrina de ágata. As acerolas, ontem vermelhas e macias,...antes suculentas e saudáveis...
Ah, o tempo...
O tempo é um escultor de máscaras mortuárias...
Recolhe os seus pincéis... a paleta treme entre seus dedos. Cores desbotadas, boninas, tons crepusculares, uma monocromia em pálidos tons de vermelho...pintava uma natureza-morta...
A sombra passageira de uma nuvem encobre as cumeeiras da cidade. Exausto, deita-se mansamente sobre o assoalho. Balbucia uma prece sem sentido... então, uma profunda e melancólica agonia o faz desfalecer...
Concluído em 06.12.05, este conto olindense.
Horto del Rey, Olinda.
O tempo é um escultor de máscaras mortuárias...
Recolhe os seus pincéis... a paleta treme entre seus dedos. Cores desbotadas, boninas, tons crepusculares, uma monocromia em pálidos tons de vermelho...pintava uma natureza-morta...
A sombra passageira de uma nuvem encobre as cumeeiras da cidade. Exausto, deita-se mansamente sobre o assoalho. Balbucia uma prece sem sentido... então, uma profunda e melancólica agonia o faz desfalecer...
Concluído em 06.12.05, este conto olindense.
Horto del Rey, Olinda.
A setinha leva ao Autor►
2 comentários:
Compadre, assim vc não deixa eu me mudar em paz. Ta sendo um parto, sair do Sítio das Quintas, mesmo morando em casa alugada. Olhe que eu desisto!
Abraçamigo e fraterno!
deixa ver por onde começo... se pelo dono do blog ou pelo autor do conto! rs...
bom, o conto é uma destas surpresas que costumam deixar a gente boquiaberta. não deveria, eu sei. afinal, já o conheço como poeta e bom poeta. mas este conto é deliciosamente bonito. gosto de escritos confessionais, especialmente qdo a alma se deixa entrever nas letras do autor.
um beijo. num e noutro.
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