"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.
Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas.
Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.
Carnaval era meu, meu."

(Clarice Lispector )







sábado, 18 de julho de 2009

Decálogo de um Urso Polar: Drummond





Prezado compadre Carlinhos, peço licença para postar em teu Sítio, posto que o Eu-lírico está, doravante, terminantemente vedado à prosa. O que me traz aqui é uma angústia, uma aflição repentina, de que fui acometido por esses dias. Lendo os mais premiados escritores de nosso tempo, cá no Brasil, percebi que o que escrevo não está em sintonia com nada, nem com ninguém: meus contos são longos e cheios de ilações filosóficas, meus poemas tem temáticas estranhas e alienadas, e o meu romance, interminaaaável, não passa de uma colcha de retalhos, ou de elementos de uma gestalt jamais fechada. Antes de entrar em crise, fui ver o que pensavam meus gurus. Com eles é que aprendo sempre. Pois, como se sabe, não há faculdade de escritores, né mesmo? Disso já falamos aqui. Pois bem, fui pesquisar o que dizia do ofício poético, da escrita mesmo, o, tão tímido mas tão vigoroso com as idéias, Carlos Drummond de Andrade. E o Google me revelou essa santa entrevista por telefone, colhida pelo Geneton Moraes Neto, que aqui transcrevo (ou seja, copio e colo, com grifos meus, rsrsrs). Com isso apaziguou-se, ou quase isso, em minha alma, essa sensação de escrever meio "naïf", meio sem teoria, sem conhecimento da norma culta da língua. A sensação de escrever por catarse, para curar meus medos, tendo como embasamento teórico, só, e tão sómente só, o lirismo que trago desde adolescente. Mas, leiamos o Mestre:



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: "O JORNALISMO É UMA FORMA DE LITERATURA"


Atenção, pesquisadores de curiosidades zoológico-poéticas: o apartamento 701 do prédio número 60 da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana, era palco diário de uma cena esquisita. Lá, um urso polar adorava falar ao telefone.
O auto-intitulado “urso polar” chamava-se Carlos Drummond de Andrade. Desde que virou uma quase unanimidade nacional, Drummond ergueu em torno de si uma couraça para se proteger das investidas do mundo exterior. Era o exemplo acabado do mineiro arredio. Usava uma suposta timidez – desmentida por amigos íntimos – para manter longe de si, na medida do possível, as inconveniências da celebridade, descritas nos versos amargos do poema “Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz”:


“Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar (...)

Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera(...)


Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando :

Cacem o urso polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência (...).



Durante décadas, Drummond fugiu dos pedidos de entrevista. Preferia repetir a resposta-padrão: tudo o que tinha a dizer estava em seus poemas e crônicas. Mas mantinha um flanco aberto: o telefone. Amigos chegaram a definir Drummond como um “ser telefônico”. Ziraldo escreveu que Drummond era “ao telefone, um derramado, com uma voz entre rouca e afunilada, meio tênue e fina, com a respiração difícil como quem tem desvio de septo”.
O “urso polar” cultivava esta pequena esquisitice: sempre que podia, fugia do contato pessoal, mas se mostrava surpreendentemente acessível às investidas telefônicas de intrusos como, por exemplo, este locutor-que-vos fala.
Um dos editores do Jornal da Globo, cultivei, pelos idos de 1986, o hábito de incomodar o poeta pelo telefone, em busca de declarações que eram transformadas, no ar, em frases que exibiam a assinatura de Drummond. O poeta jamais se esquivou de fazer rápidos comentários. A uma pergunta sobre o que pensava de uma reunião de professores de países de língua portuguesa em Lisboa para discutir uma proposta de unificação ortográfica,Drummond – tido como um dos maiores poetas já produzidos pela língua portuguesa – deu uma resposta tipicamente drummondiana :

- “Considero-me um usuário, não o proprietário da língua. Não sou filólogo, não sou professor, não sou gramático. Sou um leigo em língua portuguesa”.

Tive a chance de entrevistar outro gigante da poesia brasileira,o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto,sobre a idiossincrasia telefônica de Drummond :

- “Era uma coisa engraçada: pessoalmente, ele falava menos” – constatava Cabral. “Mas tinha uma conversa longuíssima ao telefone. Quer dizer: quanto mais longe a pessoa, mais afetuoso ele era. Tenho a impressão de que ele não gostava era do contato físico”.



O telefone terminou se transformando no caminho das pedras para a obtenção daquela que seria uma das maiores entrevistas já concedidas por Drummond. Em julho de 1987, Drummond respondeu a setenta e seis perguntas que lhe fiz por telefone, em duas sessões. Transcrita,a gravação da entrevista rendeu cerca de duas mil linhas datilografadas. As palavras do urso polar ficam. Recolho um possível decálogo de nossa entrevista:



1. ”Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos – e eu já estarei no cemitério São João Batista – ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.

2. ”A solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está solitária, nunca está sozinha. Terá sempre uma companhia: a imensa companhia de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.

3. ”Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Por outro lado, não tendo tido nenhuma ambição literária, fui poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético”.

4. ”A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta pode também passar despercebido”.

5. ”Tive apenas o desejo de exprimir minhas emoções. Eu sentia necessidade de que eles se soltassem; era um problema mais de ordem psicológica do que de outra natureza”.

6. ”O jornalismo é uma forma de literatura. Eu, pelo menos, convivi – e mil escritores conviveram- com uma forma de jornalismo que me parece muito afeiçoada à criação literária: a crônica”.

7.”O que lamento é que as novas gerações já não tenham os estímulos intelectuais que havia até trinta ou quarenta anos passados.As pessoas que sabiam escrever a língua se destacavam na literatura e nas artes em geral.Hoje em dia,há escritores premiados que não conhecem a língua natal”.

8. ”Sou uma pessoa terrivelmente corajosa, porque não espero nada de coisa nenhuma”.

9. ”Considero-me agnóstico. Sou uma pessoa que não tem capacidade intelectual e competência para resolver o problema infinito que é se existe ou não existe uma divindade”.

10. ”Minha motivação foi esta : tentar resolver,através de versos,problemas existenciais internos.São problemas de angústia,incompreensão e inadaptação ao mundo”.



@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@


Permitam-me um pós escrito, em postagem tão longa:

É nesses grifos acima, e apenas neles, que me vejo um escritor
como o Drummond. Jamais na forma de escrever as
angústias, longe mim. Nisso Drummond é inimitável.
Mas isso que Drummond afirma como "poética de divã"
é o que chamo de lirismo. Nesses moldes, sou um poeta
profundamente lírico, apesar de me perpassarem os ecos
de tantas leituras feitas, nos livros e na vida.

Abraço fraterno.


(*) Geneton Moraes Neto é autor de “Dossiê Drummond” (Editora Globo), livro que traz a íntegra da entrevista de Carlos Drummond de Andrade, além de depoimentos de 45 personalidades brasileiras sobre o poeta.

Fonte do texto:
http://www.geneton.com.br/archives/000063.html
Posted by Geneton at abril 15, 2004 12:56 AM


Fonte da imagem:
Carlos na sua biblioteca

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Um comentário:

Ilaine disse...

Carlinhos, compadre!

Obrigada por tão gentil convite. Passar aqui no sítio é sempre um grande prazer. Sabes que gosto de olinda,claro Carlinhos. Só de pensar, já sinto o aroma das frutas, a brisa da maresia e o mar... O mar, Carlinhos, é de uma beleza indescritível por estas bandas. Ainda não me nasceram as palavras para expressar meu deslumbramento e afeição. Eta Brasil que eu amo! Agora, depois de tanto tempo, pergunto-me seguidamente como foi mesmo que tive coragem de largar isso tudo e me lançar a este mundo...

Mas, eu aqui não vim para chorar. Vim para "prosear à sombra de uma mangueira frondosa" sobre os versos de um grande poeta. E, como você, está com visita tão ilustre do compadre Eurico, somos três a filosofar. Acho que vou apenas ouvir.

Pois, que achado: Dossiê de Drummond, de Geneton Moraes Neto. Entre tantas revelações na entrevista, cito estas: fui poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Humildemente me identifico com estas palavras do CARLOS.

Parabéns pela postagem, Carlinhos.
E o churrasco, já está na brasa?

Saudades
Beijo