"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.
Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas.
Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.
Carnaval era meu, meu."

(Clarice Lispector )







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domingo, 17 de março de 2013

JORNADAS CARNAVALÍRICAS

Orquestra de Batutas de São José


 Créditos da imagem:




Estava eu no encontro de blocos Eu Quero é Mais, naquele fatídico 16/02/2013, dia em que o nosso músico Luquinhas Lyra foi baleado covardemente, na frente do Estádio do Náutico, (hoje, faz 30 dias, ele já saiu do coma e está em franca recuperação)... 

Bem... mas o que quero mesmo registrar é algo muito constrangedor que, infelizmente, meus pobres ouvidos foram obrigados a ouvir, no trajeto dos blocos líricos. Estávamos na Prudente de Morais, uma das famosas ladeiras de Olinda, quando cruzamos com o afamado Bloco Batutas de São José, do inolvidável Maestro João Santiago, que, no início do século XX, compôs Sabe lá o que é isso, a mais gostosa marcha de blocos do nosso carnaval:

“...sem você, meu amor,
Não há carnaval...
Vamos cair no passo
E a vida gozar!”

Pois bem, eu, folião de carteirinha e fã do Batutas, fiz a tradicional saudação:

Não deixem morrer Batutas!  

E, logo em seguida, escuto uma bela e firme voz feminina gritar, bem atrás de mim:

Já morreu faz tempo!

Voltei os olhos, curioso, e vi uma bela pierrete, portando um belíssimo flabelo, à frente de um bando de outras pierretes, lindamente trajadas. Era flabelista, a moça de cuja boca de carmim eu ouvi aquela verdadeira blasfêmia contra o bloco Batutas de São José, deca-campeão dos carnavais na década de 1960. 

Ah, a década de 60...
Batutas, por essa época, dominava o carnaval, seguido pelos Banhistas do Pina, outro grande campeão e por outras belíssimas agremiações, que eram a alegria dos amantes dos blocos líricos, como eu.

Não,senhorita! Não morreu, o grande Batutas. Jamais morrerá!  
Ele está na nossa alma, no sangue dos pernambucanos e foliões de todas as partes. 

E é por isso que lutamos, nós compositores dos blocos anônimos, os que têm pouca mídia e, portanto, pouca ajuda da Prefeitura. Lutamos pela preservação dos blocos mais humildes, que já foram a fina flor desse carnaval lírico.
Dia desses, vi Pirilampos de Tejipió, que evoluía, humildemente, no Pólo da Várzea. Meu coração ficou apertado ao ver o sofrível aspecto daquele bloco afamado, que foi o xodó do grande Guilherme de Araújo, e que sempre fez bonito nos carnavais de outrora. Não é à toa que nos versos de um dos mais belos frevos de bloco de todos os tempos, cita-se Guilherme e o seu Pirilampos:

“Felinto, Pedro Salgado, Guilherme, Fenelon,
Cadê teus blocos famosos?
Bloco das Flores, Andaluzas, Pirilampos, Apois Fum
Dos carnavais saudosos?”

Pois é, moça, é por eles que lutamos bravamente, que resistimos contra os insensíveis gestores da coisa pública, com honrosas exceções, que nada sabem dos bastidores de luta, dos sacrifícios que se fazem para botar um bloco na rua. E aqui louvamos a resistência dessa nova geração, que gosta do lirismo desses blocos antigos. Por isso, repito:

Não,senhorita! Não morreu, o grande Batutas. Jamais morrerá!  

Para concluir, tenho uma auspiciosa notícia: 

Descobri, em andanças pelo meu querido bairro da Várzea, que os blocos sem mídia estão articulando encontros na periferia da cidade, verdadeiras jornadas carnavalescas, em que seus cordões de pastorinhas, suas orquestras dedilhadas em cordas e palhetas, seus seresteiros e poetas estarão empunhando o flabelo da resistência popular pela nossa cultura. Exultemos! Um grupo solidário de foliões está conspirando em prol da alegria! 

Ainda ontem, à sombra de um frondoso jambeiro varzeano, centenário como tudo naquele arrabalde, ouvi palavras alvissareiras de uma das flores do Capibaribe, (que, por hora, não direi o nome, mas quem é de bloco lírico, sabe bem de quem falo). Trouxe-me, aquela flor, palavras inteligentes e decididas, que alegraram e muito o meu coração carnavalesco. É que nós, os blocos enraizados nos subúrbios do Recife e cidades do entorno, a partir de junho, talvez antes, estaremos trocando visitas uns aos outros, em festivas caminhadas líricas, pelas ruas dos nossos bairros, subvertendo, com alegria, o descaso dos nossos gestores, e produzindo cultura pelos nossos próprios meios, mesmo sem mídia, sem subvenção, que isso nunca foi obstáculo para os verdadeiros foliões.

Avante, seresteiros, avante, pastorinhas! O verdadeiro carnaval lírico está de volta aos lugares de onde saiu: os subúrbios históricos do Recife.  
Salve a periferia, salve os blocos líricos, salve o movimento de cultura popular, que nunca morreu, nem nunca morrerá. 

Batutas tem um passado de lutas.
Salve Batutas, Batutas vai vencer!

Finalmente, e por sabermos que os blocos nasceram também do ciclo natalino, oriundos das jornadas dos ranchos e pastoris, que se estendiam do dia dos Reis até o carnaval (vide Prof.  Júlio Vila Nova) sugiro o nome de Jornadas Carnavalíricas, para esses encontros e caminhadas suburbanas dos nossos alegres bandos, que ora  anunciam essa tomada de atitude pelo lirismo do carnaval dos subúrbios.

Luiz Eurico de Melo Neto
(um registro para a história)





sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

FREVO D'OLINDA

Maestro Forró e Orquestra Popular da Bom ba do Hemetério



Requintas em mi bemol;
cinco clarinetas em si bemol;
dois saxofones-altos em mi bemol;
dois saxofones-tenor em si bemol;
sete trompetes em si bemol;
dez trompetes em dó;
dois tubas em mi bemol;
tuba em si bemol;
bombardino em dó;
caixa-clara;
caixa-surda,
pandeiro;
reco-reco,
ganzá...

Tudo isso em movimento,
dedos ágeis em colcheias, semicolcheias,
em fusas e semifusas,
vida-que-pulsa,
pulsa-que-pulsa
:
Frevo!
:
Frevo-de-rua, ou, rasgado,
gente que dança-que-dança,
que se empurra, que se lança, volta e avança.

Frevo-de-abafo (chamado frevo-de-encontro)
notas longas e pesadas, tocadas pelos metais,
para abafar os rivais;

Frevo-coqueiro,
variante do primeiro,
em notas curtas e agudas, bem no alto do pentagrama;

Lindo, o frevo-ventania!
palhetas sopram mil sons,
entre o grave e o agudo;

Frevo-de-bloco...
Ah, Saudade,
Batutas de São José,
Madeiras e Pirilampos...
O banjo-tenor do Narciso,
do mestre Lula da Várzea,
as flautas, violões, clarinetas da Escola João Pernambuco.

A marcha dos blocos líricos:

Um flamboyant debruçado sobre o rio
e as pastorinhas, felizes, sob um céu de anil...

E eu... lírico:

Eu... e você, minha flor,
Flor do meu Capibaribe,

"sem você, meu amor,
não há carnaval"

Vamos cair no passo e na vida!


***
Pesquisa sobre orquestras de frevo:

Fonte da imagem:




MÁRIO DE ANDRADE: O FREVO

“A vibração paroxística do frevo é realmente uma coisa assombrosa. É, enfim, um verdadeiro allegro num presto nacional. É, sem dúvida, o entusiasmo, a ardência orgíaca, mais dionisíaca de nossa música nacional. E aquele rapaz que dançou! Mas será possível que uma coreografia, assim, ainda se conserve ignorada dos nossos teatros e bailarinos? Que beleza! Que leveza admirável! É uma fonte riquíssima. É um verdadeiro título de glória, que o país ignora, simplesmente porque entre nós ainda são muito raros os que têm verdadeira convicção de cultura”. (MÁRIO DE ANDRADE)




Taí, Mário, o FREVO que tu que tu querias:


Performance realizada durante Congresso Internacional de Dança Brasileira - Rio - 2006 
por Uyra Mangueira
Professor e Passista de Frevo
Brasilia-Brasil


Frevo: Canjiquinha
Composição de Lourival de Oliveira,
Arranjo e interpretação de Antônio Nóbrega (em seu CD Lunário Perpétuo)






sexta-feira, 30 de julho de 2010

“Eu Sou Eu e Minhas Circunstâncias”





"De manhãzinha, passo pela minúscula oficina do chaveiro. A porta da oficina mal passa de um metro de largura... rosto sério, lá está ele, o dono da oficina - magro, bigode grosso, camisa para fora da calça jeans bastante surrada. Antes que apareça o primeiro cliente, ele varre o trecho de calçada subentendido pela estreita porta da oficina. E varre meticulosamente, escarafuncha com a vassoura piaçaba as gretas da calçada, e até olha em volta para ver se restou algum cisco.
Varre com o respeito que teria pela sala da sua casa... afinal, é dali, dessa absurda mesmice, que ele tira o pão de cada dia. Não é muito o ganho que entra por aquela porta estreita, mas, é uma vitória conquistada a cada dia... e sem suar o rosto: ele se amolda ao que faz!

Depois, guarda a vassoura num cantinho, e recolhe-se atrás da bancada, a fazer chaves, o dia inteiro... À tarde, vejo-o baixar a porta de ferro da oficina, com todo o cuidado. Dia seguinte, novamente varre a caçada... No circo da vida, ele trilha um círculo do mesmo diâmetro, sempre e sempre... Quem tem como ofício abrir portas, talvez tenha se habituado a não abrir certas portas em si mesmo; dúvidas não ajudam a quem vive da mão para a boca! Ele é a própria reafirmação de que o sujeito é o sujeito inteiro - ele é ele e as suas circunstancias. Eu, ele e as demais pessoas do verbo também - a vida é essa planura aborrecida..."


[Penas do Desterro, 07 de novembro de 2009]
Postado por Carlos Rodolfo Stopa às 12:30 PM

Fonte do texto:
http://mundareus.blogspot.com/2009/11/eu-sou-eu-e-minhas-circunstancias.html

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NOTA DO BLOGUEIRO:
(em atenção ao amigo Éverton Vidal, do blog Re-novidades)

Por duas vezes o amigo Éverton me disse da sua intenção de ler Ortega y Gasset. Esse é o motivo da transcrição da postagem acima: Prosear acerca de Ortega, aqui neste agradável Sítio, em que, vez ou outra, colaboro com meu compadre Carlinhos.
Do que diz o Carlos Stopa, não concordo apenas com a frase final. Embora o texto seja primoroso. O autor afirma que a vida é "uma planura aborrecida" (sic). A vida pode ser plana ou montanhosa, mas a vida é sempre que-fazer, ou seja, a vida, a tua, a nossa vida (a biográfica e não a biológica) não nos é dada pronta, mas é o mote, no qual faremos a glosa de nossa existência. O sentido aborrecido ou não desta 'planura', cabe a nós realizar. (E isso já é pensamento orteguiano...)
Mas antes que me estenda, explico ao Éverton o que trouxe até aqui o texto do Stopa. É que o título dessa postagem é a condensação da filosofia orteguiana. A frase, no entanto, está incompleta. Ortega afirma que " eu sou eu e minhas circunstâncias, e se não salvo a elas não me salvo a mim". O chaveiro da crônica do Stopa está imerso em sua vida, executando-a, e só a ele cabe adjetivá-la, dar-lhe um sentido. Para isso, precisa "saber a que se ater". Isso é o que faz a filosofia de Ortega. Aliás, isso é o que faz toda filosofia digna do nome. O cronista, embora talentoso na forma, apontou apenas parte da visão orteguiana do binômio "eu & minhas circunstâncias", mas só parte. É isso o que quero salientar nessa nota de blogueiro.
Pois bem: inicio, a partir desta, uma série de postagens sobre a filosofia de Ortega y Gasset, que ando relendo, e que, em verdade, dá suporte a muita coisa do que escrevo em prosa ou poesia. Orteguianamente, busco saber a que me ater. Ou seja, vivo. Viver já é filosofar.

Grato pelo espaço, compadre.

Luiz Eurico de Melo Neto

Fonte da imagem:
quiosque do chaveiro

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Resenha Poética nº 3 (Por que Niezsche chorou abraçado a um cavalo?)







A postagem original é do blogue do Cláudio Alex FAgundes, mas caiu como uma fruta madura (por que seria caiu como uma luva?) para comentar o Atropelamento, poema lá do Eu-lírico. Leiam e saibam porquê:

Coloco esse pequeno trecho aqui, porque estou pleno de empatia com Nietzche hoje. A cena é uma descrição perfeita de Kundera extraída de "A Insustentável Leveza do Ser".

"Uma vitela-novilha aproxima-se de Tereza, estaca ao pé dela e fica a observá-la demoradamente com os seus grandes olhos castanhos. Tereza conhece-a bem. Chama-lhe Margarida. Gostava de ter batizado todas as vitelas, mas não conseguiu. Não havia nomes que chegassem. Há trinta anos, pelo menos, com certeza que ainda era assim, com certeza que todas as vacas da aldeia tinham nome. (E se o nome é sinal da alma, pode bem dizer-se, custe o que custar a Descartes, que as vacas tinham alma.) Mas, depois, a aldeia tornou-se uma fábrica cooperativa e as vacas nunca mais saíram, durante toda a vida, dos seus dois metros quadrados de estábulo. Deixaram de ter alma e passaram a não ser mais do que — machinae animatae —. O mundo deu razão a Descartes. Ainda tenho nos olhos a imagem de Tereza sentada num tronco, a afagar a cabeça de Karenine e a meditar no fracasso da humanidade.
Ao mesmo tempo, aparece-me outra imagem: a de Nietzsche a sair de um hotel de Turim. Vê um cocheiro a vergastar um cavalo. Chega-se ao pé do cavalo e, sob o olhar do cocheiro, abraça-se à sua cabeça e desata a chorar. A cena passava-se em 1889 e Nietzsche, também ele, já se encontrava muito longe dos homens. Ou, por outras palavras, foi precisamente nesse momento que a sua doença mental se declarou. Mas, na minha opinião, é justamente isso que reveste o seu gesto de um profundo significado. Nietzsche foi pedir perdão por Descartes ao cavalo. A sua loucura (e portanto o seu divórcio da humanidade) começa no instante em que se põe a chorar abraçado ao cavalo.
E é desse Nietzsche que eu gosto, tal como gosto da Tereza que tem ao colo a cabeça de um cão mortalmente doente e que a afaga. Ponho-os um ao lado do outro: tanto um como o outro se afastam da estrada em que a humanidade, — dona e senhora da natureza —, prossegue a sua marcha sempre em frente."




Fonte do texto:
Autor: Cláudio Fagundes
http://claudioalex.multiply.com/journal/item/778

Cláudio Fagundes


Fonte da imagem:
Cavalo chicoteado

sábado, 18 de julho de 2009

Decálogo de um Urso Polar: Drummond





Prezado compadre Carlinhos, peço licença para postar em teu Sítio, posto que o Eu-lírico está, doravante, terminantemente vedado à prosa. O que me traz aqui é uma angústia, uma aflição repentina, de que fui acometido por esses dias. Lendo os mais premiados escritores de nosso tempo, cá no Brasil, percebi que o que escrevo não está em sintonia com nada, nem com ninguém: meus contos são longos e cheios de ilações filosóficas, meus poemas tem temáticas estranhas e alienadas, e o meu romance, interminaaaável, não passa de uma colcha de retalhos, ou de elementos de uma gestalt jamais fechada. Antes de entrar em crise, fui ver o que pensavam meus gurus. Com eles é que aprendo sempre. Pois, como se sabe, não há faculdade de escritores, né mesmo? Disso já falamos aqui. Pois bem, fui pesquisar o que dizia do ofício poético, da escrita mesmo, o, tão tímido mas tão vigoroso com as idéias, Carlos Drummond de Andrade. E o Google me revelou essa santa entrevista por telefone, colhida pelo Geneton Moraes Neto, que aqui transcrevo (ou seja, copio e colo, com grifos meus, rsrsrs). Com isso apaziguou-se, ou quase isso, em minha alma, essa sensação de escrever meio "naïf", meio sem teoria, sem conhecimento da norma culta da língua. A sensação de escrever por catarse, para curar meus medos, tendo como embasamento teórico, só, e tão sómente só, o lirismo que trago desde adolescente. Mas, leiamos o Mestre:



CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: "O JORNALISMO É UMA FORMA DE LITERATURA"


Atenção, pesquisadores de curiosidades zoológico-poéticas: o apartamento 701 do prédio número 60 da Rua Conselheiro Lafayette, em Copacabana, era palco diário de uma cena esquisita. Lá, um urso polar adorava falar ao telefone.
O auto-intitulado “urso polar” chamava-se Carlos Drummond de Andrade. Desde que virou uma quase unanimidade nacional, Drummond ergueu em torno de si uma couraça para se proteger das investidas do mundo exterior. Era o exemplo acabado do mineiro arredio. Usava uma suposta timidez – desmentida por amigos íntimos – para manter longe de si, na medida do possível, as inconveniências da celebridade, descritas nos versos amargos do poema “Apelo a Meus Dessemelhantes em Favor da Paz”:


“Ah, não me tragam originais
para ler, para corrigir, para louvar
sobretudo, para louvar (...)

Respeitem a fera. Triste, sem presas, é fera(...)


Vocês, garotos de colégio, não perguntem ao poeta
quando nasceu.
Ele não nasceu.
Não vai nascer mais.
Desistiu de nascer quando viu que o esperavam garotos de colégio de lápis em punho
com professores na retaguarda comandando :

Cacem o urso polar,
tragam-no vivo para fazer uma conferência (...).



Durante décadas, Drummond fugiu dos pedidos de entrevista. Preferia repetir a resposta-padrão: tudo o que tinha a dizer estava em seus poemas e crônicas. Mas mantinha um flanco aberto: o telefone. Amigos chegaram a definir Drummond como um “ser telefônico”. Ziraldo escreveu que Drummond era “ao telefone, um derramado, com uma voz entre rouca e afunilada, meio tênue e fina, com a respiração difícil como quem tem desvio de septo”.
O “urso polar” cultivava esta pequena esquisitice: sempre que podia, fugia do contato pessoal, mas se mostrava surpreendentemente acessível às investidas telefônicas de intrusos como, por exemplo, este locutor-que-vos fala.
Um dos editores do Jornal da Globo, cultivei, pelos idos de 1986, o hábito de incomodar o poeta pelo telefone, em busca de declarações que eram transformadas, no ar, em frases que exibiam a assinatura de Drummond. O poeta jamais se esquivou de fazer rápidos comentários. A uma pergunta sobre o que pensava de uma reunião de professores de países de língua portuguesa em Lisboa para discutir uma proposta de unificação ortográfica,Drummond – tido como um dos maiores poetas já produzidos pela língua portuguesa – deu uma resposta tipicamente drummondiana :

- “Considero-me um usuário, não o proprietário da língua. Não sou filólogo, não sou professor, não sou gramático. Sou um leigo em língua portuguesa”.

Tive a chance de entrevistar outro gigante da poesia brasileira,o poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto,sobre a idiossincrasia telefônica de Drummond :

- “Era uma coisa engraçada: pessoalmente, ele falava menos” – constatava Cabral. “Mas tinha uma conversa longuíssima ao telefone. Quer dizer: quanto mais longe a pessoa, mais afetuoso ele era. Tenho a impressão de que ele não gostava era do contato físico”.



O telefone terminou se transformando no caminho das pedras para a obtenção daquela que seria uma das maiores entrevistas já concedidas por Drummond. Em julho de 1987, Drummond respondeu a setenta e seis perguntas que lhe fiz por telefone, em duas sessões. Transcrita,a gravação da entrevista rendeu cerca de duas mil linhas datilografadas. As palavras do urso polar ficam. Recolho um possível decálogo de nossa entrevista:



1. ”Não tenho a menor pretensão de ser eterno. Pelo contrário: tenho a impressão de que daqui a vinte anos – e eu já estarei no cemitério São João Batista – ninguém vai falar de mim, graças a Deus. O que eu quero é paz”.

2. ”A solidão em si é muito relativa. Uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de música, uma pessoa que gosta de ler nunca está solitária, nunca está sozinha. Terá sempre uma companhia: a imensa companhia de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”.

3. ”Não fiz nada organizado. Não tive um projeto de vida literária. As coisas foram acontecendo ao sabor da inspiração e do acaso. Não houve nenhuma programação. Por outro lado, não tendo tido nenhuma ambição literária, fui poeta pelo desejo e pela necessidade de exprimir sensações e emoções que me perturbavam o espírito e me causavam angústia. Fiz da minha poesia um sofá de analista. É esta a minha definição do meu fazer poético”.

4. ”A popularidade nada tem a ver com a poesia. A popularidade pode acontecer. Mas um grande poeta pode também passar despercebido”.

5. ”Tive apenas o desejo de exprimir minhas emoções. Eu sentia necessidade de que eles se soltassem; era um problema mais de ordem psicológica do que de outra natureza”.

6. ”O jornalismo é uma forma de literatura. Eu, pelo menos, convivi – e mil escritores conviveram- com uma forma de jornalismo que me parece muito afeiçoada à criação literária: a crônica”.

7.”O que lamento é que as novas gerações já não tenham os estímulos intelectuais que havia até trinta ou quarenta anos passados.As pessoas que sabiam escrever a língua se destacavam na literatura e nas artes em geral.Hoje em dia,há escritores premiados que não conhecem a língua natal”.

8. ”Sou uma pessoa terrivelmente corajosa, porque não espero nada de coisa nenhuma”.

9. ”Considero-me agnóstico. Sou uma pessoa que não tem capacidade intelectual e competência para resolver o problema infinito que é se existe ou não existe uma divindade”.

10. ”Minha motivação foi esta : tentar resolver,através de versos,problemas existenciais internos.São problemas de angústia,incompreensão e inadaptação ao mundo”.



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Permitam-me um pós escrito, em postagem tão longa:

É nesses grifos acima, e apenas neles, que me vejo um escritor
como o Drummond. Jamais na forma de escrever as
angústias, longe mim. Nisso Drummond é inimitável.
Mas isso que Drummond afirma como "poética de divã"
é o que chamo de lirismo. Nesses moldes, sou um poeta
profundamente lírico, apesar de me perpassarem os ecos
de tantas leituras feitas, nos livros e na vida.

Abraço fraterno.


(*) Geneton Moraes Neto é autor de “Dossiê Drummond” (Editora Globo), livro que traz a íntegra da entrevista de Carlos Drummond de Andrade, além de depoimentos de 45 personalidades brasileiras sobre o poeta.

Fonte do texto:
http://www.geneton.com.br/archives/000063.html
Posted by Geneton at abril 15, 2004 12:56 AM


Fonte da imagem:
Carlos na sua biblioteca

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