"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.
Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas.
Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.
Carnaval era meu, meu."

(Clarice Lispector )







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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Brincantes II

O Cavalo Marinho é uma dança cheia de detalhes (cheia de melindres), porém bem menos popular que o maracatu.
Ao longo dos anos tem sido perceptivel que o ‘desaparecendo’ Cavalo Marinho (assim como o Pastoril).



As apresentaçãos estão se tornando cada vez mais raras. Algumas escolas procuram manter a tradição do Ciclo Natalino e fazem apresentações destes Brincantes nas festas de final de ano, o que é ótimo para a cultura popular pernambucana e para nossas crianças que cada dia que passa se distanciam do popular e se tornam mais próximas da modernidade (computador, video games, cariinhos de controle remoto...).

Mas não é apenas por estar ‘fora da moda’ que o cavalo-marinho tem mais dificuldades em se manter. Algumas características do folguedo também interferem nisso: a ‘orquestra’ apesar de não precisar de muitos músicos utiliza instrumentos como a rabeca, ganzá, pandeiro e reco-reco que são instrumentos que não chamam tanto a atenção dos jovens como os bombos, tarol, alfaia e outros instrumentos de percussão.

Outro fator que influencia também é a época ou ciclo que acontecem as apresentações, de julho ao Dia de Reis (principalmente na época do Natal), enquanto os maracatus são apresentados o ano inteiro.

Sem falar que a dança exige muito das pessoas, já que, é bem diferente do maracatu. No Cavalo Marinho os passos são rasteiros para levantar poeira e intercalados com saltos rápidos e vigorosos. As sambadas varam a noite, uma apresentação completa dura nada menos que oito horas, sem intervalos. A apresentação é intercalada com a participação do público e de todos os participantes e a entrada dos personagens. Geralmente, 21 componentes são o suficiente para encarnar todos os personagens.



O Cavalo Marinho, como o Bumba-meu-boi, é uma aglutinação dos Reisados. Ao longo do espetáculo são agrupados cantos, loas, personagens e parte do Boi de Reis. É um verdadeiro auto popular que fala da vida passada e presente do povo. Uma tradição popular que vem se mantendo viva, principalmente durante o ciclo natalino. Não há como ficar indiferente à apresentação desta brincadeira de origem portuguesa e que fincou suas raízes nos costumes do povo da Zona Norte de Pernambuco. Tudo nos leva a achar maravilhoso esta manifestação do folclore pernambucano, desde a música com o seu som característico produzida pelos tocadores da rabeca, pandeiro, ganzá e reco-reco, que se parece muito com as toadas árabes. Os seus divertidos diálogos, suas danças parecem fazer parte de uma espécie de Teatro Mágico.

A história do Cavalo Marinho basicamente é a seguinte: os personagens Mateus e Bastião, que participam do início ao fim da brincadeira, são dois negros amigos, que dividem a mesma mulher, a Catirina, e estão à procura de emprego. Eles são contratados para tomar conta da festa. O espetáculo é costurado ou coordenado pelo Capitão, de quem se origina o nome do folguedo. O nome do capitão é Marinho e ele chega montado em seu cavalo, daí a história dá seu prosseguimento até o momento final, quando o boi é dividido entre os participantes numa grande farra. Ao todo são 76 personagens (humanos e animais), representados em 63 atos.

O espetáculo tem início quando os toadeiros tomam assento no "banco" (orquestra) e saúdam os donos do terreiro e o público. Os primeiros personagens a surgir são Bastião e Mateus, após eles, começa uma sucessão de personagens que vão se apresentando perante o público, que também participa dos diálogos e brincadeiras.

Entre os personagens ou figuras mais participativas do Cavalo Marinho estão os galantes e damas (que representam a elite que vem abrilhantar a festa), o Capitão (dono da terra ou chefe político da área), o Soldado (elemento opressor a serviço do poder), o Caboclo de Arubá ( entidade sobrenatural que canta todas as linhas de Jurema) e o Boi (presença constante na vida do homem do campo). São 6 os galantes e duas as damas.

Antigamente, como só homens dançavam o folguedo, eles se travestiam para representar estes personagens, hoje as mulheres conquistaram espaço tanto na brincadeira como na orquestra. As roupas são enfeitadas com fitas e espelhos e os chapéus têm abas horizontais adornadas com pingentes dourados.

O Capitão ou Mestre é o empresário do folguedo. Usando um apito ele marca o ritmo da música, ordena o início e o término da atuação dos figurantes. Em algumas partes da brincadeira conduz a armação em forma de cavalo e ostenta dragonas no ombro. O Soldado, apesar de usar boné caracterizando um militar, tem no seu traje uma mistura de farda com roupa civil.O Caboclo de Arubá usa calça comum, sem camisa, cocar de pena e óculos escuros. Já o boi é uma armação de tábua ou bambu coberto de tecido pintado com uma caveira de boi no lugar da cabeça que é revestida de papel e os seus chifres são adornados com fitas multicoloridas.

Outros personagens, não menos importantes, surgem no decorrer da brincadeira, contribuindo para o desenrolar do enredo, pontuado pelas toadas cantadas pelos ocupantes dos bancos. Cada integrante, interpreta três ou quatro personagens já que o total de figuras é de 76.
Nos versos que surgem no correr da brincadeira, foi incorporado um palavreado típico do homem da região. Expressões como REAR (ir embora), VAGEM ( lugar onde o boi é amarrado para comer), BARRER (varrer) e SAMBADA (festa, dança). O aspecto religioso está sempre presente no folguedo, no qual são feitas diversas saudações aos Santos e a Deus. O Real, o Fantástico e o Imaginário estão presentes em todo o espetáculo do Cavalo Marinho.


Bem, acho que por isso eu só conhecia a 1ª cena. Não fazia idéia que era assim, tão cheio de detalhes...





CENA I(O Cavalo marinho a dançar e o Coro)

Coro:

Cavalo-marinho
Vem se apresentar,
A pedir licença
Para dançar.
Cavalo-marinho,
Por tua atenção
Faz uma mesura
A seu capitão.
Cavala-marinho
Dança muito bem;
Pode-se chamar
Maricas meu bem.
Cavalo-marinho
Dança bem baiano;
Bem parece ser
Um pernambucano.
Cavalo-marinho
Vai para a escola
Aprender a ler
E a tocar viola.
Cavalo-marinho
Sabe conviver;
Dança o teu balanço
Que eu quero ver.
Cavalo-marinho,
Dança no terreiro;
Que o dono da casa
Tem muito dinheiro.
Cavalo marinho,
Dança na calçada;
Que o dono da casa
Tem galinha assada.
Cavalo-marinho,
Você já dançou:
Mas porém lá vai,
Tome que eu lhe dou.
Cavalo-marinho,
Vamo-nos embora;
Faze uma mesura
Á tua senhora.
Cavalo-marinho,
Por tua mercê,
Manda vir o boi
Para o povo ver.









Nota da autora:
Hahahaha...

Estou sintonizada com a arte (digo isso porque o post de hoje não seria sobre Cavalo Marinho, o post sobre Cavalo Marinho seria o 3º)...

E ao ler o jornal vi um anuncio sobre a ‘Conexão Cavalo Marinho’.

É um evento que vai tem inicio em 18/12 e encerra no dia 21/12. São 8 grupos de Cavalo Marinho, 6 espetáculos de dança e teatro. As apresentações acontecerão no Teatro Hermilo Borba Filho, às 20h. A entrada é franca e as senhas começam a ser distribuídas às 19h.
o mais legal é que entre os grupos que se apresentarão tem um grupo de Olinda, o Cavalo MArinho Boi Matuto, que se apresenta no primeiro dia do evento.
Maiores informações é só clicar na imagem abaixo:

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Brincantes I

O Natal está chegando, é hora de falar sobre os Brincantes Natalinos.

E hoje começo uma serie de posts falando sobre os
brincantes natalinos: Pastoril, Cavalo-Marinho, Bumba-Meu-Boi, Reisado, Fandango, Queima da Lapinha.

O mais conhecido em Recife e Olinda é o Pastoril, mas atualmente não é mais tão comum ver apresentações, cada vez mais raras, mas as escolas e prefeituras ainda tentam resgatar a tradição natalina.

Existem dois tipos de Pastoril, o Religioso e o Profano
(confesso que conheci primeiro o profano).

O Pastoril é um folguedo popular dramático de origem européia, representado entre o Natal e a Festa de Reis (05 de janeiro), em vários Estados do Nordeste brasileiro. São cordões com diversos personagens, entre as quais as pastoras ou pastorinhas, que cantam e tocam maracá. De origem religiosa, também é denominado Presépio.

Segundo Pereira da Costa, o uso de Presépios em Portugal teve início no Convento das Freiras do Salvador, em Lisboa, em 1391, levantando-se no meio do templo uma armação representando o Estábulo de Belém, com figuras que representavam a cena do nascimento de Jesus.

Depois, já no século XVI, foi o assunto dramatizado, teve entrada no teatro e é talvez daí que vem o auto hierático português, de tão variados assuntos.

No seu Dicionário do Folclore Brasileiro, Luís da Câmara Cascudo assim define o Pastoril: cantos, louvações, loas, entoadas diante do presépio na noite do Natal, aguardando-se a missa da meia-noite. Representavam a visita dos pastores ao estábulo de Belém, ofertas, louvores, pedidos de bênção.

Os grupos que cantavam vestiam de pastores, e ocorria a presença de elementos para uma nota de comicidade, o velho, o vilão, o saloio, o soldado, o marujo, etc. Os pastoris foram evoluindo para os autos, pequeninas peças de sentido apologético, com enredo próprio, divididos em episódios que tomavam a denominação quinhentista de "jornadas" e ainda a mantêm no Nordeste do Brasil.

No Brasil e mais precisamente em Pernambuco, segundo Pereira da Costa, o aparecimento do presépio vem, talvez, dos fins do século XVI, no Convento dos Franciscanos em Olinda, por iniciativa de Frei Gaspar de Santo Antônio, primeiro religioso a receber hábito no Brasil. Já Fernão Cardim, o Jesuíta, nos dá uma indicação em que talvez possamos detectar as origens do Pastoril brasileiro, por conta de uma representação em 1584, no dia 5 de janeiro ou no dia dos Reis, como consta num documento, também citado por Mário de Andrade em Danças Dramáticas do Brasil - 1º Tomo: "Debaixo da ramada se representou pelos índios um diálogo pastoril, em língua brasílica, portuguesa e castelhana, e têm eles muita graça em falar línguas peregrinas, maximé a castelhana. Houve boa música de vozes, flauta, danças, e dali em procissão fomos até a igreja com várias invenções".


O PASTORIL EM PERNAMBUCO

É curioso observar que nos séculos XVII e XVIII, os estudiosos não encontram referências importantes sobre o pastoril na Colônia, mas já no século XIX, concordam que houve abundância dos bailes pastoris, principalmente no Nordeste e notadamente, em Pernambuco e na Bahia, com publicações de textos, a exemplo de Sylvio Romero e Pereira da Costa.Para Mário de Andrade, é curioso observar que essa dança dramática não teve uma repercussão nacional (apenas no período oitocentista o pastoril teve seu brilho e apogeu), diferente dos presépios que se tornaram tradição em todo o país, talvez, como ele afirma, por ser um fenômeno de imposição burguesa. Assim no Recife e nas outras cidades do Nordeste, em frente aos presépios ou lapinhas, as pastoras cantavam loas, tornando o presépio não só forma animada, mas dramática, ao lado da representação estática da Natividade. Fica evidente que a dramatização do tema permitia uma fácil compreensão em torno do episódio do nascimento do Cristo. Desta forma, a cena tomava vida, com a introdução de recursos visuais e sonoros. Para Hermilo Borba Filho, essa dramatização traz a influência do auto sacramental espanhol, na sua forma literária.


PROFANO- RELIGIOSO

Ao enveredar por outros caminhos, o Auto Pastoril transforma-se em sincretismo profano-religioso, tornando-se, muitas vezes, em profano, com suas características que ressaltam a licenciosidade do Velho do Pastoril e a sensualidade das Pastoras.

No Recife, por volta de 1840, começaram a aparecer sociedades com o fim de dirigir com solenidade, brilhantismo e decência o natalício do Messias, por meio de representações teatrais, tais como a Sociedade Natalense e a Sociedade Nova Pastoril, conforme registra Pereira da Costa. Com a formação dessas sociedades, os pastoris passaram a ter uma forma literária, de modo que transformavam-se em espetáculos, contando com poetas, escritores e artistas que criavam letras e músicas. Dentre tantos que contribuíram nesse período, há que se destacar os irmãos Valença - João e Raul que apresentavam, quase todos os anos, um Presépio, assemelhado com os autos hieráticos oitocentistas. Ascenso Ferreira revela que, no Recife, o avô de João e Raul Valença encenou, pela primeira vez, um Presépio em 1865, no auge da Guerra do Paraguai. A tradição foi mantida até 1900 pelo pai dos dois irmãos compositores já citados, que após alguns anos de interrupção, assumiram a volta ao tablado do Presépio, no Sítio Valença, localizado entre a Madalena e o Zumbi, com as mesmas características de auto sacramental. Os personagens utilizados pelos irmãos Valença eram: Culpa, Libertina, Religião, Graça, Gabriel, Pastoras, Lusbel, Mestra, Diana, Contra-mestra, Eva, Argemiro, Monge, Flora, Herodes, Centurião e Cingo.

Fica claro também que, enquanto as sociedades tentavam manter um controle moral e religioso, evitando enxertos de cenas burlescas e licenciosas, os Pastoris ditos profanos abundavam nas pontas de ruas, alterados em suas formas originais, contando com a participação dos espectadores na animação das cenas, fugindo do enredo e da temática e, como diziam os mais arredios, irreverentes, licenciosos e imorais.

Os esforços das sociedades para manterem a seriedade do ato sagrado que se pretendia reproduzir, repercutia também na imprensa: os jornais da época censuravam o ar indecente de que se revestiam certos presépios, com opiniões que indicavam que a Polícia devia impedir as apresentações, no zelo pela moral pública e pelos bons costumes. Há registros, de 1840, dessas denúncias, por exemplo, no jornal O Carapuceiro, do Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama, conhecido como o Padre Carapuceiro e por suas críticas de costumes na primeira metade do século XIX.

É certo que o Pastoril teve seu grande momento nos primeiros vinte e cinco anos desse século, sendo representado por iniciativa de leigos, mas sem perder sua ligação com festas religiosas, principalmente, como já foi dito, do Ciclo Natalino. Por outro lado, os Presépios sempre foram encenados por jovens e meninas de família, que paramentadas de pastoras angariavam prendas, como flores, bolos, perfumes, frutas, que se transformavam em prêmios dos leilões realizados em benefícios de instituições religiosas ou obras de caridade.A partir de então os pastoris se espalharam pelos bairros atraindo sempre um público certo e participativo e, evidentemente que, com mais licenciosidade, atraíam os homens. Dentro da estrutura do auto, as pastoras com seus pandeiros ou maracás, cantam e dançam ao som da orquestra de pau e corda mas sua formação dependia dos recursos financeiros do grupo. Algumas traziam pistão, trombone, clarinete, bombo. Outras se apresentavam com violões, cavaquinhos, com um instrumento de sopro solista.

No meio dos dois cordões, cada um comandado pela Mestra (cordão azul) e Contramestra (cordão encarnado), encontramos a Diana, vestida metade azul, metade encarnado. O Velho, conhecido como Bedegueba, mas que toma diversos apelidos é uma espécie de bufão, de palhaço de circo, que comanda as jornadas (cantos das pastoras) e se esparrama em piadas, numa atuação que ressalta o histrionismo, a improvisação. Seus diálogos com as pastoras são cheios de duplo sentido e, com o público, puxa discussão, brincadeiras, faz trejeitos e canta canções adaptadas às suas necessidades. Dentre os outros personagens do pastoril profano, também desfilavam o Anjo a Estrela do Norte, o Cruzeiro do Sul, a Cigana, além de outras figuras que aparecem ocasionalmente por influência do local, da região.Hoje o pastoril perdeu em sentido hierático e lírico, mas transformou-se num gênero popular de representação, diferenciado e que atingiu sua própria forma. Não é questão de involução, mas de interferência dos artistas populares que com os seus espíritos inquietos e brincantes conduzem esses folguedos.


"Nós somos do encarnado
A cor do nosso coração
Os nossos partidários
Quando entramos em cena
Vibram todos de emoção

Nós somos do azul
A cor do nosso céu de anil
Os nossos partidários
Quando entramos em cena
A todos sorriso mil. "

Religioso e Profano

PS:
Os destaques entre as festividades natalinas em Olinda vão para a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim (1758) e para o Palácio dos Governadores onde ocorre o "Natal no Palácio", com apresentação de Auto de Natal, pastoris, danças folclóricas e corais.

PS¹:
Este ano uma exposição (Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco – MAC) de Presépios abriu o Ciclo Natalino de Olinda, no dia 09/12. A mostra reúne peças da coleção particular da atriz pernambucana Geninha da Rosa Borges, a coleção completa conta com quase 400 presépios. No MAC, estará exposta parte desse acervo, do qual fazem parte obras de artesãos de Caruaru, Tracunhaém e Petrolina, além de trabalhos oriundos de países como Japão, Tailândia, Estados Unidos, França e China.

PS²: Ao Clicarem nas imagens serão direcionados ao site de onde foram retiradas.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Estou chegando...


Olá, permitam que me apresente:

Meu nome é Cecília, tenho 26 anos, sou natural de Recife (nascida e criada), sou uma Canceriana convicta com Ascendente em Peixes e Lua em Libra (sabe lá o que isso quer dizer, mas pelo que li é uma combinação e tanto...).

Sou chocólatra, não recuso um sorvete, me desmancho por doce, adoro ouvir música e escrever, mas meus escritos saem no improviso, na hora da inspiração, no memento em que o coração bate forte, na hora da emoção, quase sem razão...

Minha família é meu alicerce, meu porto seguro, minha mãe minha é melhor amiga, tenho dois lindos sobrinhos (João de 6 anos e Matheus de 5 anos) e um afilhado maravilhoso (Nuno de 9 anos).

Tenho poucos amigos, falo naqueles amigos de toda hora, inclusive, ou principalmente, das horas difíceis, tenho muitos amigos com quem me divirto, alguns chamam de amigos de farra, falo pouco, escuto mais, sou chata, implicante, arengueira, impulsiva, emotiva, chorona, amiga, dona de uma personalidade forte e marcante, sincera, orgulhosa...

Gosto muito de viajar, passear pelo Recife e por Olinda, adoro ir à praia, seja durante o dia ou à noite, gosto de dançar, sair com os amigos, ir ao cinema e ao teatro...

Vocês devem está se perguntando o que estou fazendo por aqui, né?

Bem, é que recebi um convite do Carlinhos para contribuir com o blog.
O convite foi para falar dos folguedos de Natal de Olinda, mas como ainda não reuni todo material que acredito ser necessário vou começando com uma breve apresentação sobre mim e a divulgação de um projeto muito interessante que tem o nome de: Olinda Arte em Toda Parte’.

Este evento que movimenta as ladeiras de Olinda está na sua oitava edição esta celebrando mais um título concedido pela UNESCO à cidade que é Patrimônio Cultural da Humanidade e primeira Capital Brasileira da Cultura: o Título de Memória do Mundo.

O evento foi ‘aberto’ no dia 04/12 no Mercado da Ribeira e será encerrado no dia 14/12, além das apresentações culturais o público poderá visitar os 95 ateliês que abriram as portas para expor o trabalho de 311 artistas e artesãos, que moram na cidade ou a habitam temporariamente e também poderão apreciar os pratos especiais que chefes de vinte restaurantes da Cidade Alta estão preparando para servir durante o evento.

Este ano a grande novidade é o leilão beneficente ‘Ajudar É o Bicho’, que será realizado no sábado, dia 13, às 9h, no Convento de São Francisco. Cerca de 40 artistas participam da iniciativa, organizada pela psicóloga Sandra Valéria em parceria com o movimento Prudente Arte o Ano Inteiro. O dinheiro arrecadado pelas obras vendidas será destinado a ações em prol dos animais de rua do Sítio Histórico.


Divirtam-se!!!!

Participante do Olinda Arte em Toda Parte 2007.


PS:
Todas as imagens foram retiradas da internet.
Ao clicarem nas imagens serão direcionados ao site de onde foram retiradas.

sábado, 15 de novembro de 2008

PSALMO Nº 7 - RESPONSÓRIO





(Chantre)

Às tuas portas
aquietarei minh'alma...

(Côro)

Como se fosses um altar, Olinda!

Silente, adentrarei
pelos teus átrios...

Como se fosses um altar, Olinda!






Com a paz dos monges

dentro dos mosteiros...

Como se fosses um altar, Olinda!

Meditarei ouvindo

o tempo inteiro...

Como se fosses um altar, Olinda!





a secular canção

das tuas ruas

Como se fosses um altar, Olinda!





Hei de pisar

por essas pedras nuas

Como se fosses um altar, Olinda!




dessas ladeiras

becos e vielas

Como se fosses um altar, Olinda!





salmodiando os feitos

de outras eras

Como se fosses um altar, Olinda!





Com reverência e emoção infinda


Como se andasse em um altar:

Olinda!



As fotos d'Olinda copiei de Bob Omena:

www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=495631

A 3ª foto é do Pedro Valadares:

http://farm2.static.flickr.com/1087/897176688_db390ca8bb.jpg?v=0

*************************************************

O texto é do compadre Eurico, de uma gorada procissão

poética que faríamos pelas ruas d'Olinda, em 1995, e que

se chamaria Psalmos Apócriphos.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Olinda, segundo Gilberto Freyre

Largo do Amparo


“Não se pode falar de Olinda, esquecendo sua luz. Não sua luz elétrica: mas a sua luz de sol. É ela que dá às águas do mar que se vêem do alto de qualquer dos oito montes de Olinda e aos montes da cidade que se vêem do alto-mar, vindo de vapor da Europa ou dos Estados Unidos, do Norte ou do Sul do Brasil, a riqueza extraordinária da cor que encantou o alemão Gunther e já tinha encantado o pernambucano Joaquim Nabuco.
Para Nabuco, a beleza de Pernambuco vinha principalmente de sua luz. Tudo que ele exalta, em página célebre, na paisagem de Pernambuco, em geral, e na de Olinda, em particular, é efeito de luz: o céu que não é o mesmo um minuto; o mar que está sempre mudando de cor; o brilho metálico do espanador de coqueiros; a sombra rendada das jaqueiras e mangueiras. É ainda a luz: o céu que não é o mesmo um minuto; o mar que está sempre mudando de cor; o brilho metálico do espanador de coqueiros; a sombra rendada das jaqueiras e mangueiras. É ainda a luz que deixa ver o fundo da areia do Beberibe tornando outrora tão gostosos os seus banhos. Que dá vida às ruínas sufocadas pelos matos.
Que dá brilho aos azulejos velhos das sacristias, dos corredores de convento, das frentes dos sobrados, mas não deixa que eles nos doam cruamente nos olhos! Que não deixa que os vultos dos mosteiros e das igrejas dominem Olinda com abafados de sombras duras, negras e tiranicamente clericais, povoadas de corujas e morcegos, mas que adoça-as em sombras tão boas que não há, no meio delas, quem se sinta brasileiro sem se sentir, ao menos por um instante, ou, pelo menos franciscanamente, católico. Não só as árvores, como os passarinhos e as crianças, tem de Olinda uma intimidade com as igrejas velhas que em poucos lugares será tão grande; e tudo por causa da luz que faz a natureza estar sempre refrescando a tradição; que dá coragem às lagartixas para passearem pelos pés dos São Bentos mais sisudos; coragem aos passarinhos para pousarem nos São José dos altares, nas próprias coroas de ouro das Nossas Senhoras.
Que luz é esta – a que dá a estes montes, a estas praias, a estas águas, e às suas casas, às suas igrejas, às suas barcaças a vela, uma doçura que nem toda luz tropical dá às coisas e aos homens? Que faz dizer um homem alemão, e um homem de ciência viajando, conhecedor de outras terras dos trópicos: “quem sentiu uma vez o encanto desta luz se sentirá sempre tentado a voltar a estas latitudes”?
Será por causa dela - dessa luz -, que os habitantes desta parte do Brasil são tão fiéis ao seu torrão”, reparou o alemão de sua cadeira de balanço no Mosteiro de São Bento. A luz do sol no Brasil – escreve ainda o Professor Gunther, referindo-se principalmente a Pernambuco – parece ter uma qualidade diferente da luz do sol na Índia. “É que na Índia, observou ele, os raios amarelos parecem ser predominantes. Daí ser preciso, quando se tiram fotografias, dar exposição mais longa do que no Brasil ou na Europa.” ...


(Fragmentos do livro Segundo Guia Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira , de Gilberto Freyre/ Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro 1968).



FONTES:

Texto:
http://www.pauloklein.art.br/reportagem01b.htm

Imagem: Largo do Amparo-Olinda
http://www.shunya.net/Pictures/Brazil/RecifeOlindaIlheus/OlindaStreet2.jpg

terça-feira, 13 de maio de 2008

Olinda mitopoética

Vista aérea do alto da Sé e entorno.
(meu Sítio fica situado no declive daquela colina)
***
O mito é uma epifania do imaginário irrompendo na realidade.
******************* João de Jesus Paes Loureiro


Foi o Matheus Kunz, desde lá da distante Copenhague, quem me chamou a atenção definitivamente para a força da paisagem do Sítio d’Olinda. E também para a força da paisagem de qualquer lugar do planeta.
É preciso contemplar Olinda com os olhos da alma. Essa é a perspectiva lírica de quem escreve, de quem pinta, de quem faz canções.
No entanto, essa apreensão do mundo circundante, a apreensão lírica, não é privilégio do artista, mas é também do homem comum, seja nativo ou visitante, e, principalmente, da criança que em nós habita.
Só a criança esmaga o nariz na vidraça, e mergulha fundo na paisagem.
Pois bem, é da paisagem que surge a compreensão inicial da realidade. E essa leitura, dizia Cassirer, é uma compreensão mítica. Por isso, considero que a paisagem deve ser a mãe de todos os mitos.
E é a isso o que me leva a percepção do Matheus, desde lá do outro hemisfério:
O mito nasce da paisagem que nos envolve, que nos acolhe, ou mesmo a que nos assusta, como as cataratas e os vulcões.
Descubro também que o poeta, como uma criança na janela do trem, apreende líricamente a realidade, fazendo dela irromper o imaginário.
Só para ilustrar o que digo, vejamos um poema do Niemeyer, o poeta/arquiteto:

Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro
nas montanhas do meu país,
No curso sinuoso dos seus rios,
Nas ondas do mar,
Nas nuvens do céu,
No corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o Universo.
O Universo curvo de Einstein.

Oscar Niemeyer

Nesse texto está um exemplo de apreensão lírica da realidade. A leitura de Niemeyer está fundada numa experiência poético-intelectual, que pode ser vivida por qualquer um de nós. E é maravilhoso descobrir que a cidade de Brasília é a concretização dessa visão de mundo. Brasília tem uma origem mitopoética, como costuma dizer o meu compadre Lula Eurico.
A mesma origem tem Olinda ou Copenhague. Depende dos olhos de quem vê...

Essas são as reflexões a que me levou o amigo Matheus, nessa manhã fria do inverno d’Olinda, não tão fria como a distante Copenhague, cidade em que a família Kunz fez seu ninho e de onde a Ilaine abre, delicadamente, o seu Baú de Espantos. Dali contemplam, via internet, essa bela imagem da verde e exuberante colina da Sé .

Essa postagem é dedicada ao Matheus Kunz, filho da amiga Ilaine.
(Dedico também ao meu compadre Eurico,
que deve estar morrendo de saudade
dos passeios vespertinos pelo Sítio d'Olinda).
***
Visitem o site abaixo e vejam mais imagens d'Olinda:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=204749

sábado, 10 de maio de 2008

Unamuno em Olinda




E por falar na idéia de Dom Miguel de Unamuno, de que há um momento presente não-histórico, participei, dia desses, de uma verdadeira cerimônia intra-histórica: a procissão de São Pedro dos Navegantes, da Colônia de Pescadores Z-4, em Olinda.
Foi admirável ver aqueles homens e mulheres, vestidos com simplicidade, muitos deles descalços, as pernas sujas de lama (havia chovido) cantando, pelas centenárias ruas d’Olinda, cantochões seculares e responsórios de ladainhas merencórias.
No entanto, a surpresa maior foi descobrir que os hinos sacros eram, aqui e ali, entrecortados por sambadas de coco. De fato, atrás da orquestra de metais que acompanhava o andor do santo, os pescadores divertiam-se com atabaques e tambores e, nos intervalos dos hinos, desandavam a cantar, a plenos pulmões, uma loa de coco-de-roda:

"Eu passei por São Pedro
e tirei meu chapéu
Salve São Pedro
Chaveiro do céu".

Não sei se o que cantavam era mesmo samba de coco-da-praia ou linha de terreiro de umbanda, mas que era uma legítima expressão popular, ah, lá isso era! Uma bela expressão intra-histórica da vida comunal olindense! Essa, por sinal, é uma característica que sempre está presente nas manifestações do povo de Olinda: a tradição festiva dos cortejos.
Decerto, não é só dos cortejos carnavalescos que vive a cidade-patrimônio, mas de procissões, como a do Desterro, do Senhor Morto ou a de São Pedro. Mui belo e rico é o cortejo da Procissão dos Passos, em que são visitados os diversos nichos do sítio histórico. Cortejos também há nas festas juninas, como o Acorda Povo, especialmente na comunidade do Amaro Branco, onde habitam os mais humildes moradores da antiga Marim dos índios Caetés.
Assim é que se gera a cultura popular: pela atividade espontânea do povo anônimo. Tanto faz se devotos ou foliões. Cultura se faz na rua. Por isso, de nada adianta o Poder Público intentar um folclore por meio de eventos criados por lei, artificialmente.
Essa maneira de atuar do Estado nasce de uma compreensão defeituosa da cultura e da tradição, elementos essencialmente intra-históricos. O erro consiste de uma tentativa inútil de desentranhá-los do seu nascedouro. A cultura popular é construção intra-histórica, ou seja, é do povo o seu cerne e a sua alma. Consegue assim, o Estado, ao legislar sobre costumes e folguedos intra-históricos, tão-somente transformá-los em meros espetáculos para fruição de turistas.
Essa visão distorcida dos brincantes e da cultura, a bem da verdade, não é privilégio de Olinda.
Não vi de perto, mas ouvi dizer, pela boca de viajantes, que, no Norte do Brasil, há índios à beira das rodovias, colares e pulseiras às mãos, acenando aos caminhoneiros. Induzidos pela compreensão mercantilista do turismo, parecem, eles mesmos, os silvícolas, exóticas criaturas artesanais, expostas no acostamento. Pobres nativos, são desalojados da vida tribal e fecunda do aconchego da sua intra-história, para serem lançados nesse triste espetáculo, que se rende ao apelo da mídia, do capital, e o que é pior, da necessidade.
É preciso que o Estado deixe fluir a intra-história cabloca, sertaneja ou praieira. Pois, pode parecer redundante o que lhes digo agora, mas, cultura popular se faz mesmo é pelo povo e para o povo. O mais não passa de uma artificial, estéril e inútil intervenção do Estado na espontaneidade dos anônimos geradores da tradição e dos costumes.

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Fonte da imagem

http://www.pauloklein.art.br/reportagem01b.htm

sábado, 3 de maio de 2008

Sítio Intra-histórico d'Olinda




O Sítio d'Olinda não é apenas patrimônio histórico. É, essencialmente, um patrimônio intra-histórico. O intra-histórico, aqui, assemelha-se ao que modernamente chamamos, mutatis mutandis, de patrimônio imaterial . Aquilo que, criado numa geração, vai sendo repetido pelas outras, até tornar-se um verdadeiro automatismo, quase instintivamente recriado no presente dos gestos, das falas e até dos balbucios.


Esse conceito de intra-história foi desenvolvido pelo pensador basco Miguel de Unamuno. Se há um presente momento histórico, dizia ele, deve haver um momento presente não-histórico. A história, para Unamuno, brota dessa não-história, assim como das madréporas suboceanicas brotam, depois de séculos, as ilhotas de coral.

Essa não-história, ou intra-história, não está enterrada no passado dos livros, papéis, monumentos e ruínas de pedra. Palpita bem viva no presente, na vida silenciosa da imensa humanidade anônima, que porfia dia e noite em seu labor cotidiano.

O Sítio d'Olinda é residência habitual do intra-histórico. Gravado ele está, de há muito tempo, na prosódia peculiar de nossa gente; no gosto secularmente apurado do condimento das panelas de barro de nossas matronas; na rapidez do gesto, mil vezes repetido, do tirador de coco, alpinista dos abundantes coqueirais dessa Olinda imemorial.

Aqui há uma crosta de intimidade familiar, de permanência e tradição, em que se ouve o vozear terrunho da intra-história. Aqui o passado somente não morreu, mas convive todo dia, permeando cada um de nós. Tradições antiqüíssimas estão amalgamadas no regaço do cotidiano do Sítio d’Olinda, onde o presente é como um colo materno, que nos agasalha contra os ventos velozes das mudanças.

Aliás, nada temos contra o novo. Mas residir neste sítio intra-histórico de Olinda é libertar-se da temporalidade fática, livrar-se da novidade pela novidade, e mergulhar silenciosamente na convivência serena com o presente imaterial. Quase que ia dizendo, no presente virtual... Paz e fraternidade a todos!

 Fonte da imagem:
 http://igatur.googlepages.com/alain-033.jpg/alain-033-full.jpg

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Elegia da Mudança






Meu compadre Eurico mudou-se.
Se eu fosse poeta como ele lhe faria um poema
cujo título seria Elegia da Partida.
Dona Iolanda ainda lhe deu um pote com camarão ao molho de côco,
dizendo, meio chorosa:
"Leve pro senhor tomar uma quando chegar no Recife."
Hoje minha postagem não podia ser outra,
pois meu vizinho e compadre deixou a sombra das mangueiras, a bodega do véio, a baiúca da Selma,
e o poço antigo em que se diz que o holandês bebeu água;
o meu compadre deixou o Sítio das Quintas,
esse pedacinho da "terra mais garrida",
fincado no Horto del Rey.

Disse-me ao se despedir: vou voltar, sei que ainda vou voltar.
Ecoou em minh'alma a canção para um exilado, do Chico:
Vou voltar,
sei que ainda vou voltar
para ouvir cantar uma sabiá...

Volta, compadre, volta sempre, nem que seja de visita!
E olha que domingo, dia 04 de maio, é o aniversário de Dona Iolanda,
a matriarca do sítio.
Não me vá faltar, hein!


Fonte da img:

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Destilando o tempo


O tempo no Sítio d’Olinda não se subordina ao cronômetro. Aqui a vida tem um trato moroso e amoroso, descansado e lúdico. Não há a sofreguidão das ruas do comércio do Bairro Novo, da Cidade Baixa. Muito menos, a pressa da vizinha Recife.
No Sítio, tempo ganho é aquele que se perde na tertúlia, falando com uma mulher, tresnoitando pela rua com os amigos do peito, ou na bodega, a bebericar. Cá no sítio há momento para degustar um bom prato, conversar amenidades sob as mangueiras e muita... muita tranqüilidade para escrever.
E escrever da forma proposta por G. M. Kujawski* em que a escrita se torna "fruta do ócio, forma de destilar o tempo em gotas de conhecimento, como nos alambiques de engenho destilavam-se os pingos preciosos de aguardente, sem que ninguém tivesse pressa de vendê-la e obter lucro."
Aqui o tempo é fecundo, tempo freyreano**, como na descrição sossegada do mesmo Kujawski, e que abaixo transcrevo, para deleite dos vizinhos e visitantes sem pressa:

“Eis aqui toda a questão: ou o tempo é fecundo, ou a vida não é digna de ser vivida. Tempo fecundo é o que nos proporciona amor, amizade, sabor, interesse, paixão, inteligência. E a fecundidade do tempo depende da nossa forma de instalação na vida. Se passamos correndo pelas coisas, como um turista em suas excursões programadas pelas agências de viagem, caímos prisioneiros do tempo cronométrico, abstrato, mecânico. Se, pelo contrário, aprendemos a nos demorar deleitosamente nas coisas, fazendo delas a medida do nosso tempo, imprimimos ao curso da vida aquele traçado aventuroso que nos dirige os passos às grandes descobertas, sempre imprevistas, no campo do saber, da beleza, da sabedoria. Tais descobertas atendem pelo nome de inspiração. Sem inspiração a vida não adquire jamais impulso criador, direção construtiva. E sem a ruptura daquele tempo planificado, cronométrico (hora certa para isto, para aquilo, para aquilo outro), sem o abandono ao ritmo ondulante do acontecer vital, a inspiração não irrompe. (...). O tempo freyreano, o avesso do tempo cronológico, só poderia ser medido e simbolizado por uma ampulheta na qual a secura da areia fosse substituída pelo melado da rapadura, escorrendo num fio lento e viscoso, marcando a duração gozosa da pachorra nordestina. A pachorra nordestina não é sinal de indolência, nem de apatia, nem de má constituição, mas provém da plenitude de instalação do homem nordestino no seu meio ambiente, ou melhor, no conjunto de sua circunstância histórica, física e social (...).”

Esse é o tempo cá do Sítio, leitores e leitoras.
Abanquem-se e vamos prosear um pouco, pois aqui não se mata o tempo.
Matar o tempo é suicídio...

· Notas do Editor:
· * G. M Kujawski, Gilberto Freyre e a Pachorra nordestina, in Perspectivas Filosóficas, Duas Cidades, 1983, p. 70
· ** Tempo como o concebido por Gilberto Freyre em suas obras
.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

O que é o Sítio d'Olinda







Bem, como sou o único morador e caseiro voluntário desse sítio virtual, preciso me apresentar:

Meu nome é Carlos Pequeno do Espírito Santo. Sou escritor por teimosia e não por gênio, morador do Sítio das Quintas, d'Olinda, e um dos remanescentes da Irmandade do Amparo, não aquela religiosa, mas a que reúne os boemios e notívagos das ruelas estreitas da cidade-patrimônio.

Aqui pretendo publicar minhas idéias, minhas elucubrações e os textos dos meus vizinhos e compadres escritores, aqui do sítio histórico.
Aguardem minhas revelações sobre a cidade dos calungas.