"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.
Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas.
Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.
Carnaval era meu, meu."

(Clarice Lispector )







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terça-feira, 31 de agosto de 2010

Ortega y Gasset: ou, Diante de um Mar


"Para Moisés, o Herói, toda pedra é um manancial."
.................................................José Ortega y Gasset



O que é "Reabsorver a circunstância"?
Assim, duas palavrinhas e uma vogal fazendo a ponte..., fisga-me o amigo
Éverton, com "os curvos ganchos da interrogação."
Essa carinhosa e maiêutica forma de questionar, do amigo , me fez tomar coragem de prosear um pouco sobre Ortega y Gasset.
Do meu jeito, né. Sem introduções, nem conclusões, posto que minha humilde postagem não pode se arvorar em tese... talvez seja uma espécie de"ensaio", no sentido teatral da palavra rsrsrs
Falarei apenas do que é, em minha vida, a "circunstância Ortega".





Nas preliminares de suas Meditações, José Ortega y Gasset afirma que a obra-prima de Cervantes não se entrega à invasão intelectual dos açodados, dos que a querem tomar à força. Para invadi-la é necessária uma paciente aproximação, em um verdadeiro culto meditativo: (p. 59)

"Obra da categoria do Quixote tem que ser tomada como Jericó. Em amplos rodeios, nossos pensamentos e nossas emoções devem estreitá-la lentamente, sonorizando o ar com trombetas ideais."

Seguindo este clássico conselho, iniciarei os meus volteios em torno do pensamento orteguiano, volvendo o olhar ao entorno de mim mesmo, da minha vida e do meu derredor:


Ortega é um grande mar, eu diria mesmo um oceano. Estou sentado, pois, na areia da praia, observando o mar, ondas rebentando nas pedras, espumas, e uma massa imensa de água que vai indo em direção do horizonte, até tocar o céu. Como alcançar esse abismo azul-esverdeado, (ou seria verde-azulado), que me impõe sua presença túpida, aquática, vital?

Estou diante do oceano e não tenho fôlego dos peixes, para um mergulhar profundo. Lanço-me pois às águas rasas. E me permito braçadas pela orla. Cortarei as águas, a superfície das vagas, transversalmente. Essa é a solução que surge à minha mente, diante da força da rebentação e do perigo a que ela me leva.

Estar em Ortega é, em mim, estar no mar e cuidar de "saber a que me ater". Dentro da água, a única coisa plausível é saber o que fazer com a água. Pensar, aqui, é uma espécie de movimento natatório. Salvo dos primeiros perigos, braços cansados, deixo-me flutuar.
Boiar, eis outra maneira de estar no mar... O mar, sim, o mar. Aí está uma imensa circunstância. Sei disso, porque habito uma cidade litorânea. E a minha saída para o mundo, vez por outra, implica em mar.

Eis que nesses primeiros esforços natatórios, já estamos nos movendo em plena filosofia orteguiana: (eu avisei que iria ser de meu jeito... rsrsrs)
Meu corpo, a água, o mar imenso, a superfície e a profundidade, o latente e o patente, o horizonte: Ortega y Gasset, eis a minha circunstância. Estou nela e ela em mim. Não posso compreender plenamente o mar sem me atirar às águas. Parafraseando um provérbio oriental eu diria que posso até falar do estio a um esquimó, que vive o ano todo sob a neve. Porém, nada melhor do que caminharmos juntos numa caatinga esturricada, para que ele aprenda do estio com a própria pele. Do mesmo modo, com mil palavras eu descreveria a Antártida, a um mineiro que passa os dias do ano numa escura grota, sob o chão. Mas bastar-lhe-ão alguns minutos sob uma nevasca, para que ele a entenda em sua totalidade. Por isso, tento esses mergulhos rasos, em Ortega, como em um translúcido mar. Mergulhar fundo, no entanto, seria a melhor forma de alcançar-lhe a plenitude.

Não nego, com as imagens acima, a força da palavra. Isso seria negar a metáfora, e por conseguinte toda a linguagem, todo o pensamento, toda a cultura. Diga-se apenas que a palavra não está só no mundo dos signos. Nem só de boca, olhos e ouvidos, se faz a compreensão do mundo. Como dizia o poeta: "penso com todo o meu corpo'". Ortega diz mais. Diz: penso com minha própria vida. Assim, entender algo é saber como isso funciona na minha vida. E a vida é o próprio órgão da compreensão. Não a vida em geral, qualquer vida. Mas a tua vida e a minha, a vida dos esquimós e a dos mineiros, a vida de cada um, com sua perspectiva e sua pessoalidade. Bem entendido, a vida biográfica e não apenas biológica. Entender algo, pois, é fazer essa coisa passar por dentro da vida de um homem. Não há nada que se faça cultura, ciência ou poesia que não tenha se estreitado pelo âmbito estremecido de uma vida humana. Portanto, ao se falar em circunstância, há de se alertar que um eu, singular e original está a tomar a palavra. Eu falo de dentro da "circunstância Luiz Eurico de Melo Neto". Impossível falar fora de mim.



Sob essa premissa, a filosofia orteguiana é circunstancial. Aliás, não há filosofia, que, de certo modo, não seja circunstancial. A circunstância de Ortega y Gasset era a Espanha. Seu afã era saber a que se ater, naquela nação espanhola, do começo do século XX. Impressionei-me ao ver a força de sua indagação, em um brado que vem de dentro de sua obra:

-- Meu Deus, que é a Espanha?

José Ortega y Gasset, portanto, eis a minha circunstância, ao começar a me mover nesse tema. Aliás, o Ortega das Meditações do Quixote, traduzido ao português por G. M. Kujawski. Esta é, "concretamente", a minha circunstância, ao escrever essa postagem. Mas "circunstância", o que é isso, em Ortega?

Ajuda-me a cristalina voz orteguiana, nessas suas Meditações (p. 47):

"A circunstância! Circum-stantia! As coisas mudas em nosso próximo derredor! Muito perto, muito perto de nós, levantam as suas tácitas fisionomias com um gesto de humildade e de anelo, como necessitadas de que aceitemos a sua oferenda (...) E andamos cegos entre elas, os olhos fixos em remotas empresas, projetados para a conquista de longínquas cidades esquemáticas."

E põe-se a meditar nesse tema com amoroso deleite (p. 48):

"Creio muito a sério que uma das mudanças mais profundas do século atual em relação ao século XIX consistirá na transformação de nossa sensibilidade para as circunstâncias. Não sei que inquietude e precipitação reinava na passada centúria (...) que impelia os ânimos a omitirem todo o imediato e momentâneo da vida."

E nos exorta, com seu consabido altruísmo:

"Todas as nossas potências de seriedade gastamo-las na administração do Estado, na cultura social, nas lutas sociais, na ciência enquanto técnica, que enriquece a vida coletiva. Parecer-nos-ia frívolo dedicar uma parte de nossas melhores energias - e não somente resíduos - a organizar ao nosso redor a amizade, a construir um perfeito amor, a ver no gozo das coisas uma dimensão da vida que merece ser cultivada com procedimentos superiores. E como esta, múltiplas necessidades privadas ocultam envergonhadas o rosto nos rincões de nosso ânimo, porque não se quer outorgar-lhes cidadania, quero dizer, sentido cultural."

De certa forma, a citação acima faz com que volvamos à praia, e ao nosso entorno. A, circunstância, amigo Éverton, leitores, se inicia pelo nosso corpo, seja feio, bonito, doente ou saudável. E com ele escolheremos nadar ou boiar, para ver se nos salvamos do naufrágio das incertezas inumeráveis da vida cotidiana. Estou tão íntimamente ligado ao corpo da minha circunstância, que não me realizo sem ela. E corpo aqui implica em cérebro, mente, pensamento, linguagem, idioma, pátria, Ser. Estou encharcado de mim porque estou encharcado em minhas circunstâncias.

Daí o famoso enunciado orteguiano diz que: "Eu não sou apenas eu. Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela não me salvo a mim."(p. 52)

Isso quer dizer que, se não assumo, ou salvo, minha circunstância, não me realizo plenamente. Por isso, no mesmo trecho Ortega arremata (e com isso creio desprender-me do certeiro gancho da interrogação do amigo Éverton):

"Em suma: a reabsorção da circunstância é o destino concreto do homem'.

Não se trata de ser capturado por um destino, mas de apropriar-se do fado, da sina, da realidade tal como a encontro, reabsorvendo-a em meu ser. Reabsorver a circunstância consiste em incorporá-la ao meu projeto vital, humanizá-la. O homem se faz a si mesmo com as coisas que a ele se oferecem. A circunstância pois é como um mote dado aos repentistas. Cá na minha região lança-se um motivo, uma frase, com a qual os cantadores erigem a sua embolada. Dizem que glosam um mote forçado. Bem, reabsorver a circunstância seria "glosar" a realidade em derredor, modulando-a ou modelando-a de acordo com minha liberdade criadora. Talvez seja por essa razão que Ortega diz que o ser é um drama e que homem é o novelista de si mesmo. Escolhemos roteiros e scripts. No entanto, não custa lembrar da responsabilidade por essas escolhas, e que o âmbito dessa postagem não me permite tratar da questão da Moral, na obra orteguiana, que muitos, equivocadamente, consideram como relativista. Basta, por hora, dizer, sobre a questão moral, que, mesmo o juízo bíblico não é coletivo. Presta contas a Deus um homem singular e solitário. Mas todo o individual quer se erguer em um social. E a liberdade dessa reabsorção tem o limite dessa circunstância, a social, da qual não me posso alienar. Liberdade para reabsorver a circunstância não implica em relativismo moral. Disso falaremos em outra postagem.

Creio que essa prosa já encaminha o pensamento para a resposta à indagação feita pelo perspicaz e jovem amigo Éverton Vidal. Todavia, sabendo-o estudioso, e até professor de estudos bíblicos, explico-lhe que a imagem de Moisés ferindo a pedra, que ilustra esta postagem, busca apenas dar ênfase à maneira pela qual cada um reabsorve a própria circunstância. Uns, diante da pedra, morrem de sede. Moisés, o profeta, via em cada pedra um manancial. A epifania acontece, também, no circunstancial. Deus mesmo é o "lugar" onde "acontece" a vida do homem. "Nele nos movemos, vivemos e existimos." Sem absorver Deus, na circunstância, uns só enxergavam na pedra, a pedra. Moisés, o herói do circunstancial, enxerga na pedra uma fonte latente, que jorrou e ainda pode jorrar.

Sigo, tentando ferir as pedras enormes que se me apresentam na estrada. Aprouve Deus, no âmbito frágil da minha existência, que dessas pedras jorrem águas limpas e potáveis, e que eu possa compartilhá-las com os mais próximos.

Abraço fraterno

e desculpem os senões e as incoerências. Cá não filosofo, apenas releio, medito e trancrevo.

Paz e Bem!

***

Citações de Meditações do Quixote, José Ortega y Gasset, São Paulo, Duas Cidades, 1967. (comentadas por Julián Marías e traduzidas por G. M. Kujawski)



Fonte da imagem:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgL5ozE6SdSMD_sgh8dkxmHzIizbO8Pyb999ne3zFnnJ07yiqlogcpHyLBzRsgMqfDRXSRWM0si-dMdMrEyBaVQ6i-LAVgeATh_SZufdxTccc-TxmxolCMwvNzI9SV4r9CXLrOQbe5e3wVl/s1600/moses_water_rock_strike.jpg

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

REABSORVER A CIRCUNSTÂNCIA


(POSTAGEM EM CONSTRUÇÃO)



O que é "Reabsorver a circunstância"?
Assim, duas palavrinhas e uma vogal fazendo a ponte..., fisga-me o amigo Éverton, com "os curvos ganchos da interrogação."

Fonte da imagem:
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgL5ozE6SdSMD_sgh8dkxmHzIizbO8Pyb999ne3zFnnJ07yiqlogcpHyLBzRsgMqfDRXSRWM0si-dMdMrEyBaVQ6i-LAVgeATh_SZufdxTccc-TxmxolCMwvNzI9SV4r9CXLrOQbe5e3wVl/s1600/moses_water_rock_strike.jpg

sexta-feira, 30 de julho de 2010

“Eu Sou Eu e Minhas Circunstâncias”





"De manhãzinha, passo pela minúscula oficina do chaveiro. A porta da oficina mal passa de um metro de largura... rosto sério, lá está ele, o dono da oficina - magro, bigode grosso, camisa para fora da calça jeans bastante surrada. Antes que apareça o primeiro cliente, ele varre o trecho de calçada subentendido pela estreita porta da oficina. E varre meticulosamente, escarafuncha com a vassoura piaçaba as gretas da calçada, e até olha em volta para ver se restou algum cisco.
Varre com o respeito que teria pela sala da sua casa... afinal, é dali, dessa absurda mesmice, que ele tira o pão de cada dia. Não é muito o ganho que entra por aquela porta estreita, mas, é uma vitória conquistada a cada dia... e sem suar o rosto: ele se amolda ao que faz!

Depois, guarda a vassoura num cantinho, e recolhe-se atrás da bancada, a fazer chaves, o dia inteiro... À tarde, vejo-o baixar a porta de ferro da oficina, com todo o cuidado. Dia seguinte, novamente varre a caçada... No circo da vida, ele trilha um círculo do mesmo diâmetro, sempre e sempre... Quem tem como ofício abrir portas, talvez tenha se habituado a não abrir certas portas em si mesmo; dúvidas não ajudam a quem vive da mão para a boca! Ele é a própria reafirmação de que o sujeito é o sujeito inteiro - ele é ele e as suas circunstancias. Eu, ele e as demais pessoas do verbo também - a vida é essa planura aborrecida..."


[Penas do Desterro, 07 de novembro de 2009]
Postado por Carlos Rodolfo Stopa às 12:30 PM

Fonte do texto:
http://mundareus.blogspot.com/2009/11/eu-sou-eu-e-minhas-circunstancias.html

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NOTA DO BLOGUEIRO:
(em atenção ao amigo Éverton Vidal, do blog Re-novidades)

Por duas vezes o amigo Éverton me disse da sua intenção de ler Ortega y Gasset. Esse é o motivo da transcrição da postagem acima: Prosear acerca de Ortega, aqui neste agradável Sítio, em que, vez ou outra, colaboro com meu compadre Carlinhos.
Do que diz o Carlos Stopa, não concordo apenas com a frase final. Embora o texto seja primoroso. O autor afirma que a vida é "uma planura aborrecida" (sic). A vida pode ser plana ou montanhosa, mas a vida é sempre que-fazer, ou seja, a vida, a tua, a nossa vida (a biográfica e não a biológica) não nos é dada pronta, mas é o mote, no qual faremos a glosa de nossa existência. O sentido aborrecido ou não desta 'planura', cabe a nós realizar. (E isso já é pensamento orteguiano...)
Mas antes que me estenda, explico ao Éverton o que trouxe até aqui o texto do Stopa. É que o título dessa postagem é a condensação da filosofia orteguiana. A frase, no entanto, está incompleta. Ortega afirma que " eu sou eu e minhas circunstâncias, e se não salvo a elas não me salvo a mim". O chaveiro da crônica do Stopa está imerso em sua vida, executando-a, e só a ele cabe adjetivá-la, dar-lhe um sentido. Para isso, precisa "saber a que se ater". Isso é o que faz a filosofia de Ortega. Aliás, isso é o que faz toda filosofia digna do nome. O cronista, embora talentoso na forma, apontou apenas parte da visão orteguiana do binômio "eu & minhas circunstâncias", mas só parte. É isso o que quero salientar nessa nota de blogueiro.
Pois bem: inicio, a partir desta, uma série de postagens sobre a filosofia de Ortega y Gasset, que ando relendo, e que, em verdade, dá suporte a muita coisa do que escrevo em prosa ou poesia. Orteguianamente, busco saber a que me ater. Ou seja, vivo. Viver já é filosofar.

Grato pelo espaço, compadre.

Luiz Eurico de Melo Neto

Fonte da imagem:
quiosque do chaveiro

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Dr. Plausível visita o Sítio d'Olinda


Não resisti à prosa saborosa e profunda desse sábio, do qual sou fã de carteirinha, e resolvi copiar e colar aqui uma postagem de seu blogue. Cheio de erudição e bom humor, este blogue é um clássico do gênero. Concordando ou não com suas idéias, o fato é que o sábio as trata com rara maestria. Confiram:



A síndrome de Willian


Nosso encomiável doutor quase não lê jornal. Comprar, então, só in extremis. Sair de manhã pra seu morning constitutional e dar uma paradinha na banca pra ver as manchetes penduradas é um hábito q ele não renega desde seus tempos de estudante no Instituto de Plausibilática de Tallinn. O raciocínio de nosso humanista é impecável: se all news is old news e se os jornais controlam as notícias diariamente, então uma bizoiada a cada 24 horas na primeira página basta. Não quer se meter a ler jornal não. Há entre o doutor e o jornaleiro um acordo tácito. O doutor pode às vezes tirar fotos das manchetes em troco da preferência de comprar ali seus gibis, qdo lhe dá na telha. Há pro outro o bônus adicional de começar bem o dia com o contágio dum gargalho plausônico.Esta manhã foi uma glória pro jornaleiro. Ao ver a primeira página da Folha, a gargalhada múltipla de nosso humanista o infectou em tal grau q a rua toda invejou os dois por estarem começando uma quinta-feira pós-feriado num astral hilariante.
O q o doutor viu foi a foto acima!

Desde a ascensão da imprensa como meio político, há entre deputados de todas as laias um tipo de velhacaria muito comum q consiste em simbolizar tudo errado com o intuito de confundir as coisas q já estão confusas na mente de quem se vale desse recurso.Pois pergunta-se: ¿o q tem a ver, de um lado, um político evangélico numa confortável sala do congresso carregando nos braços duas bonecas levinhas durante alguns minutos pruma photo-op... com, do outro lado, uma mulher realista neste mundo decididamente desconfortável carregando na barriga durante 9 meses um pesado feto indesejado com a suposição de q se responsabilizará por ele durante os 18 anos seguintes?Todo assunto sério abordado com cretinice dá nesses absurdos q em si são risíveis. Mas o q destrambelhou o doutor a rir foi ver o NOME do deputado. Qqer pessoa sensata e culta q se preze vê logo de cara q alguém q veio ao mundo com o nome Willian (note: williaN) não deve ter crescido num ambiente com muito apego à realidade q o cerca. "William com ene" é uma coisa estapafurdiamente diferente de "Brasil com zê". Brazil é o sarcasmo ao estar consciente do significado q uma letra pode assumir; Willian é a sedução do iletrado inconsciente do q as letras dizem. Está claro q ter um nome tipo 'Willian' não desmerece ninguém a priori. Chamar-se Jean-Claude ou Djéfersão ou Orprúndio não é opróbrio nenhum prum brasileiro (muito menos aos olhos do doutor – cujo primeiro nome, diga-se, é Amônio). Mas imagine a infância desse menino, nascido desortograficamente numa nação genuflexa perante nações melhor estruturadas, crescendo sem orgulho pátrio de sua própria língua e cultura, com uma desatenção cor-de-rosa pelos detalhes da cultura importada, seguindo um culto evangélico q se pauta por Bíblias (mal) traduzidas do inglês e por discursos (mal) adaptados de problemáticas euaenses, galgando-se social e politicamente por utilizar técnicas de marketing religioso originadas "lá" e trazidas "de lá" por missionários deslumbrados, e então aplica sua ideologia pra-inglês-ver no congresso brasileiro, onde a questão é totalmente outra, e – pra arrematar – insulta as leis brasileiras e a mínima inteligência do público brasileiro ao tomar emprestado TAMBÉM os confusos e pérfidos processos mentais da religiopatia euaense e chama de "abortos" os trágicos assassinatos daquela menina paulista pela janela e daquele menino carioca no carro. Imagine. É um mundo paralelo tomando conta da realidade.Numa nação genuflexa e ignorante, é um problema constante q se transforme a genuflexão disléxica numa profissão de fé, diversificando-a em genuflexão cultural e ideológica, genuflexão metodológica e econômica, genuflexão religiopática e política.Talvez pareça q o doutor enxerga uma causa lingüística até mesmo na questão do aborto, quase beirando a botar nos gramáticos normativos e reformadores ortográficos a culpa pela sandice q rotineiramente leva genuflectores à câmara federal. Mas o nome do rapaz é apenas um detalhe engraçado. Por outro lado, a prova da genuflexão disléxica taí pra quem quiser ver. Um deputado federal chamado Willian segura duas bonecas e acha isso um símbolo pertinente numa guerra eterna entre ideologias traduzidas.O Dr Plausível viu tudo isso ali, ao ler a primeira página do jornal pendurado na banca da esquina. Só podia mesmo gargalhar.O acordo tácito entre ele o jornaleiro se parece com aquele entre a hipocrisia política e a franqueza da realidade. O doutor não vai comprar um trambolho de jornal só pra ler algumas notícias; se ele não puder ler as manchetes ali, vai ler em outra banca. O jornaleiro sabe disso; o q ele perde no jornal, ganha no gibi. Quem quer fazer um aborto faz, sem pensar se é criminalizado ou não; se não puder fazer de graça num hospital público, vai fazer em outro lugar. Os willians sabem disso. O acordo tácito é entre quem condena e quem faz: "Ninguém vai te pôr na cadeia, mas me reservo o direito de berrar contra." O q eles perdem em realismo, ganham em angelismo. Mas o q eles não querem mesmo é pagar pelo aborto; ou seja, não querem gastar dinheiro, mesmo q se prove q seria pra se ter um país melhor. De melhor, basta q existam os ideais platônicos da Europa e dos Euá – aquele país onde o aborto é legalizado e produz o maná de onde os willians dislexicamente derivam suas idéias.Morning constitutional, indeed!

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Adendo:
Apesar dos Willians, este país descende culturalmente de Portugal. Só em fevereiro de 2007 é q os portugueses foram aprovar em referendo o q eles chamaram de "despenalização da interrupção voluntária da gravidez ... nas primeiras dez semanas". É ligeiramente intrigante aventar q esse país da periferia européia não teria tido a iniciativa e o impulso de se modernizar nesse sentido não fosse o exemplo prévio da maior parte do restante da Europa. Talvez o q falte à sua ex-colônia tupiniquim não seja bom-senso, mas *vizinhos* com bom-senso.

Fonte do texto e da imagem:
http://drplausivel.blogspot.com/
Nota do autor do Sítio d'Olinda:
O moradores deste sítio intra-histórico podem até não concordar com tudo o que afirma o plausibilático doutor,
mas lutarão e berrarão até à exaustão, se preciso for, pelo livre-pensar dos sábios, como ele, e por julgarem plausíveis as suas gargalhadas matinais.





















quarta-feira, 23 de abril de 2008

Destilando o tempo


O tempo no Sítio d’Olinda não se subordina ao cronômetro. Aqui a vida tem um trato moroso e amoroso, descansado e lúdico. Não há a sofreguidão das ruas do comércio do Bairro Novo, da Cidade Baixa. Muito menos, a pressa da vizinha Recife.
No Sítio, tempo ganho é aquele que se perde na tertúlia, falando com uma mulher, tresnoitando pela rua com os amigos do peito, ou na bodega, a bebericar. Cá no sítio há momento para degustar um bom prato, conversar amenidades sob as mangueiras e muita... muita tranqüilidade para escrever.
E escrever da forma proposta por G. M. Kujawski* em que a escrita se torna "fruta do ócio, forma de destilar o tempo em gotas de conhecimento, como nos alambiques de engenho destilavam-se os pingos preciosos de aguardente, sem que ninguém tivesse pressa de vendê-la e obter lucro."
Aqui o tempo é fecundo, tempo freyreano**, como na descrição sossegada do mesmo Kujawski, e que abaixo transcrevo, para deleite dos vizinhos e visitantes sem pressa:

“Eis aqui toda a questão: ou o tempo é fecundo, ou a vida não é digna de ser vivida. Tempo fecundo é o que nos proporciona amor, amizade, sabor, interesse, paixão, inteligência. E a fecundidade do tempo depende da nossa forma de instalação na vida. Se passamos correndo pelas coisas, como um turista em suas excursões programadas pelas agências de viagem, caímos prisioneiros do tempo cronométrico, abstrato, mecânico. Se, pelo contrário, aprendemos a nos demorar deleitosamente nas coisas, fazendo delas a medida do nosso tempo, imprimimos ao curso da vida aquele traçado aventuroso que nos dirige os passos às grandes descobertas, sempre imprevistas, no campo do saber, da beleza, da sabedoria. Tais descobertas atendem pelo nome de inspiração. Sem inspiração a vida não adquire jamais impulso criador, direção construtiva. E sem a ruptura daquele tempo planificado, cronométrico (hora certa para isto, para aquilo, para aquilo outro), sem o abandono ao ritmo ondulante do acontecer vital, a inspiração não irrompe. (...). O tempo freyreano, o avesso do tempo cronológico, só poderia ser medido e simbolizado por uma ampulheta na qual a secura da areia fosse substituída pelo melado da rapadura, escorrendo num fio lento e viscoso, marcando a duração gozosa da pachorra nordestina. A pachorra nordestina não é sinal de indolência, nem de apatia, nem de má constituição, mas provém da plenitude de instalação do homem nordestino no seu meio ambiente, ou melhor, no conjunto de sua circunstância histórica, física e social (...).”

Esse é o tempo cá do Sítio, leitores e leitoras.
Abanquem-se e vamos prosear um pouco, pois aqui não se mata o tempo.
Matar o tempo é suicídio...

· Notas do Editor:
· * G. M Kujawski, Gilberto Freyre e a Pachorra nordestina, in Perspectivas Filosóficas, Duas Cidades, 1983, p. 70
· ** Tempo como o concebido por Gilberto Freyre em suas obras
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