"E quando a festa já ia se aproximando, como explicar a agitação que me tomava?
Como se enfim o mundo se abrisse de botão que era em grande rosa escarlate.
Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas.
Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim.
Carnaval era meu, meu."

(Clarice Lispector )







segunda-feira, 16 de junho de 2008

Tia Dora e seus mitologemas


Entrevista concedida pela escritora Dora Ferreira da Silva (1918-2006) ao site da WEBLIVROS:

Mais conhecida por seu trabalho como tradutora - enfrentando autores tão diversos como Angelus Silesius e San Juan de la Cruz, Rilke e Hölderlin, Valéry e Saint-John Perse, Jung e Tauler -, Dora vem prestando serviços à poesia desde há muito. Seja como animadora cultural nas décadas de 50 e 60, recebendo junto ao marido, o filósofo Vicente Ferreira da Silva, intelectuais, poetas e artistas plásticos para tertúlias na famosa casa da rua José Clemente; como diretora de revistas literárias (Diálogo, Cavalo Azul) em que colaboraram autores do porte de um Guimarães Rosa; ou como representante daquela linhagem de poetas cuja obra se constrói na soleira do sagrado; o fato é que a "conversa de raízes e corolas transparentes" sustentada por Dora irradiou-se por um vasto espaço.


WEBLIVROS!: A editora Topbooks, do Rio, editou sua obra poética reunida. Em face dessa retrospectiva, como você avalia seu percurso lírico desde Andanças (1970) até agora? Você percebe mudanças de dicção? Obsessões que ficaram mais nítidas?

Dora: Acho que houve um amadurecimento do ponto de vista literário; embora não considere poesia literatura. É uma outra coisa. A literatura é alguma coisa que a pessoa pode estar fazendo com um pé atrás. Já o poema acontece com você dentro dele. É um strip-tease muito maior que um romance, por exemplo, em que há personagens entre os quais o autor pode ou não estar. Podem estar ele e seus heterônimos, com vários outros personagens. Mas a poesia tem qualquer coisa... Não que ela tenha que ser (e ela não é) autobiográfica, mas há flashes de problemas, buscas... O problema religioso está aí, o do amor..., mas sem o pé atrás da reflexão estrita. Há um elemento arracional - não digo irracional - intuitivo, sentimento e pensamento, tudo. E percepção. De vez em quando, você sente o tato das coisas. Todas as funções trabalham na poesia. Certos poetas, estou falando em geral, são mais perceptivos; outros são mais intuitivos; outros, mais reflexivos; ou, mais sentimento. Não conhecia a tipologia junguiana quando fiz meus poemas, mas agora eu conheço. Lendo, comecei um trabalho crítico, de reflexão sobre o feito. Todo poeta tem um crítico lateral. Ele não pode ser muito forte, porque senão é como a luz que entra na câmara fotográfica: vela a imagem. Um poeta que seja muito crítico fará a poesia sofrer. Mas também não pode ser totalmente acrítico, não pode acolher tudo o que lhe vem. Poesia não é tudo o que vem, não é escrita automática. Se bem que, para alguns, pode ser..., há pessoas que fazem escrita automática. Eu trabalho com Dionísio e Apolo: o primeiro momento é o que vem; depois eu edito. Quando escrevo à mão, ainda não consigo editar. Tenho que bater à máquina para tomar distância, objetivar. Há uma objetividade do poema. Quando o poema se destaca, se você começar a mexer demais, estraga tudo. Há um momento em que ele diz: nasci, não mexa mais. Ele não fala, mas você escuta. Gostei disso que a Inezita me deu (mostra um pêndulo com um poliedro de cristal na ponta), porque me dá muito a sensação de um trabalho invisível. A luz passa... a melhor definição de poesia, para mim, é isso aqui. É um trabalho que a luz, o lógos, atravessa... O mythos foi antes, depois tem que vir o lógos. Em certos poetas prepondera o mythos, noutros, o lógos.

WEBLIVROS!: Jung, num texto que você traduziu, "Psicologia e Poesia", diz que as obras de arte têm um papel compensador que restaura o equilíbrio anímico do mundo. Os arquétipos que se podem encontrar nas obras de uma determinada época dialogam com as carências anímicas daquela época. Você também vive insistindo que os problemas que estamos atravessando nesse final de século, como a violência, o desemprego, pobreza, epidemias..., devem ser entendidos como disfunções da anima mundi. Que arquétipos você encontra na poesia contemporânea respondendo a esse estado de coisas?

Dora: É difícil responder genericamente. Não é propriamente o arquétipo que está no poema. Cada poeta tem os seus mitologemas. Esses mitologemas dependem dos ancestrais, das primeiras vivências..., dependem às vezes de uma fotografia que pode provocar falsas lembranças. (Levanta-se e vai pegar uma fotografia do pai com ela, bebê, nos braços.) Essa foi a minha primeira viagem. Pouco depois meu pai morreu, assim jovem, tinha trinta e dois anos. E eu tinha oito meses, eu, a futura tradutora de São João da Cruz. Todas as fotografias dessa época ficaram escuras. Não parece a noche oscura? Era um quintal de tarde. Tenho a impressão que ele fazia isso (faz o gesto de erguer os braços oferecendo o bebê aos céus.) O Donizete (Galvão) me mostrou um texto da Maria Zambrano em que ela fala isso: "Minha primeira viagem foi nos braços do meu pai." Fiquei tão tocada! Donizete vê semelhanças entre nós: ela gosta de São João da Cruz, eu também... Mas isso não quer dizer nada; muita gente gosta. Não tenho uma afinidade muito grande com Maria Zambrano pelo que conheço dela; se bem que conheço pouco. Mas dessa viagem ela fala, um movimento que se alterna: para o alto, e de volta ao peito; para o alto, para o peito. Estranho, não? Isso é um mitologema? Um homem com os pés na terra e que me levanta na direção do céu. É um mitologema, pegando não o conceito, mas o conteúdo. Já vi pais, mães, fazerem isso. A criança até perde um pouco do fôlego... Então, para falar do mitologema, tem que se apoiar em fatos, aparentes fatos da vida da pessoa. Outro exemplo: o crepúsculo. Quando eu era criança, não sabia que o crepúsculo era o crepúsculo. Eu morava em Pinheiros, onde ainda tinha muito mato, muito carrapicho... Minha babá me punha no colo para eu não pegar carrapicho nas perninhas. Um dia, eu me lembro, eu estava no colo dela e vi uma cena terrível: meu pai gritando, sangue, estava morto. Tinha sido atropelado pela carroça. Não eram pensamentos, eram percepções, fulgurações tenebrosas. As primeiras imagens são muito duras. Então o crepúsculo era..., eu entrava chorando em casa, "mamãe, mamãe, o sol caiu do barranco e o céu está cheio de sangue!" E ia chorar no quarto. Vivia o drama do céu, o drama cósmico, como a perda do pai. Mais tarde eu soube que o pôr-do-sol está ligado à morte de Cristo.

WEBLIVROS!: Queria falar agora de um outro autor que faz parte do "paideuma dórico", da Dora: Rilke. Dele você traduziu as "Elegias de Duíno", um trabalho maravilhoso que até hoje circula. Aqui no Brasil - também lá fora, mas vamos nos limitar ao Brasil - a recepção do Rilke se dividiu. É como se houvesse dois Rilkes. Um Rilke de inflexão mais metafísica, que é o Rilke dos Sonetos a Orfeu e das Elegias de Duíno, e outro Rilke, mais objetivista, que é o Rilke dos Novos Poemas. Atualmente preferência da crítica tam se inclinado mais em direção a esse segundo Rilke. O João Cabral diz preferir "a pantera ao anjo"...

Dora: ... eu traduzi "A pantera"! E minha tradução ficou linda. O Flusser falava que eu só traduzia as Elegias, mas é mentira. Tenho uma pasta assim de outras traduções do Rilke. Mas ainda não pus na forma definitiva. É que uma vida é pouca quando a gente quer trabalhar mesmo. Das Dinggedichte, a poesia das coisas, foi resultado de um desafio lançado pelo Rodin. Rodin disse ao Rilke, que foi seu secretário: "Você tem vivências oníricas, os anjos e tal, mas não é capaz de ver as coisas!" Aí o Rilke foi para o Jardin des Plantes e fez aquelas maravilhas que são "O cisne", "A pantera"... Fez poesia sobre os bichos, plantas, fez "A bailarina espanhola" e uma série de outras coisas. Mas eu acho, sinceramente, que o Rilke grande é o das Elegias e dos Sonetos a Orfeu. Para mim. Não se trata de um dogma. Vou te dizer uma coisa: quando eu traduzi as Elegias, era muito jovem, tinha vinte e oito anos, ou menos, não sabia alemão suficientemente. Foi um verdadeiro milagre. Meu professor de alemão falava: "Esse poeta escreve coisas que não querem dizer nada. Nirgends ohne Nichts. Nenhum alemão vai saber o que é isso." Nenhum alemão vai saber, mas ele escreveu, cunhou uma palavra. Daí, entendendo o contexto, e com ajuda de uma tradução do Angelloz, que foi acompanhada pelo próprio Rilke, fui traduzindo. Tenho a impressão de que fiquei tão siderada, não sei se pelo tom visionário... Talvez eu tenha um poço que me ligue diretamente ao Inconsciente Coletivo; o que me permite entrar, de vez em quando, em diálogos completamente assimétricos. O Rilke me ajudou na tradução. Porque, realmente, quando eu leio as Elegias, penso: "Como é possível?" Eu tinha vinte e sete, vinte e oito anos na ocasião, fiz o que homens de setenta anos estão fazendo agora. Fui tomada por alguma força... E não começou com as Elegias. Li Os cadernos de Malte Laurids Brigge em espanhol. Que coisa maravilhosa. Decidi, então, aprender alemão com o Vicente para ler o Rilke no original. Agora, acho que as Elegias e os Sonetos é que são grandes.

WEBLIVROS!: Você diz que, enquanto traduzia "A morte de Empédocles" do Hölderlin, sentia as paredes tremerem. Há um poema seu em que você diz "Não me destruas, Poema / enquanto ergo / a estrutura do teu corpo / e as lápides do mundo morto." Você já sentiu poemas desabarem sobre você? Já foi soterrada?

Dora: Senti medo, muito medo. Quando estive em Delphos, não vi nenhum turista, de tão forte que é a Grécia para mim. Só vi os turistas depois, nas fotografias. Lá em Delphos tive a impressão de que, se ficasse um, dois meses, nunca mais voltaria. Acontecem coisas estranhíssimas. Bebi da Fonte Castália junto com o Edmar (José de Almeida) e a Inezita. Os dois ficaram com dor de barriga, eu não. (risos) (Silêncio)

WEBLIVROS!: Ainda pensando nos seus poemas, você diz que não contratou os serviços de Dédalo; o labirinto veio de graça. Como gerir essa dádiva?

Dora: (Silêncio) A vida não é um labirinto? E não é de graça? Eu não sei se alguém imagina que a vida não seja um labirinto, mas, por mais simples que a pessoa seja, a vida é um labirinto. Nada está predeterminado. Quando o Vicente morreu, fiquei à beira da loucura com a idéia da Moira. Tudo parecia predeterminado. Eu não queria fazer a viagem, estava morrendo de dor de cabeça. Disse: "Vicente, vamos adiar, eu não quero ir, estou morrendo de dor de cabeça!". "Tome um Melhoral", ele me respondeu. Há experiências em que tudo parece predeterminado. Na estrada, quase dois caminhões vieram por cima da gente... A única coisa que me fez superar isso, depois que eu entrei em análise, foi uma explosão, de dentro, religiosa. É o Cristo. E olha que eu saí da Igreja, porque não tenho uma tendência para me conformar a algo externo, institucional. Mas sei que o meu Deus é o Cristo. Não nego tudo o que ficou para trás. Cada cultura, cada povo tem uma Imago Dei. Quando os estudiosos falam em "contexto cultural" parece uma coisa fria; não é. A religião grega está ligada aos atos de cada dia. Para recolher a água, existia a Casa da Fonte, onde as mulheres levavam as bilhas..., tudo é ritual. Aquilo que o meu amigo português falou, que nós somos politeístas, é verdade. No inconsciente, somos politeístas. Uns falam Apolo, outros, Dionísio. Não é flatus vocis. Quando você toma uma bebedeira, não é Dionísio quem bate à tua porta? E, de repente, você fica esquisito, tomado pelo deus. Gosto daquele texto do Lawrence que diz: "A nossa alma é uma floresta sombria. Nela, deuses vão e vêm. Devemos ter a coragem de deixá-los ir e vir." Nossa alma é uma floresta sombria. Mas às vezes há uma explosão tão forte, como a que eu tive ao descobrir o Cristo, cuja luz absorve as outras luzes. Os deuses morrem, não é? Dionísio também é um deus sacrificado... Quando vem o insight não há teoria nenhuma. Ou você volta, e se ordena, ou você enlouquece. Porque entra num vórtice maior que a própria alma. A alma vira um joguete. Todas as experiências fundamentais da vida nos põem em perigo. Guimarães Rosa já disse que "viver é muito perigoso". Mas as pessoas quase não vivem. E talvez façam bem. Se querem ter uma vidinha pacata, o labirinto deve ser simplificado. Mas quem recebe o labirinto de graça e toma o gosto de viver perigosamente - sem citar o Mussolini (risos) -, não desperdiça a dádiva.

Por Fabio Weintraub

:: Obra de Dora Ferreira da Silva

POESIA

Andanças - SP: edição da autora, 1970. (Prêmio Jabuti / Câmara Brasileira do Livro)

Uma via de ver as coisas - SP: Duas Cidades, 1973.

Meninaseumundo - SP: Massao Ohno, 1976.

Jardins (esconderijos) - SP: Supolo, 1979.

Talhamar - SP: Massao Ohno / Roswitha Kempf, 1982. (Menção Honrosa no Prêmio PEN Clube de São Paulo)

Retratos da Origem - SP: Roswitha Kempf, 1988.

Poemas da Estrangeira - SP: T. A. Queiroz, 1995. (Prêmio Jabuti / Câmara Brasileira do Livro)

Poemas em fuga - SP: Massao Ohno, 1997.

Obra poética reunida - RJ: Topbooks, 1998.


TRADUÇÃO

DE LA CRUZ, San Juan - A poesia mística de San Juan de la Cruz - SP: Cultrix, 1984.
JUNG, Carl Gustav - Memórias, sonhos e reflexões - RJ: Nova Fronteira, 1975. --Mysterium Conjunctionis - Petrópolis: Vozes, 1998-- O Aion - Petrópolis: Vozes, (data ?)--O Eu e o Inconsciente - Petrópolis: Vozes, (data ?)--Psicologia e Alquimia - Petrópolis: Vozes, (data ?)--Resposta a Jó - Petrópolis: Vozes, (data ?)
RILKE, Rainer Maria - Elegias de Duíno - Porto Alegre: Globo, 1972.--Vida de Maria -Petrópolis: Vozes, 1994.
SILESIUS, Angelus - Viajante Querubínico (fragmentos) in Angelus Silesius - SP: T. A. Queiroz, 1986.
TAULER, Jean - Sermões - Petrópolis: Vozes, 1998.

ENSAIO
Angelus Silesius (em colaboração com Hubert Lepagneur) - SP: T. A. Queiroz, 1986.
Tauler e Jung (em colaboração com Hubert Lepagneur) - SP: Paulus, 1998.

fonte do texto:
http://www.weblivros.com.br/entrevista/dora-ferreira.html
fonte da imagem:
http://www.revista.agulha.nom.br/ag55silva1.jpg

Leia dois belos poemas da Dora no blog Eu-lírico.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Leão do Norte



Sou o coração do folclore nordestino

Eu sou Mateus e Bastião do Boi Bumbá

Sou o boneco do Mestre Vitalino

Dançando uma ciranda em Itamaracá

Eu sou um verso de Carlos Pena Filho

Num frevo de Capiba

Ao som da Orquestra Armorial

Sou Capibaribe

Num livro de João Cabral



Sou mamulengo de São Bento do Una

Vindo no baque solto de um Maracatu

Eu sou um auto de Ariano Suassuna

No meio da feira de Caruaru

Sou Frei Caneca do Pastoril do Faceta

Levando a Flor da Lira

Pra nova Jerusalém

Sou Luis Gonzaga

E eu sou mangue também


Sou Macambira de Joaquim Cardoso

Banda de Pife no meio do Canavial

Na noite dos tambores silenciosos

Sou a calunga revelando o Carnaval

Sou a folia que desce lá de Olinda

O Homem da Meia-noite puxando esse cordão

Sou jangadeiro na festa de Jaboatão


Eu sou mameluco, sou de Casa Forte
Sou de Pernambuco,
Eu sou o Leão do Norte

Lenine

(Ainda em desagravo aos nordestinos, ofendidos pela mídia sudestina,
e em comemoração da memorável façanha do Sport Club do Recife,
contra tudo e contra todos, campeão da Copa do Brasil.
Assim se faz um mito!!!)

sábado, 7 de junho de 2008

Força mítica da paisagem pernambucana

Coqueirais de Maracaípe - PE

Hino do Estado de Pernambuco
Letra: Oscar Brandão
Música: Nicolino Milano
.

Coração do Brasil! em teu seio
Corre sangue de heróis - rubro veio
Que há de sempre o valor traduzir
És a fonte da vida e da história
Desse povo coberto de glória,
O primeiro, talvez, no porvir.

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

Esses montes e vales e rios,
Proclamando o valor de teus brios,
Reproduzem batalhas cruéis.
No presente és a guarda avançada,
Sentinela indormida e sagrada
Que defende da Pátria os lauréis.

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

Do futuro és a crença, a esperança,
Desse povo que altivo descansa
Como o atleta depois de lutar...
No passado o teu nome era um mito,
Era o sol a brilhar no infinito
Era a glória na terra a brilhar!

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

A República é filha de Olinda,
Alva estrela que fulge e não finda
De esplender com seus raios de luz.
Liberdade! Um teu filho proclama!
Dos escravos o peito se inflama
Ante o Sol dessa terra da Cruz!

Salve! Oh terra dos altos coqueiros!
De belezas soberbo estendal!
Nova Roma de bravos guerreiros
Pernambuco, imortal! Imortal!

* A letra foi obtida na página oficial do
Governo do Estado de Pernambuco,
pelo site abaixo:

http://www.suacara.com/hino_pernambuco.htm

Fonte da img.:
http://www.flickr.com/photos/ignaciovicent/289379826/

Além da beleza da imagem, questões de ordem
imperiosa me forçaram a publicar esse post.
Os que destratam, nos últimos dias, a gente pernambucana,
pela imprensa sudestina, são o alvo dessa postagem.
Peço a compreensão dos amigos blogueiros, sempre fraternos
e sem preconceito algum com o nordeste.
Mas temos de resistir.
E esse blog é nicho da mítica resistência pernambucana!!!

domingo, 25 de maio de 2008

Brennand visita o Sítio d'Olinda


Confira a visita virtual desse escultor mitopoético
ao Sítio intra-histórico d'Olinda, no post anterior:

PAISAGEM E MITO
















Ainda sob o influxo do insight que recebi do pequeno Matheus Kunz, abaixo transcrevo fragmentos dos “Diálogos do Paraíso Perdido”, apaixonado depoimento do escultor Francisco Brennand, em meados de 1990:




DIÁLOGOS DO PARAÍSO PERDIDO

F. Brennand



Cap. 2 - VISÃO MÍTICA DA TERRA


O mito das Terras Sagradas foi cultivado em toda a civilização ocidental através de seus melhores espíritos. (...) Certamente que este mito é tão antigo quanto o homem e se encontra enraizado em todos os tipos de cultura, quer ocidentais quer orientais.

Já no século XVI, em pleno Renascimento, quando o humanismo deslocara Deus do centro da história, para nesse centro colocar o homem, o mito permanece. Não foi por acaso que os “descobridores” portugueses deram ao nosso país o nome de Terra de Santa Cruz. (...)

Mas, o que não deixa de ser curioso, e até perturbador é que no século XIX grandes artistas europeus  em pleno florescimento da civilização industrial  voltassem suas vistas e os seus secretos pensamentos para as grandes florestas do mundo. Pintores como Paul Gauguin, que se instalou em Fatu-Iva, ilha das Marquesas, quase ainda antropofágica, à procura do que ele declarava ser indispensável para a plena realização de sua arte. (...) Com as antenas da imaginação Henry Rousseau, esse mágico ilustrador de florestas tropicais e bichos imaginários, reencontrou toda a verdadeira visão de um país distante e sagrado, ainda em estado selvagem. (...) mesmo escritores aparentemente afastados deste mundo mítico por preocupações psicológicas de outra espécie, como D. H. Lawrence e Thomas Mann (...) escreveram páginas de impressiva perplexidade sobre a alegria da vida livre, animal e humana; como se imaginassem escapar do fictício e entrar no coração da própria natureza selvagem. Eu mesmo não escapei ao sortilégio da busca de imagens míticas milenarmente repousadas no coração de nossa própria terra.

Isso levou-me, quase inconscientemente, a Euclydes da Cunha. E quando consultava À Margem da História, lá estavam as sugestões míticas inconscientemente procuradas, à página sete, em que o autor de Os Sertões sugere, contemplando a paisagem amazônica, “um recuo às mais remotas idades, como se rompêssemos os recessos de uma daquelas mudas florestas carboníferas...” Na continuação dessa história  e é esse exatamente o meu propósito,  de sublinhar o insólito desse acontecimento  alguma coisa interrompeu-me a atenção e fez desdobrar meus pensamentos em direções ocultas, como se, de repente, outras narrações se sobrepusessem à de Euclydes e se entremeassem às suas próprias linhas: a mesma paisagem sufocante de mil olhos que espreitam os mesmos pântanos tropicais, as mesmas árvores deformadas como em sonhos. Foi-me difícil admitir, mas o texto evocado era de Thomas Mann, do seu livro A Morte em Veneza, uma das mais completas descrições de uma floresta tropical que conheço, só comparável às pinturas florestais de Henry Rousseau (...) Essa página de um escritor alemão, em cujas veias corria o sangue brasileiro, não pode deixar de ser lida, pois tem toda uma conotação simbólica com o nosso mundo. (...) O personagem Aschembach é tocado pela vertigem daquilo que o poeta Baudelaire chamava “as inquietações malditas” e pela primeira vez sente fugir dos seus pés o sólido pavimento europeu. (...) sentiu a surpreendente consciência duma quebra de barreiras interiores (...) duma sede ardente e juvenil por cenas distantes.

 (...) Na verdade o que ele sentiu foi mais do que um desejo veemente de viajar (...) vindo com tal arrebatamento e paixão que se assemelhava a um seqüestro, quase a uma alucinação. Desejo visualmente projetado: (...) a sua fantasia (...) imaginou as maravilhas e terrores da terra multiforme. Ele viu. Contemplou uma paisagem, um pântano tropical sob um céu enegrecido, vaporoso, monstruoso,  uma espécie de mundo selvagem e primaveril  fileiras de ilhas, canais, pântanos e aluviais. Troncos de palmeiras ramalhudas erguiam-se, aqui e além, perto de escuros amontoados de fetos, tufos de espessa vegetação fértil, bojuda, grossa, com incrível florescência. Havia árvores deformadas como em sonhos que estendiam as suas raízes nuas, eretas, através do ar, para a terra ou para a água estagnada, sombria e esverdeada, onde gigantescas flores cor de leite flutuavam e onde estranhas aves, com curiosos bicos, olhavam prudentemente imóveis e silenciosas. Entre as nodosas hastes dum bosque de bambus, brilhavam os olhos de um tigre agachado  e ele sentiu o coração pulsar aterrorizado, ainda sob o inexplicável e veemente desejo. Então a visão desvaneceu-se.********************************************
Essa visão mítica da terra, perseguida por diversos artistas europeus, encontrou no nosso Francisco Brennand, um esplêndido território imaginativo, um acolhedor regaço de urvater, com suas avoengas barbas de algodão, tão universalmente nordestino e brasileiro. Vem desse patriarca da Várzea do Capibaribe, a intuição mítica e ancestral de que:
“(...) somos ao mesmo tempo árvores e frutos, mares e montanhas, animais e homens, alcançando esta (...) unidade original (...) que prefigura a nossa civilização tropical.”

Para fechar essa postagem, que já se alonga demais, trago a prosa-quase-poética de Paul Gauguin, num manuscrito do Tahiti, chamado Noa-noa, que bem poderia ser chamado de Paisagem e Mito, título que dá nome às minhas últimas reflexões, surgidas a partir da intuição do pequeno Matheus Kunz, desde lá da distante Copenhague:

Noa-noa


E a velha floresta cuja férvida seiva

se enriquece expandindo-se em
descuidadas ondas
esbeltas palmeiras cujos frutos se agitam
nos céus,
tamarindos, papoulas, fetos
gigantescos...
o pau-rosa e a manga que enchem o ar
com um fausto de sombra e de perfume,
árvore de ferro
e as que são pródigas de doces frutos 
carnes e pão  e as que se oferecem
por si,
muros e telhados de casas, altivas naves
e tálamos
tornam a vida um sonho belo, abolidos
o trabalho e a fome, a miséria e a inveja.
A Floresta, inteira ao cabo da vida
imensa,
morte perpétua, renascença sem fim.

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Não é à toa que o Brennand intitulou o livro de onde extraí o quase-poema acima, como Diálogos do Paraíso Perdido. Estamos “perdendo” o planeta Terra, como vaticina o milenar relato bíblico. 
Ainda há tempo de mudar a nossa civilização?
Perguntemos ao Bush Jr.
***

Dedico também esta postagem ao poeta Eurico, que anda às voltas com a busca das matrizes mitopoéticas da brasilidade (vide Tupã M'tói), mais ou menos ao modo como faz o Brennand, com as suas esculturas, e como fez o poeta-mor Fernando Pessoa, com o misticismo mítico de seu Mensagem(1934). 


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Fonte da imagem:


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Fonte do texto:
Brennand, Francisco, Diálogos do Paraíso Perdido,
Recife: Editora da Prefeitura da Cidade do Recife, 1990, pp. 88-108

terça-feira, 20 de maio de 2008

Olinda, segundo Gilberto Freyre

Largo do Amparo


“Não se pode falar de Olinda, esquecendo sua luz. Não sua luz elétrica: mas a sua luz de sol. É ela que dá às águas do mar que se vêem do alto de qualquer dos oito montes de Olinda e aos montes da cidade que se vêem do alto-mar, vindo de vapor da Europa ou dos Estados Unidos, do Norte ou do Sul do Brasil, a riqueza extraordinária da cor que encantou o alemão Gunther e já tinha encantado o pernambucano Joaquim Nabuco.
Para Nabuco, a beleza de Pernambuco vinha principalmente de sua luz. Tudo que ele exalta, em página célebre, na paisagem de Pernambuco, em geral, e na de Olinda, em particular, é efeito de luz: o céu que não é o mesmo um minuto; o mar que está sempre mudando de cor; o brilho metálico do espanador de coqueiros; a sombra rendada das jaqueiras e mangueiras. É ainda a luz: o céu que não é o mesmo um minuto; o mar que está sempre mudando de cor; o brilho metálico do espanador de coqueiros; a sombra rendada das jaqueiras e mangueiras. É ainda a luz que deixa ver o fundo da areia do Beberibe tornando outrora tão gostosos os seus banhos. Que dá vida às ruínas sufocadas pelos matos.
Que dá brilho aos azulejos velhos das sacristias, dos corredores de convento, das frentes dos sobrados, mas não deixa que eles nos doam cruamente nos olhos! Que não deixa que os vultos dos mosteiros e das igrejas dominem Olinda com abafados de sombras duras, negras e tiranicamente clericais, povoadas de corujas e morcegos, mas que adoça-as em sombras tão boas que não há, no meio delas, quem se sinta brasileiro sem se sentir, ao menos por um instante, ou, pelo menos franciscanamente, católico. Não só as árvores, como os passarinhos e as crianças, tem de Olinda uma intimidade com as igrejas velhas que em poucos lugares será tão grande; e tudo por causa da luz que faz a natureza estar sempre refrescando a tradição; que dá coragem às lagartixas para passearem pelos pés dos São Bentos mais sisudos; coragem aos passarinhos para pousarem nos São José dos altares, nas próprias coroas de ouro das Nossas Senhoras.
Que luz é esta – a que dá a estes montes, a estas praias, a estas águas, e às suas casas, às suas igrejas, às suas barcaças a vela, uma doçura que nem toda luz tropical dá às coisas e aos homens? Que faz dizer um homem alemão, e um homem de ciência viajando, conhecedor de outras terras dos trópicos: “quem sentiu uma vez o encanto desta luz se sentirá sempre tentado a voltar a estas latitudes”?
Será por causa dela - dessa luz -, que os habitantes desta parte do Brasil são tão fiéis ao seu torrão”, reparou o alemão de sua cadeira de balanço no Mosteiro de São Bento. A luz do sol no Brasil – escreve ainda o Professor Gunther, referindo-se principalmente a Pernambuco – parece ter uma qualidade diferente da luz do sol na Índia. “É que na Índia, observou ele, os raios amarelos parecem ser predominantes. Daí ser preciso, quando se tiram fotografias, dar exposição mais longa do que no Brasil ou na Europa.” ...


(Fragmentos do livro Segundo Guia Prático, Histórico e Sentimental de Cidade Brasileira , de Gilberto Freyre/ Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro 1968).



FONTES:

Texto:
http://www.pauloklein.art.br/reportagem01b.htm

Imagem: Largo do Amparo-Olinda
http://www.shunya.net/Pictures/Brazil/RecifeOlindaIlheus/OlindaStreet2.jpg

terça-feira, 13 de maio de 2008

Olinda mitopoética

Vista aérea do alto da Sé e entorno.
(meu Sítio fica situado no declive daquela colina)
***
O mito é uma epifania do imaginário irrompendo na realidade.
******************* João de Jesus Paes Loureiro


Foi o Matheus Kunz, desde lá da distante Copenhague, quem me chamou a atenção definitivamente para a força da paisagem do Sítio d’Olinda. E também para a força da paisagem de qualquer lugar do planeta.
É preciso contemplar Olinda com os olhos da alma. Essa é a perspectiva lírica de quem escreve, de quem pinta, de quem faz canções.
No entanto, essa apreensão do mundo circundante, a apreensão lírica, não é privilégio do artista, mas é também do homem comum, seja nativo ou visitante, e, principalmente, da criança que em nós habita.
Só a criança esmaga o nariz na vidraça, e mergulha fundo na paisagem.
Pois bem, é da paisagem que surge a compreensão inicial da realidade. E essa leitura, dizia Cassirer, é uma compreensão mítica. Por isso, considero que a paisagem deve ser a mãe de todos os mitos.
E é a isso o que me leva a percepção do Matheus, desde lá do outro hemisfério:
O mito nasce da paisagem que nos envolve, que nos acolhe, ou mesmo a que nos assusta, como as cataratas e os vulcões.
Descubro também que o poeta, como uma criança na janela do trem, apreende líricamente a realidade, fazendo dela irromper o imaginário.
Só para ilustrar o que digo, vejamos um poema do Niemeyer, o poeta/arquiteto:

Não é o ângulo reto que me atrai.
Nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual.
A curva que encontro
nas montanhas do meu país,
No curso sinuoso dos seus rios,
Nas ondas do mar,
Nas nuvens do céu,
No corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o Universo.
O Universo curvo de Einstein.

Oscar Niemeyer

Nesse texto está um exemplo de apreensão lírica da realidade. A leitura de Niemeyer está fundada numa experiência poético-intelectual, que pode ser vivida por qualquer um de nós. E é maravilhoso descobrir que a cidade de Brasília é a concretização dessa visão de mundo. Brasília tem uma origem mitopoética, como costuma dizer o meu compadre Lula Eurico.
A mesma origem tem Olinda ou Copenhague. Depende dos olhos de quem vê...

Essas são as reflexões a que me levou o amigo Matheus, nessa manhã fria do inverno d’Olinda, não tão fria como a distante Copenhague, cidade em que a família Kunz fez seu ninho e de onde a Ilaine abre, delicadamente, o seu Baú de Espantos. Dali contemplam, via internet, essa bela imagem da verde e exuberante colina da Sé .

Essa postagem é dedicada ao Matheus Kunz, filho da amiga Ilaine.
(Dedico também ao meu compadre Eurico,
que deve estar morrendo de saudade
dos passeios vespertinos pelo Sítio d'Olinda).
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Visitem o site abaixo e vejam mais imagens d'Olinda:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=204749